Capítulo 1
Capítulo 1
Olhei para a carta de aceitação nas minhas mãos pela milionésima vez, ainda sem conseguir acreditar que era real. Knight Industries – a Knight Industries – me queria. A mesma empresa que praticamente comandava o mundo dos negócios da Costa Leste achava que eu era digna da equipe corporativa deles.
“Sophie Turner, Gerente de Operações Estratégicas”, murmurei, testando como soava. Bem melhor do que “Sophie Turner, a Beta que não é Beta o bastante”.
Minha loba se envaideceu com a conquista, mesmo enquanto andava inquieta debaixo da minha pele. Tínhamos conseguido isso só com o nosso mérito – sem conexões de alcateia, sem influência de parceiro, só habilidade pura e determinação.
Toma essa, todo mundo que dizia que guerreiras deviam focar em “tarefas mais adequadas”.
Ajeitei o blazer em frente ao espelho de corpo inteiro, alisando o tecido azul-marinho impecável. O terno tinha custado um mês de economia, mas aparentar o papel de executiva corporativa importava. Pelo menos era isso que todos os blogs de carreira diziam.
“Você consegue”, falei para o meu reflexo, tentando canalizar um pouco daquela confiança de guerreira de Lua que todo mundo dizia que eu tinha até demais. Minhas mãos ainda tremiam de empolgação quando guardei a carta de aceitação no bolso.
O laço de parceiro vibrava quente no meu peito, trazendo ecos das emoções do Tom. Ele estava… satisfeito? Feliz? O laço tinha ficado mais difícil de ler ultimamente, mas eu colocava a culpa no estresse. Ser um casal Beta não era exatamente fácil.
Minha loba me cutucou, impaciente. “Conta pro parceiro. Mostra pro parceiro nossa força.”
“Já, já”, prometi a ela. Primeiro, eu precisava estar perfeita. O Tom sempre dizia que aparência importava na liderança da alcateia.
O ar de primavera me atingiu quando saí da nossa casa da alcateia, carregando os cheiros familiares de casa – pinho, grama fresca e o almíscar único dos lobisomens. Lobos jovens treinando no pátio interromperam o sparring para me ver passar. Alguns baixaram os olhos em respeito – o protocolo certo ao se dirigir à sua Beta.
“Tá um arraso, Sophie!” gritou Maria, nossa curandeira da alcateia. Ela estava colhendo ervas no jardim, o cabelo escuro preso num coque todo bagunçado. “Encontro quente com o Tom?”
Abri um sorriso, dando um tapinha no bolso. “Melhor. Tenho uma notícia grande pra contar.”
“Já estava na hora de acontecer algo bom por aqui”, disse Maria, ficando séria. “A alcateia anda… meio inquieta.”
Eu sabia do que ela estava falando. A tensão vinha crescendo na Alcateia Lua de Prata fazia semanas. Todo mundo apontava o dedo pras negociações de terras que estavam chegando, mas tinha algo ali que simplesmente não parecia certo.
— Tenho certeza de que é só coisa da nossa cabeça — declarei, tentando soar mais segura do que realmente estava. — Afinal, a nossa é a matilha mais poderosa daqui.
Maria fez um som vago, sem se comprometer.
— Só toma cuidado, Sophie. Às vezes, força não é suficiente.
Minha loba se ouriçou com aquele aviso enigmático, mas mantive a voz leve:
— Eu sempre tomo cuidado. Te vejo na corrida da matilha hoje à noite?
— Não perderia por nada. — Maria voltou para as ervas dela, mas senti o olhar dela em mim enquanto eu me afastava.
O caminho até a casa do Tom passava pela parte mais bonita do território da matilha. Flores silvestres pontilhavam a grama — as mesmas que ele disse que lembravam o meu “espírito selvagem” quando a gente descobriu que era destinado a ser um do outro.
