Capítulo 6: Fugindo
Ponto de vista de Meredith
Meredith despertou aos poucos, o corpo dolorido e fraco, enquanto piscava devagar para abrir os olhos. A primeira coisa que percebeu foi a maciez sob ela — uma cama, muito mais confortável do que qualquer coisa que já tivesse conhecido. Então ela sentiu. Calor pressionando dos dois lados, corpos duros — perto demais para ser confortável. O fôlego lhe travou quando virou o rosto para o lado e viu um homem deitado ao seu lado. Não, não era qualquer homem.
Ele era bonito, de traços másculos, com músculos marcados até mesmo dormindo. Estava com a pele à mostra, e ela logo percebeu que ele estava completamente nu. Seu pulso disparou quando o pânico a tomou. Virando para o outro lado, viu outro homem igualmente deslumbrante, também nu, o peito subindo e descendo ritmadamente enquanto dormia.
Logo, memórias fragmentadas começaram a inundar sua mente. O Expurgo Anual. A floresta escura. Correndo. Os rosnados, a perseguição. Os três cercando-a. Presas cravando na sua carne. Dor e outra coisa — algo muito mais intenso do que qualquer coisa que ela já tivesse sentido.
— Oh, Deus — sussurrou, sem fôlego. — Lobisomens.
Os olhos castanhos de Meredith se arregalaram quando a verdade a atingiu como um tapa. Ela tentou se sentar, mas os músculos protestaram a cada movimento. Um gemido escapou de seus lábios, e foi então que notou os dois homens ao lado dela se mexendo. O alfa Damien foi o primeiro a acordar. Os olhos dourados dele brilharam ao pousarem nela, atentos e afiados num instante.
Um leve sorriso puxou o canto de sua boca, mas havia outra coisa em seu olhar — um lampejo que fez o coração dela perder uma batida. Xavier veio em seguida, o olhar mais suave, porém não menos intenso. Os dois se sentaram, movimentos lentos e deliberados, como se tentassem não assustá-la. Mas era tarde demais. Meredith se afastou às pressas, as costas pressionadas contra a cabeceira enquanto o pânico a agarrava.
— Fiquem longe de mim — ela arfou. — Vocês... vocês são lobisomens. Vocês me morderam. Vocês vão me matar!
As sobrancelhas de Damien se franziram, e ele negou com a cabeça.
— Não, Meredith — disse, suave. — Nós não vamos te machucar...
— Como você sabe o meu nome? — Ela paralisou, os olhos indo de um ao outro. — O que vocês fizeram comigo?
Xavier estendeu a mão na direção dela, mas parou ao vê-la se encolher. Hesitante no começo, ele passou a língua nos lábios e disse com gentileza:
— Nós marcamos você. — Sua voz era calmante. — Não para te ferir, mas para reivindicar você como nossa companheira.
A respiração de Meredith veio em golfadas irregulares conforme o peso daquelas palavras se assentava.
— Companheira? — repetiu. — O que isso quer dizer?
Damien se aproximou, o olhar fixo no dela. Ele suspirou.
— Vejo que você não se lembra. O Expurgo Anual não é sobre matar. É um jeito de encontrarmos nossas verdadeiras companheiras. Quando mordemos você, estávamos conectando nossas almas à sua. Você não é mais só humana. Está se tornando uma de nós. Uma lobisomem.
As mãos dela voaram ao pescoço, onde as marcas ainda formigavam.
— Não... não, isso não pode ser. Eu sou fraca, eu sou só humana. Eu não posso ser como vocês. Eu não quero ser como vocês.
— Você não é fraca — disse Xavier, firme, a mão dele erguendo com delicadeza o queixo dela, obrigando-a a encarar seu olhar. — A mordida limpa você da sua identidade humana. Em breve, sua própria loba vai emergir, e você vai ser mais forte — mais forte do que jamais imaginou. Você é uma de nós agora, goste ou não. Você foi escolhida, e seu destino já foi decidido.
