Capítulo Cinco

Eles rodaram por mais uma hora, mais ou menos, no escuro, por estradinhas de interior no meio do interior de Illinois. Gloria só conseguia se manter acordada por causa do frio cortante batendo na pele exposta. De vez em quando, Frankie dava um toquinho na perna dela para avisar que ia aumentar a velocidade ou fazer uma curva fechada. Ela começou a desejar aqueles pequenos toques, aquelas pequenas ofertas de calor.

Quando o sol começou a se aproximar do horizonte, as luzes artificiais começaram a clarear o céu. Ela esticou o pescoço por cima do ombro dele e conteve um sobressalto quando os prédios de Chicago foram tomando forma. Chicago? O que eles estavam fazendo em Chicago? Por que diabos o Frankie ia entrar na cidade bem debaixo do nariz do Sergei, fugindo justamente desse Pakhan?

— Frankie, aquilo é Chicago? — ela perguntou pelo microfone do capacete.

— Parece que é, né — ele ironizou.

— Por que a gente tá indo pra Chicago?

— A gente precisa dormir, não precisa? Tô morto.

— O Sergei mora...

— Vasiliev tá na Rússia. Voltando pra casa, mas ainda assim. A essa altura todos os homens dele já tão cruzando o país rumo a Nova York. Não todos, mas os melhores. Eles vão levar uns dois dias pra perceber que eu não fui direto pra casa. O último lugar onde vão imaginar que a gente veio é a cidade que fica a uma hora do esconderijo dele.

Gloria não questionou a lógica dele. Dava pra ver que ele tinha pensado em tudo. Ela sabia que ele tinha razão. Ele costurava o tráfego da manhã perigosamente, entre os carros. Gloria se manteve colada nas costas dele, tomando cuidado pra não olhar pelas janelas dos carros para os executivos e executivas que encaravam a sua roupa esquisita. Ele parou em frente a um hotel grande e desceu com a moto para a garagem embaixo do prédio. O ronco do motor reverberou, estourando nos ouvidos dela, enquanto ele procurava uma vaga boa.

As pernas dela bambearam quando desceu da moto e se espreguiçou. Não dava pra ver os olhos dele por trás da viseira, mas ela sabia que ele tava olhando na direção dela enquanto ela esticava e alongava o corpo. Ela pouco se importava se a camisola tava subindo; o corpo dela tinha ficado travado por horas. Ele afrouxou devagar a tira do próprio capacete e o tirou. Ainda estava usando a balaclava dos acontecimentos mais cedo naquela madrugada, mas sem o capacete ele não conseguia esconder o caminho que os olhos faziam pelo corpo tremendo dela, especialmente onde os mamilos despontavam pelo veludo do corpete.

Ele pegou a barra da balaclava com as duas mãos e puxou pra cima, tirando-a do rosto. A palidez do queixo, das bochechas e da testa fazia um contraste gritante com a tinta preta borrada ao redor dos olhos. O talho que ela tinha feito na bochecha esquerda dele parecia que ia precisar de pontos, mas pelo menos o capacete tinha funcionado como uma espécie de compressa.

— Seu rosto. Talvez seja melhor limpar, se não quiser sair assustando todo mundo — ela sugeriu, tentando tirar o próprio capacete.

Frankie manteve os olhos escuros nela enquanto passava a mão livre pelos fios desgrenhados que caíam na testa. Gloria virou de costas para quebrar o olhar intenso que ele prendia nela e continuou puxando a tira do capacete. Quando finalmente conseguiu soltar o fecho, sentiu alguma coisa encostar nas costas da camisola. Ela deu um pequeno pulo quando os dedos de Frankie roçaram a pele macia de uma das nádegas. Baixou os olhos na mesma hora e viu Frankie usando a barra da camisola como pano de limpar o rosto. O tecido branco foi ficando de um preto empoeirado enquanto ele seguia o conselho dela e tirava a sujeira da cara. Quando terminou, ergueu o olhar para ela com olhos que pareciam impossíveis de ficar ainda mais escuros.

