Capítulo Sete

Dias Atuais

Gloria entrou atrás do Frankie e ficou na outra ponta do elevador. Ela observava a cabeça curvada dele enquanto ele passava por vários feeds de segurança no celular. Parecendo satisfeito com o que viu, ele deu um sorrisinho de canto e enfiou o celular de volta no bolso. O elevador chegou ao andar em tempo recorde, e Frankie se empurrou da parede para entrar no hall com a única porta do andar. O cartão de acesso apitou uma vez e ele entrou na suíte impressionante que ocupava todo o último andar do hotel. No momento em que seus pés cruzaram a soleira, ele começou a tirar a roupa.

Gloria ficou logo dentro da porta, os braços apertados contra o peito, enquanto o colete tático vazio dele caía no chão com um tilintar. Ele soltou um gemido de alívio com a perda do peso e esticou os ombros para trás, fazendo um estalo pronunciado ecoar pelo espaço vazio. As luvas foram as próximas, largadas em cima do balcão da cozinha enquanto ele avaliava o bar de bebidas. A camisa veio em seguida, enquanto ele caminhava em direção à sala de estar e às amplas janelas com vista para o céu de Chicago clareando. Ela encheu os pulmões devagar, de forma calculada, enquanto os olhos absorviam a pele musculosa, tatuada, das costas dele. Ele girou os ombros e contraiu os músculos ao se espreguiçar, obrigando-a a se apoiar na parede do hall para não perder o equilíbrio.

Frankie se sentou no sofá da sala e começou a desamarrar os sapatos. Gloria decidiu que, antes que ele começasse a desabotoar a calça, era melhor tentar sair do campo de visão dele. Erguer o queixo, tentou sacudir o cansaço do corpo e começou a caminhar na direção do seu novo carcereiro. Os olhos de Frankie subiram assim que ela se aproximou. A escuridão das pupilas dele parecia engolir as pequenas luzes do apartamento, tornando o olhar indecifrável enquanto ele jogava o sapato por cima do ombro.

— Onde é que eu vou dormir? — ela perguntou, já esperando que ele fizesse alguma piada sobre dormir com ele.

Em vez disso, ele deu de ombros enquanto arremessava o segundo sapato para se juntar ao primeiro.

— Foda-se. Tem três camas. Escolhe uma.

Frankie se levantou e começou a desfazer o cinto, os olhos fixos nela. Ela sentiu o calor do peito nu dele. Ignorou o sangue escorrendo pelo torso, sem saber de onde vinha o ferimento. Ficou imóvel, incapaz de se mexer, enquanto ele deslizava a calça pelas coxas. Ela tentou manter o contato visual, tentou de verdade. Mas alguns segundos de desafio eram difíceis demais de sustentar. O olhar dela desceu, vagando, curioso, pelo corpo dele, pelos boxer pretos, até as pernas fortes e tensas que a tinham salvado de um tirano diferente.

— Não era essa a resposta que você tava esperando, Vixen? — Frankie murmurou, perto do topo da cabeça dela.

Os olhos de Gloria se ergueram na mesma hora. Ela não reagiu ao sorriso perigoso, controlador, dele. Sabia muito bem que não valia a pena travar guerra verbal com Frankie Donati. Em vez disso, girou nos calcanhares em direção a qualquer quarto que ficasse o mais longe possível dele. Por sorte havia um quarto para aquele lado, e ela foi na direção dele como se fosse a sua salvação. Fechou a porta e encostou a testa na madeira escura. Virou de costas para a porta e escorregou até que o bumbum encontrasse o chão.

Ela ficou sentada ali por um longo tempo, apenas encarando a grande cama queen size que a convocava a pôr fim à própria tortura se afundando na doce inconsciência que é o sono: o único escape que ela conhecera na vida. Apoiou a cabeça nas mãos. Não ia chorar. Ela nunca chorava por essas coisas. Se chorasse, as lágrimas nunca iriam parar. Na verdade, nem se lembrava da última vez que chorara. Gloria não chorou quando a mãe disse que o contrato de casamento iria seguir adiante. Não chorou quando a mãe a entregou para a Nora para poder se esconder. Não chorou quando Nora contou que as ações da mãe tinham resultado na própria morte. Não chorou quando acordou na casa de Sergei e percebeu que o sacrifício da mãe tinha sido em vão. E não choraria agora, enquanto um psicopata de outro tipo ligava o noticiário na sala de estar.

Gloria fez o que sempre fazia. Deixou a cabeça cair contra a parede, fechou os olhos e começou a contar lentamente de trás pra frente, do dez até o um, de novo e de novo, até a ardência atrás dos olhos se transformar num leve aperto no nariz. Forçou o corpo a se erguer do chão e caminhou até o banheiro. Lançou um olhar cheio de desejo para a cama, prometendo se jogar nos braços dela assim que esfregasse o sangue e a sujeira da própria pele.

