Capítulo 3: Não estou mais sozinho

Ponto de vista de Damien

Os três lobos finalmente chegaram à área designada — uma parte isolada da floresta, cercada por árvores gigantescas que pareciam se estender infinitamente até o céu.

A clareira já estava tomada por outros lobos machos, alguns dos quais já haviam mudado para suas formas lupinas. Os demais andavam de um lado para o outro, inquietos, com os olhos brilhando com a necessidade primordial de encontrar suas companheiras. Eles esperavam pelo cheiro — o aroma sobrenatural que despertaria seus instintos e os conduziria àquela que lhes era destinada.

Damien, Xavier e Magnus diminuíram o ritmo ao entrar na clareira, seus corpos poderosos relaxando enquanto voltavam à forma humana. Os músculos doíam de leve por causa da corrida, mas eles deixaram o incômodo de lado. Aquilo era só o começo.

Eles se juntaram aos outros homens reunidos ao redor do Mestre da Cerimônia, uma figura imponente vestida com mantos escuros. Os olhos do homem eram afiados, e seu olhar percorreu os participantes. Ele esperou até que os últimos retardatários chegassem antes de erguer a mão, impondo silêncio.

— Bem-vindos, rapazes... Esta noite marca o início da Purga Anual, uma noite em que vocês não apenas provarão sua força, como também buscarão aquilo que a Deusa da Lua destinou para vocês. As fêmeas humanas serão soltas na floresta em breve. Elas são sua presa, mas lembrem-se — esta não é uma caça comum.

O coração de Damien martelava no peito enquanto ele ouvia.

— Cada um de vocês será guiado pelos instintos do seu lobo. O cheiro sobrenatural dirá quem é seu. Vocês só podem marcar aquelas que pertencem a vocês. É um vínculo sagrado, que não pode ser quebrado. Mas fica o aviso: as humanas receberam uma chance de escapar. Se chegarem ao Rio Musk, do outro lado da floresta, estarão livres, e vocês perderão a sua oportunidade.

Xavier trocou um olhar com Damien, a expressão séria.

— A aposta não podia ser maior — resmungou ele, embora nem fosse preciso o Vínculo da Matilha para Damien sentir o peso daquelas palavras.

Magnus assentiu, os olhos semicerrados.

— Não podemos nos dar ao luxo de perdê-las. Não desta vez.

Damien fechou os punhos.

— Então não vamos — disse, com firmeza. — Vamos encontrar nossas companheiras esta noite, aconteça o que acontecer.

O Mestre da Cerimônia deu um passo para trás, o olhar varrendo os lobos reunidos.

— Vocês têm até o amanhecer — anunciou.

— Por que soltar as fêmeas humanas? — rosnou um dos lobos, um homem de ombros largos e cabelo riscado de prata. — Se elas são destinadas a nós, por que deixá-las correr?

Outro lobo, um homem mais jovem, de olhos ardentes, assentiu em concordância.

— Parece um jogo cruel. Podemos perdê-las se elas chegarem ao rio. Isso não parece certo.

Damien, ainda em sua forma humana, ouviu, mas não disse nada. Entendia bem a frustração e a impaciência deles. E, no entanto, no fundo, ele conhecia a verdade.

O Mestre de Cerimônia, percebendo a inquietação, ergueu a mão para silenciá-los.

— Novatos, pelo visto. — Houve uma pausa. — Isto não é apenas uma caçada — lembrou. — Isto é um teste do destino, da vontade da Deusa da Lua. Se uma humana chegar ao rio, é porque ela não era destinada a você. O vínculo que buscamos não pode ser forçado. Precisa ser predestinado.

As palavras se assentaram sobre eles. Eles sabiam que nem todos encontrariam suas companheiras esta noite. Para alguns, a noite terminaria em decepção. Mas, para outros, para os escolhidos, seria o começo de algo muito maior.

Xavier se virou para Damien, os olhos refletindo a luz trêmula da fogueira que agora era acesa no centro da clareira.