Dois anos não é muito tempo, mas às vezes parece uma eternidade. Naquela época, tudo era simples. A Deusa da Lua tinha abençoado a gente com o laço de alma, e isso era tudo o que importava. Antes de a política da matilha e as responsabilidades de Beta complicarem tudo.
Meus passos desaceleraram quando a casa do Tom surgiu à vista. O Jeep preto dele estava na garagem, ao lado de uma Harley-Davidson bem familiar. Meu estômago se contraiu.
— Tá tudo bem — murmurei. — A Lily provavelmente só tá ajudando com a papelada de novo.
Minha melhor amiga vinha passando muito tempo na casa do Tom ultimamente, ajudando ele a organizar os documentos da matilha. Fazia sentido — ela era ótima com parte administrativa, e o Tom estava atolado com os deveres de Beta.
Mesmo assim, alguma coisa me incomodava. Pequenos detalhes que eu vinha ignorando. O jeito como eles paravam de conversar quando eu entrava nos cômodos. Como a Lily sempre parecia saber a agenda do Tom melhor do que eu. As leves marcas do perfume dela que às vezes eu sentia nas roupas dele.
— Confia no par — minha loba insistiu, mas a voz dela soou insegura.
O laço de alma vibrou, inquieto, enquanto eu me aproximava da porta da frente do Tom. Minha audição aguçada captou sons lá dentro — movimento, respiração, outra coisa que eu não conseguia identificar direito. Ou não queria identificar.
A porta estava destrancada. O Tom nunca deixava a porta destrancada. Semana passada ele tinha dado um sermão na matilha inteira sobre protocolos de segurança.
— Alô? — chamei, entrando. Nenhuma resposta.
Os sons ficaram mais nítidos, vindo do andar de cima. Minha loba choramingou, percebendo algo que eu ainda me esforçava desesperadamente para negar.
Segui o barulho até o quarto do Tom, com o meu treinamento de guerreira gritando que eu devia voltar. Roupas estavam espalhadas pelo corredor como migalhas levando à destruição — a camisa de um homem, um sutiã rendado de mulher. Eu conhecia aquele sutiã. Tinha ido às compras com a Lily quando ela comprou.
Minha mão tremia quando empurrei a porta do quarto. Meu mundo inteiro se despedaçou em incontáveis fragmentos minúsculos.
Tom e Lily estavam enroscados nos lençóis dele, os corpos se movendo juntos de um jeito que deixava bem óbvio o que eu estava vendo. O laço de companheiros gritou de dor, tão agudo que me fez ofegar.
Lily olhou para cima primeiro, a expressão passando da paixão ao reconhecimento. Nem um traço de vergonha cruzou o rosto dela. Minha melhor amiga desde a infância só me encarou como se eu fosse uma interrupção incômoda.
— Sophie — ela disse, a voz quase entediada. — Você chegou cedo.
Cedo? A palavra me acertou como um tapa. Eles estavam me esperando. Tinham planejado isso.
Tom se virou devagar, os olhos encontrando os meus. O laço entre nós se esticou como um elástico prestes a arrebentar. Há quanto tempo ele estava me traindo? Quantas vezes ele me abraçou carregando o cheiro dela?
Detalhes se queimaram no meu cérebro: o batom vermelho de Lily borrado no pescoço de Tom, o jeito possessivo com que ele se moveu para cobrir o corpo dela, a intimidade familiar daquela posição. Não era a primeira vez. Talvez nem fosse a décima.
A carta de aceite escorregou dos meus dedos dormentes, flutuando até o chão como uma borboleta morta. As flores do campo se espalharam pelo piso de madeira do quarto de Tom, já murchando. Como todos os sonhos que eu já tive sobre meu par perfeito e minha melhor amiga leal.
Tom alcançou o lençol com movimentos deliberados, sem pressa. Sem pânico, sem remorso, sem tentativa desesperada de explicar. Ele queria que eu encontrasse os dois.
— Há quanto tempo? — A pergunta arranhou a minha garganta ao sair.
