Capítulo dois

Apesar do pedido dela, Frankie Donati parecia ter passado completamente do limite da razão. Ele continuava a mantê-la contra a parede usando nada além de uma mão e o peso do próprio corpo. As pernas dela se debatendo, tentando encontrar apoio. Ela chutou os joelhos dele por reflexo, na esperança de quebrar o aperto e conseguir puxar ar para os pulmões. Ele era imóvel, movido pela raiva e pelo desejo de vingança. Uma vingança que ela sabia que merecia.

“Eu… sinto muito…” ela arfou.

“Não fala”, rosnou Frankie, apertando os dedos até os olhos dela virarem para trás.

A mão de Gloria apertou mais forte o braço que ele usava para mantê-la suspensa do chão. Ela sentiu um líquido se acumular na ponta dos dedos quando as unhas rasgaram o tecido da camisa e entraram na carne dele.

“Não posso dizer que me surpreende te encontrar se escondendo num armário, Gloria”, disse Frankie, a voz fria, calma, inabalável apesar do que ele acabara de passar para chegar até ela. “Foi isso que você fez quando vieram te buscar? Foi assim que você viu meu irmão morrer?”

Gloria sacudiu a cabeça com violência.

“Não? Onde você tava quando mataram ele? Onde você tava quando massacraram meu irmão?”, ele perguntou, a voz subindo até virar um grito.

Ela bateu de leve no braço dele quando começou a sentir que ia desmaiar. Ele afrouxou o aperto o suficiente para ela conseguir falar.

“Ele… me bateu…”, gaguejou.

“Ah, coitadinha. O Sergei te deu uns tapas? Meu irmão tá morto!”

Ela balançou a cabeça de novo. “Ste-Stephen… me bateu…”, implorou Gloria, tentando fazer Frankie entender.

Decidindo arriscar, Gloria soltou uma das mãos do braço dele. Ela fechou os olhos com força enquanto procurava o outro braço, o que ele não usava para estrangulá-la. Ele puxou o braço livre para longe e apertou ainda mais a mão em volta do pescoço dela, mas ela se recusou a parar até conseguir segurar o pulso dele. Guiou a mão dele até a lateral da própria cabeça e encostou os dedos dele nos pontos escondidos entre os fios de cabelo. Como se a cicatriz longa tivesse chocado ele de volta à realidade, Frankie deu um tranco e soltou o pescoço dela.

Gloria despencou no chão, mal conseguindo se apoiar com as palmas das mãos. Ela engoliu o ar de uma vez, passando mal, e acabou tossindo ainda mais. Ainda de quatro, lutou para voltar a usar os pulmões. Tudo ardia, até os dedos.

“Eles estavam vindo atrás de mim…”, disse rápido, antes que ele pudesse agarrá-la de novo. “Eu queria… me entregar… Eram… muitos… deles.” Ela ergueu o rosto e o encontrou olhando para baixo, a poucos passos de distância. “Eu queria… desistir”, continuou, balançando a cabeça. “Stephen… não deixou… Eu tentei correr… até a porta… Ele me pegou na escada… me acertou por trás… com a arma. Eu acordei uma semana depois…” Ela olhou em volta. “Aqui.”

Frankie deu alguns passos trôpegos para trás até bater na cômoda dela. Escorregou até se sentar no chão.

“Frankie, eu sinto muito”, ela sussurrou.

Frankie puxou os joelhos até conseguir apoiar as mãos neles. Ele não falou nada, nem parecia estar respirando. Só ficou olhando através dos dois corpos estendidos entre eles. Permaneceram assim, em silêncio, por alguns minutos, até Gloria não aguentar mais. Ela olhou para o relógio. Fazia aproximadamente vinte minutos desde a primeira explosão.

“Frank, você precisa ir. Ainda dá tempo. Os reforços vão chegar em alguns minutos”, pediu Gloria, enxugando uma lágrima da bochecha. Ela merecia aquele inferno. Merecia aquele futuro. Ele já tinha sofrido o bastante. Ela sabia muito bem.

Ele olhou para o relógio no pulso esquerdo. “Dois minutos e quarenta e sete segundos”, corrigiu.

“O que você vai fazer?”, ela perguntou baixinho.

“Esperar.”

“Como você me encontrou?”, ela perguntou, com mais medo do silêncio do que das respostas dele.

O canto do olho direito dele se enrugou, indicando para ela que ele provavelmente estava dando um meio sorriso. “Um dos velhos amigos do Sergei me contou. A gente teve uma conversa na prisão semana passada.”

“Prisão?”

“Uhum.”

“Frankie, olha, eu…”

“Levanta”, ele ordenou, apoiando-se na borda da cômoda para ficar de pé.

“Eu…”

“Agora”, exigiu, depois de lançar um olhar rápido ao relógio.

Gloria precisou usar a parede para conseguir se erguer. Os joelhos tremiam, batendo um no outro, enquanto os pulmões pareciam machucados e a garganta ardia. Os olhos escuros dele percorreram a camisola fina que ela vestia. O corpo dele, já tenso pela missão em que estava, enrijeceu ainda mais, e ela se preocupou com o que aconteceria quando aquela tensão se rompesse. Ele avançou na direção dela, e Gloria puxou o ar com um sobressalto quando os dedos dele apertaram seu braço, logo abaixo do ombro.

