Donati

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Allison Franklin · Concluído · 247.5k Palavras

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Introdução

O primeiro beijo dela... e tinha gosto de sangue.

Frankie Donati não é um homem bom. Ele não fica derretido. O coração dele não dispara. Ele não se apaixona. Ele usa, toma, conquista e descarta. Simples assim. Até deixar de ser. Tem uma garota nova no clube. Ela é jovem, linda e parece que saberia usar aquele bisturi pra fazer muito mais do que aliviar as pálpebras inchadas de um lutador. E acha que consegue se esconder dele.

Gloria Rubanov está fugindo. Quando o homem a quem ela foi prometida ainda criança vem cobrá-la, a mãe faz a única coisa em que consegue pensar: pede a um amigo pra esconder a filha no meio da família mafiosa mais perigosa do país, os Accardi. Mas, com os Accardi atolados numa guerra própria, é só uma questão de tempo até o noivo dela descobrir onde ela está… e vir buscá-la de volta.

Quando um encontro casual em uma situação comprometedora vira obsessão, só existe uma maneira de Frankie Donati deixar outro homem ficar com o que é dele: vão ter que arrancá-la de suas mãos frias. Mortas.

Capítulo 1

**** Tempo Presente ****

Gloria não conseguia entender direito o que tinha acordado ela. Olhou para o relógio e viu que eram três da manhã, o que era estranho, porque normalmente só acordava pra ir ao banheiro lá pelas cinco. Mas, depois que viu a hora, percebeu o buraco na parede. Ficou olhando para o buraco perfeitamente redondo de onde estava, paralisada na cama. Precisou de toda a força de vontade que tinha pra conseguir se sentar. Levou mais alguns minutos de “reinicialização” até juntar coragem suficiente pra pôr primeiro a ponta dos pés no chão, depois o calcanhar. Caminhou até o buraco e passou os dedos por cima. Tirou a mão de lá quando se deu conta do que era: um buraco de bala.

Ela se virou na direção da janela. Os pelos dos braços se arrepiaram enquanto ela caminhava devagar até o vidro estilhaçado. O coração disparou, como se quisesse escapar da caixa torácica. Ela tentou analisar de onde o tiro poderia ter vindo, e o único palpite era o posto de guarda a uns 100 metros dali, onde o brilho da lua era engolido pela escuridão da floresta densa que cercava a prisão em que ela estava. Notou algo no meio das sombras daquela floresta: um pequeno brilho, como a faísca minúscula de uma chama. A chama se apagou e, um segundo depois, uma explosão sacudiu a linha das árvores.

Gloria gritou e se jogou no chão quando a onda de choque da explosão chacoalhou a casa e terminou de estilhaçar o que restava da janela. Cacos de vidro cortaram seus braços e pernas ali onde ela se encolheu, como se aquelas paredes finas pudessem protegê‑la. De repente, o complexo onde ela estava havia um mês explodiu em caos. Sirenes começaram a uivar e luzes mais fortes que as de um estádio de futebol iluminaram cada ângulo possível do pátio e da casa.

Nem cinco segundos depois, uma segunda explosão fez tremer a estrutura da casa. Todas as luzes e sons foram cortados na mesma hora. Um silêncio assustador invadiu o quarto, quebrado apenas pelas respirações curtas e secas de Gloria. O chiado de rádios começou a se misturar ao som de passos na grama, logo abaixo da janela. Ela se ergueu com cuidado para espiar por cima do parapeito e viu um grupo de seis homens se espalhando pelo campo aberto na direção da primeira explosão. Um tiro estrondoso ecoou do outro lado do terreno e um dos homens caiu. Os outros, que estavam em formação, congelaram e apontaram as armas para o posto de guarda.

— Atirador! — um deles gritou um segundo antes que o tiro seguinte atravessasse o espaço e ele caísse para trás.