A água do chuveiro estava quente o bastante para queimar qualquer resquício de imundície do corpo dela. Sentou-se embaixo do jato e deixou que a água encharcasse o cabelo e deixasse a pele vermelha. O vapor foi tomando o banheiro, abrindo caminho pelas vias nasais e fazendo os gritos estridentes em sua mente diminuírem até virarem um rugido distante. Só quando os dedos já estavam enrugados e os pulmões começando a pesar com o ar úmido é que ela resolveu sair. Enrolou o cabelo numa toalha e abriu a porta enquanto usava uma segunda toalha para secar o corpo.

— Ah, porra — Frankie resmungou, baixinho.

Gloria deu um berro e se cobriu o mais rápido que conseguiu quando percebeu que ele estava sentado em cima da bancada do banheiro. A raiva subiu pelo peito e explodiu nas palavras.

— Que caralho você tá fazendo aqui dentro?! — ela gritou, enquanto os olhos dele continuavam percorrendo a área que a toalha cobria, como se quisessem fazer o tecido se desintegrar.

Ela aguentava muita coisa. Mas ter o único momento de paz interrompido? Saber que ele estava ali enquanto ela tentava acalmar os nervos? Gloria avançou até ele e deu um tapa na cara dele com toda a força. Ele nem lhe deu o gostinho de virar o rosto. Os olhos se estreitaram. Frankie agarrou o pulso com que ela acabara de bater nele e a puxou para frente.

Gloria arfou ao despencar no colo dele. A toalha caiu e ela travou. Sentiu o peito nu dele contra os próprios seios. Nenhum homem jamais a tocara nua. Nenhum homem jamais a vira nua. O maxilar de Frankie repuxou e, que Deus o abençoasse, ele não olhou para baixo. Não que precisasse. O sobe e desce do peito dele roçando no dela já desenhava o quadro inteiro.

— Me solta — ela disse, a voz já sem o fio de coragem de antes.

Os lábios de Frankie se curvaram num meio sorriso trêmulo.

— Se eu fizer isso, vou ter que ver você todinha de novo. E o que acontece depois disso é cara ou coroa.

— Você já viu agora mesmo, então que porra que isso muda?

Os olhos de Frankie deixaram os dela e desceram para a boca, para o pescoço.

— Duas palavrinhas feias em dois minutos, Vixen — murmurou. Os olhos continuaram o caminho para baixo. — Você tá bem exaltada mesmo, né?

— O que você tá fazendo aqui, afinal? — ela insistiu, recuando e puxando a toalha de volta ao redor do corpo como deu, enquanto os olhos de Frankie percorriam cada pedaço de pele até ser coberto. — Veio checar se eu tava viva? Achou que eu ia dar um jeito de fugir pela janela do quadragésimo segundo andar?

— Eu não duvidaria — Frankie disse, se ajeitando em cima da bancada. — Você já escapou de mim uma vez.

— Eu não… — Gloria fechou os olhos e inspirou fundo, irritada por todo o progresso no chuveiro ter ido pro ralo. — O que você quer?

— Preciso de ajuda.

— Com o quê?

— Talvez você não tenha reparado porque tava ocupada demais admirando o resto do meu corpinho quente… — A voz dele baixou. — Como você costuma fazer.

Ela estreitou os olhos.

— Mas eu tô com um corte de faca no peito e um… corte de vidro?… na bochecha.

Não sente culpa. Não sente culpa. Ela ergueu a sobrancelha.

— Você entrou arrombando a casa de um pakhan. Esperava o quê?

Frankie deu de ombros.

— Um beijo? Talvez um sexo.

Gloria soltou um suspiro e revirou os olhos. Prendeu a toalha com mais firmeza ao redor do tronco e alcançou o kit de primeiros socorros ao lado dele.

— Era um espelho.

— Deixou meu rosto mais marcante — Frankie disse, rindo baixo. — Vocês, Rubanov, adoram estragar o ganha-pão.

Gloria olhou para a outra cicatriz na bochecha dele e para a que marcava o pescoço.

— Do que você tá falando? — perguntou, cutucando o ferimento de faca no peito dele.

— Você não sabia? Sua mãe me deu o corte na bochecha. Seu pai fez a cicatriz no meu pescoço.

Gloria ergueu o olhar, surpresa.

— O quê? Por quê?

Frankie deu de ombros.

— Mal-entendido.

— Aham, sei — ela murmurou, soltando um suspiro enquanto começava a dar os pontos no ferimento do peito dele.

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