— É o destino, Damien. Nada mais, nada menos. Só a Deusa da Lua vai decidir quem está destinado a encontrar sua companheira esta noite.

Damien assentiu.

— Eu sei — respondeu. — Mas isso não torna mais fácil.

Magnus, ao lado deles, estalou os nós dos dedos.

— A gente só precisa confiar que, se tiver que ser, vai ser. E se não… — Ele deixou a frase no ar, sabendo que aquelas palavras pouco confortavam.

A fogueira ganhou vida com um rugido, suas chamas lambendo o céu. O cheiro de madeira queimando encheu a clareira.

— É hora — anunciou o Mestre de Cerimônia. — Agora, transformem-se, e que a caçada comece.

Sem hesitar, os incontáveis homens ao redor do fogo começaram a se transformar, seus corpos se contorcendo enquanto seus lobos assumiam o controle. Pelos substituíram a pele, ossos estalaram e se refizeram e, logo, a clareira se encheu de rosnados e uivos.

Damien, Xavier e Magnus fizeram o mesmo, todos prontos para caçar.

À medida que os sentidos de lobo de Damien se aguçavam, ele captou o mais tênue vestígio de algo no ar — algo que lhe percorreu a espinha com um arrepio. Ainda não era o cheiro de sua companheira, mas estava perto.

A floresta ao redor ganhou vida em movimento quando os lobos se dispersaram entre as árvores, as narinas tremendo enquanto buscavam o aroma fugidio que os levaria àqueles a quem estavam destinados.

Ponto de vista de Meredith

Meredith acordou, recebida pela escuridão. Piscando contra as sombras, ela lutou para entender onde estava. Aos poucos, a névoa em sua mente começou a se dissipar. Ela ainda estava viva.

O coração disparou quando ela se lembrou do que aquela noite significava: o Expurgo Anual — o momento em que lobisomens caçavam mulheres humanas. Agora ela era uma delas, uma presa nesse jogo mortal.

A lembrança da irmã mais velha atravessou sua mente como um relâmpago. Ela tinha sido levada de um jeito parecido, e Meredith nunca mais a viu.

Meredith olhou em volta e percebeu que estava presa dentro de uma caixa de madeira. A madeira áspera arranhava sua pele quando ela se mexia. E não era só ela — inúmeras outras mulheres a cercavam, espremidas na mesma caixa, a maioria ainda dormindo.

— Por favor… alguém ajuda a gente — soluçou uma mulher.

— Eu não quero morrer… — murmurou outra voz. — A gente vai morrer aqui, não vai?

As mãos de Meredith tremiam enquanto ela tentava encontrar alguma abertura. Mas as paredes pareciam se fechar sobre ela, dificultando até respirar. Ela não podia ficar ali. Tinha que sair.

De repente, houve um farfalhar do lado de fora da caixa, e as mulheres se calaram. O som ficou mais alto, mais perto, até que, por fim, uma figura surgiu na borda da caixa.

Era um garoto, não devia ter mais de dezesseis anos, o rosto parcialmente escondido pelo capuz da capa. Ele carregava uma pequena lanterna. Parecia um guarda, mas havia algo diferente nele.

Os olhos de Meredith encontraram os dele e, num sussurro desesperado, ela implorou:

— Por favor, nos ajude. Deixe a gente ir.

Os olhos do garoto suavizaram, mas ele balançou a cabeça.

— Eu não posso — sussurrou de volta. — Ninguém pode interferir com o destino. Você foi escolhida por um motivo.

O coração de Meredith afundou.

— Tem que existir um jeito — insistiu. — Por favor… eu não quero morrer aqui.

O garoto hesitou, olhando ao redor como se verificasse se havia observadores invisíveis. Então se inclinou para mais perto dela.

— Tem um jeito — sussurrou com urgência. — Se você chegar ao Rio Musk, vai estar livre. Mas precisa ser rápida. Eles vão começar a caçar em breve.

Meredith pigarreou.