— Melhor? — ele perguntou.

A voz dele tava mais grave? Parecia que tinha engolido um sapo? Mais importante ainda: por que o som que ele acabou de fazer fez o sexo dela pulsar?

Ela pigarreou.

— Depende de quem você tá olhando — respondeu, arrancando a camisola da mão dele.

Ele se endireitou até a altura máxima e sorriu para baixo, com um ar maldoso.

— Então eu nem devia ter me preocupado, já que todo mundo vai ficar se perguntando por que caralho você tá de baby doll.

Frankie deu uma risadinha, tirou o duffel bag preto da parte de trás da moto e caminhou em direção ao elevador. Gloria lançou um olhar fulminante para ele por um instante, deixando a raiva ferver no estômago.

— Você não podia ter trazido uma roupa pra mim, ou me emprestado uma jaqueta? — ela gritou atrás dele.

— Você podia ter pegado roupa. A gente tava na sua casa, afinal. E outra, eu nem tenho jaqueta, e eu ia odiar te deixar toda acesa te dando a minha camisa e obrigando você a ficar agarrada nos meus tanquinhos a manhã inteira — Frankie caçoou.

O elevador apitou e Frankie entrou.

— Não era minha casa. Se fosse minha casa, você teria tocado a campainha, não explodido tudo — rosnou Gloria, cruzando os braços.

Frankie virou o rosto de lado e arqueou uma sobrancelha.

— Você teria aberto a porta pra mim, docinho?

Havia uma certa arrogância no jeito que ele perguntou, mas ela conseguia ver a curiosidade genuína nos olhos dele. Ela nunca imaginou que olhos tão escuros pudessem ser tão expressivos, mostrar tanta emoção. Apertou mais os braços em volta do próprio corpo e olhou para os números que piscavam no painel do elevador, avisando que eles estavam quase chegando ao saguão.

“Se eu mandasse em qualquer aspecto da minha vida, eu não teria estado lá em primeiro lugar.”

“Hmmm.”

O elevador apitou de novo e a porta se abriu. Frankie saiu na frente, seguindo em direção à recepção como se fosse freguês de casa e tivesse sua própria cobertura no hotel. As mulheres atrás do balcão empacaram ao ver o homem se aproximando. Duas delas, de fato, correram pela porta que levava aos escritórios, enquanto as duas que ficaram remexeram nas canetas e arrumaram o cabelo, como se aqueles gestos nervosos pudessem salvá-las do homem imponente que vinha em direção a elas, todo de preto, com manchas misteriosas que, por sorte, não deixavam ver a verdadeira cor. Então os olhos delas passaram para Gloria e uma das garotas foi direto para o telefone.

“Não precisa disso, Querida. Eu liguei mais cedo pra reservar um quarto. Meu nome é Donati”, Frankie disse, largando a bolsa esportiva no chão antes de se debruçar pesadamente sobre o balcão e exibir o mesmo sorriso que fazia qualquer garota passar de tremendo de medo a tremendo de desejo.

A garota com o telefone na mão ficou vermelha como um tomate, e Gloria revirou os olhos. “Me desculpe, senhor. Sim, Donati.” Ela largou o telefone e começou a digitar no computador. “Temos o senhor na cobertura por duas noites?”

“Isso mesmo, senhora”, ele ronronou.

“Duas chaves?”

“Uma”, ele respondeu, num tom que não deixava espaço pra discussão.

Os olhos da garota saltaram para Gloria e desceram, avaliando a aparência dela. “Certo então, há drinques de cortesia no quarto. O serviço de quarto acabou de começar a servir o café da manhã. Se quiser, é só ligar lá de cima que a gente faz o pedido pro senhor. Também temos vários serviços à disposição, como massagem, tratamentos de pele, sauna e…”

“Não vai ser necessário. Só me entrega a chave e a gente já sobe. A gente teve…” Os olhos de Frankie desviaram de lado e ele soltou um suspiro. “Uma noite daquelas.”