— Por que eu? — ela sussurrou. — Por que vocês me escolheram?
Xavier se inclinou mais, quase a beijando.
— Nós não escolhemos você. O destino escolheu.
Os dedos de Damien roçaram a bochecha dela, um gesto delicado demais para a tempestade de emoções que rugia dentro dela. “Sinto muito, mas isso não é um sonho. Você é nossa agora.”
Ela engoliu em seco, percebendo que não havia volta. Damien a observava com paciência, os olhos suavizando quando notou o olhar dela saltando pelo quarto. A respiração de Meredith ainda estava irregular, o corpo tremendo levemente com a enxurrada esmagadora de sensações estranhas. Damien se inclinou mais, beijando de leve a bochecha dela com lábios macios.
— Como você está se sentindo, docinho? — perguntou ele.
Meredith engoliu em seco, a mente ainda tentando juntar as imagens fragmentadas da noite anterior. Ela se lembrava do poder no toque deles, de como o corpo reagira de um jeito que ela nunca imaginara. E agora ali estava ela, marcada por três deles, reivindicada como companheira. Uma parte queria recuar, assustada, mas outra se sentia atraída, presa a eles de um modo que ainda não conseguia entender.
Ela estreitou os olhos ao olhar em volta.
— Só tem dois de vocês aqui... — murmurou. — Onde está o outro?
Damien e Xavier trocaram um olhar antes de Damien responder:
— Magnus está no quarto dele por enquanto — disse. — Achamos que seria melhor te dar um pouco de espaço. O quarto vai ser reconstruído em breve para acomodar todos nós... por enquanto.
O coração de Meredith disparou.
— Todos nós?
A ideia de dividir um quarto — quanto mais uma cama — com os três era quase demais para suportar.
— Sim — disseram os dois homens, com suavidade.
O silêncio se estendeu até Meredith falar:
— Eu quero ir para casa. Para longe daqui. Para longe de... tudo isso.
Xavier balançou a cabeça de leve.
— Sinto muito, minha companheira linda, mas você não pode mais voltar para casa.
Damien se inclinou, a mão ainda pousada na bochecha dela.
— A Alcateia Luar é sua casa agora, e para sempre.
O peito de Meredith se apertou. Os olhos se encheram de lágrimas, mas ela lutou para segurá-las.
— Eu não pedi por isso.
Os olhos de Damien suavizaram, e ele abaixou a cabeça, encostando a testa na dela com delicadeza.
— Nem nós.
Meredith fechou os olhos, tentando acalmar a tempestade de emoções que crescia dentro dela. Inspirou com força antes de perguntar:
— Vocês... podem me dar um momento sozinha?
Surpresos com o pedido, Damien e Xavier trocaram olhares, mas assentiram sem hesitar.
— Claro — murmurou Damien, levantando-se da cama. — Vamos estar bem ali fora.
Com isso, os dois saíram do quarto, e ela ouviu o baque suave da porta se fechando atrás deles. Finalmente sozinha, Meredith se sentou, a respiração acelerando enquanto olhava em volta, procurando um jeito de sair. Logo seus olhos pararam na janela. Era a única chance — o único modo de escapar daquele pesadelo. Sem pensar duas vezes, ela foi até a janela, mexendo no fecho o mais silenciosamente possível.
A brisa fria do começo da manhã bateu no rosto dela quando empurrou a janela para abrir, trazendo o cheiro da floresta e do orvalho fresco. Ela saiu depressa, os pés descalços tocando o chão com leveza. Varreu a área com o olhar, desesperada por um caminho que a levasse para longe da Alcateia Luar. Mas, antes que pudesse dar mais um passo, seu corpo travou. Uma figura estava logo à frente, banhada pela luz suave da alvorada. Os olhos penetrantes encontraram os dela. Ele se apoiava com displicência num tronco, os braços cruzados sobre o peito musculoso, como se estivesse esperando por ela.
— Fugindo já, Loba Pequena?