Os quatro homens restantes recuaram na direção da casa, e Gloria observou, impotente, enquanto mais quatro balas de grosso calibre rasgavam o ar da noite, que até então tinha sido tranquila. Ela ficou chocada ao olhar para baixo e ver os seis corpos abatidos pelo atirador invisível. A porta do quarto se abriu atrás dela. Gloria girou sobre a ponta dos pés e viu Aleksandr entrar na sala em passos firmes.

Ele fez um gesto com o braço para que ela se abaixasse.

— Que diabos você tá fazendo? — ele perguntou, agachado, enquanto vinha na direção dela. — Abaixa, senão você vai...

O sétimo disparo soou. Ela ouviu o tiro antes de a bala perfurar o peitoril da janela, a uns cinco centímetros da cabeça dela, em uma trajetória descendente que acertou em cheio bem no meio da testa de Aleksandr. Ele desabou de cara no chão, a poucos metros dela. Gloria continuou na ponta dos pés, paralisada pelo que acabara de testemunhar. Esperou o próximo tiro. Esperou sentir a bala atravessar a parte de trás do seu crânio.

Gloria não sabia quanto tempo ficou agachada ali, embaixo da janela. Podiam ter sido cinco minutos ou vinte. O tempo que fosse, tinha sido suficiente pra fazer os músculos de suas panturrilhas travarem e queimarem de dor. Então ela ouviu a próxima sequência de tiros… e dessa vez vinham de ao lado da casa, bem abaixo da janela. Ela se lançou pra frente, por cima do corpo de Aleksandr, em direção à cama.

O vidro se quebrou e a madeira estourou enquanto homens gritavam que o invasor tinha entrado na casa. Os tiros continuaram ricocheteando pelas paredes, subindo até o teto. Ela só estava ali havia um mês e não tinha tido muita liberdade pra explorar. Mesmo assim, conseguia acompanhar o movimento do invasor enquanto ele — ou ela — avançava pelos cômodos. Louças se espatifaram e panelas bateram quando passaram pela cozinha. Homens gritavam e uma metralhadora disparou enquanto avançavam pelo corredor do térreo. Quadros caíam e peças de porcelana valiosíssimas despencavam e rolavam escada abaixo.

Gloria precisava pensar. Estava dolorosamente claro quem era o alvo daquela pessoa. Sergei estava fora da cidade. Ela não via ele fazia mais de uma semana. Aquela casa ficava no meio do mato em Illinois, com o vizinho mais próximo a quase dez milhas dali, no fim de uma estrada de cascalho coberta por árvores. Não havia como confundir o alvo daquela pessoa: era ela.

Ela olhou em volta do quarto, tentando pela centésima vez desde que chegara pensar no que poderia servir como uma boa arma. Pegou a cadeira de madeira da penteadeira. Segurando pela parte de cima do encosto, levantou a cadeira acima da cabeça e a jogou de volta no chão com toda a força. Duas pernas se partiram com um estalo seco. Arfando, ela olhou para o espelho da penteadeira. A camisola já estava coberta de sangue, vindo dos cortes nos braços e nas pernas. A trança tinha se desfeito, libertando o cabelo em volta do rosto, corado de medo e excitação. Ela soprou o cabelo para fora do rosto e então arremessou a cadeira contra o espelho. Lascaços de vidro do tamanho do seu braço se soltaram e caíram sobre o tampo.

Gloria ficou imóvel ao perceber que os sons ao redor tinham cessado. Então uma tábua do assoalho rangeu no corredor. Tiros voltaram a preencher o ar e Gloria agarrou as duas pernas de cadeira e um punhado de cacos de vidro antes de correr em direção ao armário. Os tiros pararam e ela ouviu alguém praguejar. Houve uma provocação murmurada e uma resposta fraca antes de o som virar carne contra carne. Alguém grunhiu ao ser arremessado contra a parede. Houve um silvo, um gemido e um grito. Então a porta do quarto dela foi arrombada para dentro.