— Importa? — A voz de Tom estava fria, distante.
— Oito meses — Lily respondeu, enrolando o lençol de Tom no corpo com uma posse casual. A mão dela pousou no ombro dele — uma marca de território clara. — Desde aquela noite em que você faltou à reunião do conselho da matilha por causa da sua entrevista de emprego.
A entrevista que tinha me garantido o cargo na Knight Industries. Naquela noite, Tom disse que estava orgulhoso de mim por eu correr atrás dos meus sonhos. Será que ele tinha ido para a cama dela direto da minha?
— Você é minha melhor amiga — eu sussurrei. — Minha irmã.
Lily riu, o som parecendo vidro se quebrando.
— Ah, Sophie. Sempre tão ingênua. Você realmente achou que alguém como o Tom ia ser feliz com uma companheira que ofusca ele? Uma fêmea que não consegue simplesmente ficar satisfeita em ser uma Luna de verdade?
Cada palavra acertou como uma flecha, encontrando todas as inseguranças que eu já tive. Forte demais, ambiciosa demais, demais.
— Não é o que você está pensando — Tom disse, mas os olhos dele estavam duros. — Você trouxe isso pra si mesma, Sophie. Um companheiro deve apoiar o outro, não competir com ele.
— Apoiar? — A palavra tinha gosto de cinza. — Tipo o jeito que você me apoiou, dormindo com a minha melhor amiga?
— Você nunca seria a fêmea Beta que essa matilha precisa — ele continuou como se eu não tivesse falado. — Sempre tentando se provar, sempre querendo mais. A matilha precisa de estabilidade.
Minha loba uivou de traição, o som subindo pela minha garganta. Anos de treinamento como guerreira me ajudaram a engolir de volta. Guerreiros não quebram. Mesmo quando o mundo inteiro deles está pegando fogo.
— A Deusa da Lua escolheu a gente — eu disse, odiando o tremor na minha voz. — Nós somos companheiros.
— A Deusa erra — Tom retrucou. — Ou talvez esse seja o jeito dela de mostrar o que é certo. A Lily sabe o lugar dela. Ela vai ser uma fêmea Beta de verdade.
Os lábios de Lily se curvaram num sorriso discreto, os olhos dela presos nos meus com uma tranquilidade triunfante. Ela tinha vencido. Finalmente tinha tomado algo que eu amava e que ela não podia ter.
— Você alguma vez me amou? — perguntei, mesmo sabendo que era a última coisa que eu queria ouvir.
— Eu amei quem eu achei que você poderia ser — Tom disse. — Mas você escolheu ser isso aqui.
O laço de companheiros pulsou uma vez, violentamente, a primeira rachadura se espalhando pela sua superfície como uma teia. Logo ele ia me rejeitar formalmente, arrancar de mim o título de Beta, me deixar sem matilha e sem companheiro. Tudo pelo que eu tinha lutado, perdido porque eu ousei querer mais do que a tradição permitia.
Eu dei um passo para trás, depois outro. Retirada estratégica, exatamente como eu tinha aprendido no treinamento de combate. Sempre tenha uma rota de fuga. Nunca deixe o inimigo ver você sangrar.
— A reunião da matilha é hoje à noite — Tom disse, a voz já com um desdém cansado. Já tinha acabado comigo. — Não torna isso mais difícil do que precisa ser.
O sorriso de Lily se alargou.
— Eu te ajudo a arrumar suas coisas, bestie. Pelos velhos tempos.
Eu me virei e corri, deixando para trás minhas flores, minha carta, minha melhor amiga, meu companheiro — e os últimos pedaços da garota que eu costumava ser.
A Deusa da Lua tinha me abençoado com um companheiro perfeito. Mas ela nunca avisou que, às vezes, aquilo que a gente acha que é bênção acaba virando nosso pior pesadelo.
Eu só nunca imaginei que o meu pesadelo usaria o rosto da minha melhor amiga.