— O rio… Como eu chego lá? — perguntou.

O garoto apontou através de uma pequena fresta na caixa, onde uma única estrela brilhava forte no céu noturno.

— Vá naquela direção — disse. — É sua única chance.

Antes que Meredith pudesse dizer mais alguma coisa, o garoto se enfiou de volta nas sombras.

Ao redor dela, as outras mulheres começaram a se mexer, algumas acordando, outras gritando por ajuda. A floresta do lado de fora permanecia imóvel.

Sozinha, Meredith chorou baixinho. Chorou pelos momentos perdidos da própria vida, pelos sonhos que talvez nunca se realizassem. Chorou pela vida que um dia conheceu e pelo futuro que, pouco a pouco, escapava por entre seus dedos.

O garoto voltou pouco depois. Suspirou antes de erguer os olhos para o céu, onde a fumaça se enroscava no ar da noite. A cerimônia tinha começado, e a caçada estava a poucos instantes de distância.

Os olhos do garoto tremularam quando ele notou outros meninos se aproximando das outras caixas de madeira. Ele se inclinou uma última vez.

“Te desejo o melhor...”

Com isso, ele recuou, e o som de trancas sendo destravadas preencheu o silêncio.

De repente, a caixa se abriu de supetão. As mulheres saíram correndo, seus gritos cortando a noite enquanto fugiam para a floresta.

O coração de Meredith disparou quando ela saiu da caixa em disparada. O som de rosnados ecoava entre as árvores. Ela correu pela própria vida, com o olhar fixo na pequena estrela que a guiava pela escuridão.

Os galhos arranhavam sua pele enquanto ela se forçava a ir mais rápido. Mas então seu pé prendeu numa raiz saliente, e ela tropeçou, caindo com força no chão.

Uma dor aguda atravessou seu tornozelo, e por um instante ela ficou ali, sem ar.

“Não, não, não”, murmurou, forçando-se a se levantar.

Ela seguiu em frente mancando, com o som da água ficando mais alto. Estava tão perto. Só mais um pouco, e ela alcançaria o rio.

Mas, antes que pudesse dar outro passo, algo se chocou contra suas costas. O impacto expulsou o ar de seus pulmões, e ela foi arremessada ao chão.

Ela sentiu uma presença se erguer sobre ela, o hálito quente de um predador roçando seu pescoço. Tinha chegado tão perto, só para ser arrastada de volta ao pesadelo.

Meredith apertou os olhos, com lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto se preparava para o que viria.

“Por favor”, sussurrou para a escuridão. “Por favor... não me mate...”

Meredith esperava sentir a mordida afiada de presas e o rasgar de garras. Mas, em vez disso, houve um rosnado baixo que ecoou ao redor dela.

O peso pressionando suas costas ficou mais pesado, prendendo-a ao chão, mas a dor que ela esperava nunca veio.

Ela mal teve tempo de processar o que estava acontecendo antes de sentir dedos quentes erguerem seu queixo com gentileza. Sua respiração falhou quando seu rosto foi inclinado para cima, obrigando-a a encontrar o olhar do homem agachado sobre ela.

Ele era de tirar o fôlego, com olhos de aço que pareciam atravessá-la por completo. Ele se inclinou para perto, a respiração quente contra suas bochechas, e sussurrou uma única palavra.

“Minha.”

Mais duas feras enormes emergiram das sombras atrás dele, suas formas se transformando até que ficaram de pé como homens nus, os músculos ondulando sob o luar. Seus olhos queimavam com a mesma intensidade dos olhos do primeiro homem.

Lentamente, eles se aproximaram dela.

Os lábios de Meredith se entreabriram enquanto todos a fitavam de cima, seus olhares cheios de fome.

E então, como se fosse um sinal combinado, falaram em uníssono.

“Minha.”

Já não era apenas uma palavra, mas um voto.

Ela estava cercada, reivindicada por aqueles seres poderosos. Meredith soube naquele exato momento — ela não estava mais sozinha. Ela era deles.

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