Gloria espiou pelas frestas do armário. Havia dois homens lutando no chão, em frente à cama. Um vestia terno, rasgado nas bordas. O fone tinha caído do ouvido e ele sangrava pela cabeça: um dos homens de Sergei. O outro, o que estava por baixo e aparentemente em desvantagem, vestia preto dos pés à cabeça, com uma balaclava cobrindo o rosto. Usava equipamento tático, com muitos dos bolsos vazios, como se tivesse usado tudo do seu arsenal para chegar até ali. Ela viu um brilho prateado e percebeu que o homem de Sergei estava com uma faca, tentando cravá‑la no invasor.

— Foda‑se. Isso — rosnou o invasor.

O invasor soltou a pegada, permitindo que o homem de Sergei fincasse a faca em seu peito. Ele grunhiu com o impacto da lâmina. O segurança sorriu, vitorioso, enquanto pressionava todo o peso contra o cabo. Então seu rosto congelou no exato momento em que um tiro abafado destruiu sua vitória. O homem de Sergei tombou de lado. O invasor empurrou, fazendo o segurança despencar ao lado dele com um baque surdo.

— Trinta e dois — gemeu o homem, sem fôlego, deixando a cabeça desabar de volta no chão.

Ela observou o invasor se recompor de sua posição escondida. Ele ficou ali no chão por alguns minutos, como se estivesse recuperando o fôlego. Então a mão dele subiu, agarrou o punho do punhal e o arrancou do próprio peito com um grunhido. Levantou a lâmina no ar para inspecioná‑la. Em seguida, fez um som de aprovação antes de enfiá‑la em um dos bolsos vazios.

Ele se ergueu até ficar sentado, soltando um grito primal, rouco, bem marcado. Sacudiu a cabeça e levou a mão até ela. Olhou ao redor, e ela percebeu que as partes do rosto não cobertas pela balaclava estavam pintadas de preto. Ele se apoiou na lateral da cama dela e se puxou até ficar de pé de vez. Esticou o corpo para trás até a coluna estalar, depois de um lado para o outro, antes de se sacudir como um cachorro. O corpo dele enrijeceu e a cabeça se inclinou de leve antes de os olhos se voltarem para o armário. Gloria engasgou num suspiro e apertou o vidro com mais força na mão até que ele cortasse a palma e os dedos.

— Olá, raposinha — murmurou o invasor, em tom de carinho debochado.

Gloria cambaleou para trás quando as palavras dele revelaram sua identidade. Ele caminhou até o armário, um passo lento de cada vez. A cada passo, ela se enfiava mais para dentro do que via como segurança. Ele avançou de repente, agarrou as duas maçanetas e escancarou as portas. Ela não pensou, apenas reagiu.

Ela cravou o vidro à frente, rasgando a bochecha dele enquanto descia uma das pernas da cadeira com a outra mão. O vidro deslizou com facilidade pela pele do rosto dele um segundo antes de a perna se estilhaçar contra a lateral de sua cabeça. Ele cambaleou um passo, o branco dos olhos escancarado de choque com a reação dela. Tocou a própria bochecha com a ponta dos dedos e olhou para o sangue que começava a encharcar as luvas. Ela não podia ver a boca dele por causa da máscara, mas conseguia ver o estreitar dos olhos e as rugas se formando na testa. Os olhos escuros voltaram a se fixar nela num estalo. Ela arfou quando a mão dele disparou e agarrou sua garganta. Gloria gritou quando foi arrancada de dentro do armário e jogada contra a parede ao lado. As pontas dos pés dela mal roçaram o chão. A visão nas bordas embaçou e escureceu enquanto a mão dele apertava a traqueia. Aqueles olhos negros, que antes a fascinavam tanto, agora ameaçavam esfaqueá‑la viva só pelo ódio que carregavam.

— Por favor — ela arfou. A mão dele pulsou, cortando seu ar completamente por um instante e fazendo seus olhos saltarem. — Por favor, Frankie, para.

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