Capítulo Quatro

Dias Atuais

Frankie largou a garganta dela com um empurrão leve antes de se virar para voltar até a moto. Vasculhou um dos alforjes laterais e depois virou-se de novo para ela. Balançou um bisturi na mão direita e, com a esquerda, mandou que ela se sentasse.

“Onde tá o rastreador?”, ele perguntou quando ela se sentou de pernas cruzadas, encostada na moto.

“Rastreador?”

Ele revirou os olhos. “O rastreador que o Sergei colocou em você.”

“Ah.” Ela cruzou os braços. “Eu não sei.”

Frankie soltou um longo suspiro irritado. “Olha, você pode me contar ou eu posso procurar. A noite ainda vai ser longa, então se você só…”

“Eu não sei”, Gloria repetiu, mais devagar agora. “Ele colocou enquanto eu tava apagada. Disse que seria melhor pra mim se eu não soubesse. Que seria melhor se eu não pudesse revelar a localização.”

Frankie ficou olhando pra ela por um momento, os ombros relaxados e a cabeça levemente inclinada. Ele suspirou.

“Tá bom.”

Virou-se de novo para a moto e continuou mexendo no alforje até tirar de lá algo que parecia um detector de metal portátil. Ergueu o aparelho na altura do peito dela e, com uma sobrancelha levantada em curiosidade, passou o scanner devagar pelos seios dela. Os olhos de Gloria subiram do detector até o rosto calmo dele, em descrença. A sobrancelha dele arqueou ainda mais quando ele desceu o scanner até a virilha dela e entre as pernas.

“Sério?”, ela perguntou.

“Eu sei. Ninguém mais quer se divertir”, Frankie respondeu, irritado, como se fosse disso que ela estivesse reclamando. “Vira de costas. Eu sei onde ele colocou.”

Gloria virou as costas pra ele, hesitante. Com outro revirar de olhos e um rápido movimento da mão ao longo da parte de trás do braço dela, o detector apitou exatamente onde ele tinha imaginado. Ele suspirou de tédio, jogou o detector por cima do ombro e agarrou o braço dela, perto do ombro.

“Eu teria pensado que o grande Sergei Vasiliev seria mais criativo que isso”, Frankie resmungou para si mesmo.

Gloria sentiu um puxão na pele da parte de cima do braço e então a dor veio em onda. Ela chiou e tentou se afastar, mas Frankie já esperava por isso. Segurou-a com firmeza enquanto cortava o rastreador do músculo do braço dela. Um momento depois, uma pílula de metal coberta de sangue apareceu no canto da visão dela. Ela olhou para aquilo, só para Frankie dar um peteleco e atirá-la por cima do ombro, junto com o detector.

“Certo. Vamos nessa. Sobe na moto.”

Ele estendeu o capacete para ela, e Gloria pegou com os dedos trêmulos. Virou o capacete para colocá‑lo quando percebeu um nome estampado atrás em dourado: o nome dela. Ela ergueu o olhar para Frankie, mas encontrou os olhos dele fixos no GPS do celular. Ignorou o aperto de ansiedade no estômago e prendeu o capacete na cabeça. Foi imediatamente envolvida por um tecido quente, com o som do leve assobio — ou cantarolar — dele ricocheteando ali dentro, vindo de altos-falantes embutidos no capacete.

Gloria passou a perna na moto com cuidado e se arrastou o máximo que conseguiu para trás, fugindo do calor do corpo dele. As costas dela se encostaram numa bolsa de viagem que parecia estar cheia de pedras. Ela se remexeu um pouco, tentando puxar a camisola para cobrir o máximo possível das pernas, sabendo que o ar gelado de Illinois, somado à velocidade que ele ia precisar atingir para despistar Sergei, provavelmente a deixaria tremendo. Ela abraçou o próprio corpo. Então sentiu a palma grande dele deslizando pela pele nua da coxa. Ele levou as duas mãos para trás, agarrou-a por baixo dos joelhos e a puxou contra si, bem justa. As coxas dela se encaixaram nas dele, as costas se moldaram às costas dele e o centro do corpo dela se colou firme à bunda dele. Gloria arfou com o calor que sentiu ao longo do corpo dele e lutou contra a vontade de enroscar todos os membros ao redor dele em resposta.

“Se agarra em mim”, a voz de Frankie soou pelos alto-falantes no capacete dela. “Se mexe junto com a moto, não contra. Não solta.”

Frankie acelerou a moto e partiu. Gloria agarrou os lados do colete dele com força. À medida que eles ganhavam velocidade na estrada de cascalho, ela foi se firmando mais nele até que os braços envolviam a cintura dele e a cabeça dela ficou bem apoiada entre as omoplatas dele.

Ele manteve-se pelas estradas secundárias. A moto ziguezagueava entre as faixas enquanto ele fazia curvas fechadas e subia e descia pelas ondulações do terreno. Ela não tinha certeza de quanto tempo ele pretendia dirigir. Por mais tempo que fosse, ela precisava de uma pausa. Justo quando as pálpebras ameaçavam ficar fechadas, o toque de um telefone a sobressaltou.

