Capítulo Oito
Abril
Tinham se passado três dias desde que Gloria tinha flagrado Frankie Donati levando um boquete da Polly. Toda vez que via a loira vadia sorrindo ou jogando o cabelo, era invadida pela imagem de esmigalhar a cabeça dela no balcão. O que é que ela tinha de tão especial? Gloria recostou a cabeça e inspirou devagar. Contou de trás pra frente, de dez até um, como a mãe tinha ensinado, e voltou a enrolar a gaze que acabara de usar no último paciente. Por sorte, os “m&ms”, como as garçonetes adoravam chamar eles, tinham passado a maior parte do fim de semana fora, então ela não tinha sido obrigada a encarar Frankie de novo. Um arrepio correu por ela ao se lembrar do jeito como ele olhara pra ela, como se quisesse devorá-la inteira. Ela com certeza imaginou ele fazendo exatamente isso quando chegou em casa naquela noite… e em todas as noites desde então.
“Tem como me dar uma ajuda?” uma voz aveludada, macia, perguntou atrás dela. Havia um certo tom no jeito que ele falou, como se soubesse exatamente do que precisava pra se sentir melhor.
“Tenho, senta aí que já vou com você”, ela disse pro homem.
Ela terminou de enrolar a gaze e pegou um novo par de luvas descartáveis na caixa. “Tá quebrado, cortado ou…”
Gloria parou no meio do movimento de se virar. Frankie Donati exibiu um sorriso torto que fez o estômago dela se retorcer em sete nós diferentes. Ela deixou uma das luvas cair, e os olhos escuros dele acompanharam a queda. O olhar dele subiu devagar pelas pernas nuas dela, passou pela regata e voltou pro rosto, bem mais semicerrado do que quando tinha baixado. As pupilas se dilataram e, naquele momento, ela percebeu que os olhos dele não eram pretos coisa nenhuma, só o marrom mais escuro possível.
Ela girou de volta e se atrapalhou de propósito com a caixa de luvas, usando a tarefa como desculpa pra ganhar tempo e recuperar o mínimo de controle.
“Respondendo à sua pergunta…” ele começou, a voz como lava derretida escorrendo dela das costelas pra baixo. “Eu levei uma facada.”
Isso captou a atenção de Gloria. Ela se virou de volta pra ele, pronta pra salvar a vida dele. Os dedos dela correram pelos braços dele, subiram pelo abdômen até a garganta. Ela ouviu um som grave, um ronco baixo, e ergueu o olhar pra ver a cabeça de Frankie jogada pra trás, expondo a cicatriz no pescoço. Os olhos dele piscaram algumas vezes, como se tivesse acabado de emergir de um transe.
“Desculpa, eu te machuquei?” ela perguntou.
A cabeça dele tombou pra frente. Ele piscou forte, como um bêbado. “Nem um pouco. Aqui”, ele disse.
Usando a mão em que tinha a bússola tatuada, Frankie pegou os dedos dela e guiou até o músculo do peitoral esquerdo. Ela percebeu o sangue manchando as luvas. Afastou a mão dele com um gesto e apalpou com cuidado o corte de uns dois centímetros. Enfiou os dedos no tecido preto da camiseta e puxou, rasgando o algodão pra conseguir enxergar melhor.
“Puta merda”, Frankie gemeu com o gesto.
Gloria estava completamente alheia a isso. Estava focada no ferimento de faca. Ela apoiou a mão no ombro dele e o inclinou pra frente pra examinar as costas. Arrepio subiu pelos braços dele, chamando a atenção dela. Ela balançou a cabeça e deixou que ele se recostasse de novo. Pegou uma gaze, cortou uma tira pequena e encharcou de álcool.
“Isso pode arder”, ela avisou, quase num sussurro.
“De você, não dói.”
Gloria não se surpreendeu nem um pouco por ele não se mexer, não dar um pio, quando ela encostou o álcool no peito dele ou quando começou a limpar a área ao redor.
“Você vai precisar de uns pontos. Quer anestesia local?”
“Qual é o seu nome?” ele perguntou.
“Lilah”, ela respondeu no automático. Passou a linha pela agulha recém-esterilizada e começou a preparar a bancada.
“E o seu nome de verdade?”
Gloria lançou um olhar por cima do ombro pro homem cujos olhos estavam fixos no lugar exato onde a bunda dela encontra as coxas. “Lilah”, ela repetiu.
Ela foi pra frente dele e cutucou as botas de combate. Ele abriu as pernas com um sorriso malandro que fez o rosto dela esquentar.
“É só pra eu conseguir chegar perto”, ela explicou.
“Pode sentar no meu colo, se ajudar”, Frankie ofereceu, o sorriso malandro se transformando num sorriso com uma promessa perigosa.
“Você tem ideia de quantos caras soltam essa cantada todo santo dia?” ela perguntou, balançando a cabeça enquanto limpava o corte mais uma vez.
“Quantos? Você sabe o nome deles?”
Gloria ergueu os olhos e viu que o sorriso tinha sumido. O olhar dele estava calculista enquanto varria o clube, como se encarar qualquer homem por um segundo fosse suficiente pra declará-lo inocente ou culpado.