— Vamos — ele ordenou, puxando-a, quisesse ela ou não.

Frankie parou logo depois da porta do quarto dela. Tirou a pistola do bolso de trás e puxou o ferrolho. Deu um passo pra fora para vasculhar os arredores. Gloria engasgou num suspiro ao ver o massacre do lado de fora do quarto. Viu seu segurança principal, Stefan, largado contra a parede. Os olhos dela seguiram o rastro de sangue até um único buraco de bala no drywall. Ela olhou através dele e conseguiu ver o interior do próprio quarto, e a cama. A ficha caiu nela como se tivesse sido atropelada por um caminhão. A mão de Frankie fechou em torno do pulso dela e ele a arrastou pelo corredor.

Ela perdeu a conta dos corpos espalhados entre o quarto e a escada. Cada um tinha dois tiros na cabeça, além de outros que já tinham derrubado o alvo tempo suficiente pra execução. O sangue escorria escada abaixo em direção ao primeiro andar, lembrando as cenas finais de O Iluminado. Ela tropeçou em alguns degraus, mas foi segurada pelo aperto implacável de Frankie. Ele conseguiu levá‑los até a porta da frente e então a empurrou contra a parede. Manteve o braço prensado contra o peito dela, imobilizando‑a enquanto olhava com cautela para fora, pela porta.

Frankie rosnou de irritação quando faróis de carro dispararam pela entrada da propriedade, a quase um quilômetro de distância. Olhou o relógio e xingou. Encostou a cabeça na parede e fechou os olhos.

— O que você… — ela começou.

Ele levou um dedo aos lábios e mandou ela ficar quieta. Ela percebeu a máscara dele se movimentando como se ele estivesse falando, mas não conseguia ouvir palavra nenhuma. O alarme do relógio disparou, alto e estridente no silêncio da casa devastada. Frankie se afastou da parede e ficou parado na soleira no exato momento em que Gloria ouviu uma sequência de doze cliques diferentes. As detonações foram acionadas ao longo da entrada, perto do portão. Explosões voltaram a iluminar o céu quando cada dispositivo explodiu ao lado da caravana de reforços.

A boca de Gloria se escancarou ao ver SUVs e carros sendo erguidos no ar, rodando, capotando ou explodindo. O vermelho, o laranja e o amarelo das chamas se refletiam perfeitamente nos olhos negros de Frankie. Ela não precisava ver o rosto dele por baixo da máscara para saber que ele estava sorrindo.

— Porra, eu sou bom — disse Frankie, balançando a cabeça enquanto saía pela porta.

Gloria foi atrás, se sentindo meio entorpecida enquanto as chamas lambiam os carros destruídos e incendiavam a grama seca ao lado da entrada. A grama pegou fogo rápido e, de repente, labaredas correram pelo gramado. Ela desceu os degraus cambaleando, atrás da passada cheia de orgulho de Frankie. O cascalho rangia sob seus pés descalços, abafado pelo apito estridente dos alarmes dos carros e pelos gritos dos homens queimando vivos dentro de seus caixões de metal. Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela quando uma explosão sacudiu uma das SUVs e, de repente, os gritos dentro dela cessaram.

À frente, ela conseguia ouvir Frankie assobiando uma cantiga de ninar enquanto passava pela carnificina completamente impassível. Assim que saiu pelo portão, ele virou bruscamente em direção ao mato. Ela observou, abraçando o próprio corpo por cima da camisola para tentar afastar o frio, enquanto ele afastava alguns galhos velhos e folhagens até revelar uma moto preta. Ele montou e começou, sem pressa, a ligar a moto. Acelerou algumas vezes e colocou o capacete. Sacudiu a cabeça indicando o capacete no banco atrás dele.

— Sobe. Eu preciso verificar uma coisa.

Gloria olhou de novo para os carros em chamas e para a casa onde tantos homens tinham acabado de morrer, tudo para que aquele homem à sua frente pudesse sequestrá‑la para si. Lembrou do atirador de elite, de todas as explosões cronometradas com perfeição, da quantidade de homens caídos entre o quarto dela e aquela moto.

— E a sua equipe?

— Que equipe? — ele perguntou, a voz abafada pelo capacete.

— As pessoas que te ajudaram.

Frankie baixou o descanso da moto de novo e desmontou. Caminhou até ela, segurou‑a pela garganta mais uma vez e forçou o olhar dela a encontrar o dele. Com a outra mão, puxou a viseira para cima. Ele abaixou a cabeça.

Que equipe? — repetiu.

Os olhos dela se arregalaram e ela engoliu em seco diante do que aquilo significava. Ela sabia que ele podia sentir o pulso disparado sob seus dedos. Sabia que ele podia ver o medo nos olhos dela e o arrepio nítido subindo pelos braços.

— Sobe na porra da moto — ele ordenou.

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