“Alô?”, ela ouviu o Frankie dizer pelo viva-voz ao atender.

“Frankie?! Por que caralho acabei de receber uma ligação do Sergei Vasiliev dizendo que o meu segundo no comando supostamente passou por cima de um cativeiro em Illinois?!”

Gloria se encolheu ao ouvir a voz irritada do mafioso mortal conhecido como Accardi. A moto reduziu a velocidade e Frankie a encostou na beira de uma fazenda de laticínios.

“Com licença, eu tenho que atender isso”, Frankie falou para Gloria ao descer da moto. Ele deu alguns passos para longe.

“Já faz cinco porra de dias, Frank”, continuou o senhor Accardi.

Gloria olhou na direção dele, surpresa por ele não ter encerrado a chamada do lado dela. Será que ele quis fazer isso? Esqueceu? Ela não conseguia dizer pela linguagem corporal dele. Ele estava de costas para ela, mãos na cintura, olhando para as vacas amontoadas no pasto.

“É, e o Vasiliev correu pras colinas no momento em que eu saí. Exatamente como eu sabia que ele ia fazer.”

“Ele tinha uma reunião na Rússia.”

“E você acreditou nisso? Ah, qual é, me dá um pouco de crédito. Cê tá ferindo meu ego aqui.”

“Cala a boca, Frankie. Eu não tô com paciência.”

“Só mandar a Gen te ninar que você vai se sentir melhor.”

“Você sabe que não é assim que ela faz”, respondeu Accardi num tom que fez Gloria achar que ele tinha dado um sorriso relutante enquanto falava.

“O que o filho da puta disse?”, Frankie perguntou ao chefão.

“Ele disse que você matou uma porrada de homens dele e levou a noiva dele”, retrucou Accardi.

Frankie riu de um jeito sombrio. “Ele te passou a contagem?”

Accardi suspirou. “Cinquenta e seis.”

“Ô! Pô, cara, isso deve ser um recorde. Você não pode ficar puto com isso.”

“Onde estão minhas armas e meus explosivos, Frank?”, perguntou Accardi.

“Armas? Explosivos? Hm, não sei. Você tem uma lista com os números de série? Posso ligar pra polícia logo de manhã pra ver…”

“As drogas?”

Frankie coçou a nuca, como se estivesse na frente de um pai desaprovador em vez de uma novilha que parecia irritada por ele estar atrapalhando o descanso dela.

“Eu não ia usar”, argumentou Frankie.

“Em você mesmo?”, perguntou Accardi, fazendo Frankie soltar uma risada. “Você pelo menos manteve a garota viva?”

A pele de Gloria formigou. Ele tinha planejado matar ela? Tinha contado os planos pro chefe? Que drogas?

“Ela tá perfeitamente bem”, respondeu Frankie. “Quer bancar o assistente social e bater um papo com ela pessoalmente?”

“Eu ia gostar disso”, disse uma voz feminina do outro lado da linha. “Deixa eu falar com ela, Frankie.”

“Ah, foi mal, Donna, ela tá meio indisposta no momento. Vocês vão ter que discutir cor de esmalte favorita quando tiverem a chance de se conhecer depois.”

“Ela deve estar assustada. Só deixa eu…”

“Fraqueza, volta pra cama, você precisa descansar”, Accardi interrompeu. Ela ouviu um longo suspiro feminino.

“Cara, você deve ter acabado de mandar ver nela, se ela tá obedecendo assim”, disse Frankie, rindo.

Accardi o ignorou. A voz saiu firme quando ele falou: “Eu disse pro Sergei que a gente ia se encontrar com ele. Quando você vai estar de volta em Nova York? Vou marcar uma reunião pra resolver isso.”

“Não vai ter porra de resolução nenhuma, Matteo”, avisou Frankie.

Houve silêncio do outro lado da linha. “Frank. O que você tá fazendo… Você entende o que isso vai desencadear. Não vai ser algo de uma vez só. Isso vai começar uma porra de uma guerra. Tipo a que a gente acabou de terminar. Lembra? Vale a pena?”, perguntou Accardi. “Ela vale a pena?”

Frankie enfiou a mão direita no bolso e, por um momento, ela achou que ele tinha desligado, já que as duas linhas ficaram cheias de um chiado estático. Frankie se virou para encará-la. Na escuridão da noite, com a lua às costas dele, ela não conseguia ler sua expressão.

“Te vejo em quatro dias, quando minhas férias acabarem”, disse Frankie por fim.

Um suspiro pesado encheu o capacete dela. “Tá bom, se cuida. Garante que você tá alimentando ela e mantendo ela aquecida.”

“Relaxa, vou botar ela pra dormir bem direitinho toda noite, papai”, provocou Frankie, caminhando de volta até ela. Então ela ouviu a ligação cair de verdade.

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