Os olhos da garota se encheram de pena e ela assentiu. “Claro, só precisamos de um cartão de crédito.”

Frankie enfiou a mão no bolso de trás e colocou um cartão preto, elegante, em cima do balcão. Gloria arquejou e agarrou o braço dele, assustando tanto ele quanto a garota do outro lado.

“Frankie, esse cartão tá com o seu nome.”

Os olhos de Frankie foram pro cartão e voltaram pra ela. “Sim, eu diria que você tá certa.” Ele virou o cartão e deu um falso suspiro escandalizado. “Ave Maria, tá mesmo!”

As unhas de Gloria cravaram na pele dele, fazendo-o soltar um silvo.

— O Sergei consegue rastrear isso.

O rosto dele relaxou enquanto um sorriso puxava seus lábios. Ele tirou a mão dela com um safanão e passou o braço em volta da cintura de Gloria, puxando-a contra o peito tão rápido que o restinho de ar em seus pulmões escapou pela boca. Ele se inclinou até o ouvido dela, provavelmente pra que a recepcionista do hotel não ouvisse.

— E se eu quiser que ele me rastreie? — ele sussurrou, o sopro quente da respiração na pele dela deixando seus joelhos fracos. — E se eu quiser que ele venha aqui me procurar e veja que chegou tarde demais? Que mandou os homens dele numa caçada inútil enquanto eu tava aqui o tempo todo. Na cidade dele. No hotel dele. Na cama dele. No…

— É isso que tudo isso significa? Humilhar ele?

— Vingança é uma parte, sim.

— E a outra parte?

O polegar de Frankie roçou o tecido macio em seu quadril. Ele abriu a boca para responder.

— Tá tudo certo, senhor — a garota sorriu, empurrando o cartão de volta pra ele.

— Obrigado — disse Frankie, pegando o cartão e a chave.

— O senhor vai usar aquele elevador privativo ali — avisou a moça, apontando para um elevador com detalhes dourados. — Ele vai direto pro seu andar, sem paradas.

— Chique — comentou Frankie. — Ah, e minha amiga aqui precisa de roupa. — Os olhos dele desceram pelo uniforme da garota. — Você tem mais ou menos o tamanho dela. Talvez um pouquinho maior. Consegue arranjar alguma coisa pra gente?

Os olhos da moça se estreitaram com o comentário do “maior”, mas ela forçou um sorriso e assentiu.

— Vou ver o que eu consigo.

— Valeu — disse Frankie, já se afastando.

Gloria foi atrás.

— Senhora, desculpa, a senhora deixou isso cair — avisou a segunda recepcionista, empurrando um papel dobrado na direção dela.

— Isso não é…

— Claro que é, sim — insistiu a garota, empurrando o papel até a beirada do balcão.

Gloria pegou o papel e o desdobrou.

Se você estiver em perigo, ligue pra gente no ramal 0. Tem telefone em todos os quartos. Se precisar de ajuda, é só ligar. Não precisa falar nada. A gente vai ver de que quarto você tá ligando e chama a polícia ou o nosso chefe.

Gloria engoliu em seco, sabendo quem era o dono daquele hotel e a qual chefe elas estavam se referindo. Ela assentiu e caminhou até Frankie, que esperava no elevador de costas para o balcão. Ele tinha tirado o celular do bolso e parecia acessar algum tipo de sistema de segurança.

— O que dizia o bilhete? — ele perguntou, ainda olhando pro telefone.

— Elas acham que eu tô em perigo, por algum motivo.

Frankie deu um meio sorriso e riu baixo.

— Elas não tão erradas.

O elevador se abriu e Frankie entrou, deixando Gloria tonta com as palavras dele.

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