“Foi uma piada”, ela disse, tentando acalmar o cara. Balançou a cabeça. “A maioria dos homens que passa por aqui tá apagado ou balbuciando que nem bebê”, ela disse. Virou-se pra pegar a agulha e a linha, pronta pra começar.
— É isso que eu tenho que fazer pra você enrolar essas coxas em volta do meu pescoço? — ele perguntou.
Ela ficou imóvel por um instante e tentou ignorar o jeito como a voz dele fazia sua buceta pulsar. Fechou os olhos e inspirou fundo, mas em vez de ajudar, trouxe de volta as imagens dele se desfazendo. Gloria decidiu ignorar a pergunta. Pigarreou e voltou para o espaço entre as pernas dele. Colocou o material numa bandeja ao lado e começou a trabalhar: nada de medicação pra dor. Ela conseguia sentir o olhar dele sobre si enquanto trabalhava. Depois de alguns minutos de silêncio, sentiu as mãos dele pousarem em seus quadris. Ela enfiou a agulha fundo demais, fazendo-o gemer e apertar ainda mais seus quadris.
— Desculpa — ela sussurrou, sem ousar levantar os olhos.
— Você é mais durona que a maioria das meninas da Nora — ele observou, claramente se divertindo com o fato de tê-la tirado do eixo.
Isso fez Gloria olhar pra cima.
— Eu não sei do que você tá…
— Accardi ajuda a bancar a missão dela. Já sei muito bem quem você é — ele cortou, antes que ela pudesse terminar a mentira.
Ela semicerrrou os olhos pra ele. Ele podia até ser gostoso, mas não o suficiente pra fazê-la abrir a boca e entregar seus segredos. Os olhos dele brilharam de divertimento, como se tivesse visto a faísca de desafio atravessar o olhar dela. Ela voltou ao trabalho, sem mais se preocupar em ser gentil.
— Quantos anos você tem? — ele insistiu.
— Vinte e quatro.
Ele bufou.
— Duvido. Eu diria que você é bem mais nova que isso.
Gloria o ignorou. Era verdade. Vinte e quatro era a idade mais alta que ela conseguia sustentar. Uma vez tentou dizer que tinha vinte e sete, mas Nora caiu na gargalhada.
— Lilah — Frankie disse como se estivesse chamando por ela.
Ela levantou os olhos de relance e o encontrou estudando-a com atenção.
— A Nora sempre te dá nomes parecidos com o seu. Parecidos o suficiente pra, se alguém te chamar, você responder automaticamente. Pela sua reação, eu apostaria em algo terminando em “-ia” e com um “i” forte no meio. Maria?
Gloria pegou o bisturi e, antes que pudesse pensar na idiotice do que estava prestes a fazer, encostou o metal frio e afiado na garganta de Frankie.
— Olha aqui, eu não cheguei onde eu cheguei… não passei pelo que eu passei pra aparecer um cara achando que tem uns neurônios a mais e estragar tudo — ela sibilou, pressionando mais a lâmina. — Você não me conhece. Você não se importa comigo além de um interesse passageiro. Um interesse passageiro que eu não tenho a menor vontade de alimentar. Me. Deixa. Em paz. Entendeu?
Frankie a observou por um minuto, com uma expressão de aprovação estampada no sorriso convencido. Ele se levantou, fazendo o bisturi cortar a própria garganta e abrir um talho. Inclinou a cabeça, puxando ainda mais sangue.
— Nunca quis uma russa desse jeito — ele murmurou.
Gloria arfou e arrancou o bisturi da garganta dele.
— Como… O quê… Não, eu não…
Frankie segurou firme na cintura dela e a puxou, colando o corpo dela no dele. O calor entre os dois era intenso, o desejo se acumulando, denso e quente, conforme os corpos se tocavam. Os olhos dele desceram e voltaram.
— Seu sotaque escapa quando você fica com raiva, Docinho… — Ele abaixou a boca na direção da dela. — Cuidado com isso, hm? Tem homens perigosos à solta. Uns que talvez não aceitem você continuar só olhando de longe.
— Que diabos isso quer dizer? — ela ousou perguntar.
Ele sorriu de canto e passou a língua nos lábios, chegando perigosamente perto dos lábios carnudos dela.
— Quer dizer que, da próxima vez que eu pegar você olhando… vou fazer você me mostrar o que aprendeu.
Por um momento ela achou que ele fosse beijá-la. Prendeu a respiração, esperando ele diminuir aquele último centímetro e unir de vez os lábios dos dois. Então um alarme agudo e estridente disparou. Frankie suspirou e olhou pra baixo, pro cinto. Depois ergueu o olhar de novo pra ela, os olhos cheios de desejo e arrependimento. No segundo seguinte, a arma apareceu ao lado da cabeça dele e ele disparou dois tiros pro alto. Gloria não chegou nem a estremecer. Ele ergueu a sobrancelha, impressionado, antes de soltá-la e se atirar no meio da multidão em choque, que se encolhia de medo.
— Sai da porra do meu caminho ou o próximo atravessa você! — ele berrou, abrindo caminho aos empurrões, ao mesmo tempo em que Accardi e o gerente, Louis, desciam correndo da área VIP. Ela soltou o ar e se encostou no corrimão, tentando entender que inferno tinha acabado de acontecer.
