Capítulo 2

Capítulo 2

Meu apartamento parecia mais uma jaula do que um lar. Eu andava de um lado pro outro na sala, pela que devia ser a centésima vez naquela hora, com a minha loba praticamente explodindo debaixo da pele, doida pra se soltar e correr. Mas o protocolo da alcateia era claro – a gente tinha que esperar o chamado do Alfa. Tinha que deixar o Tom me humilhar direitinho na frente de todo mundo.

Meu celular vibrou de novo. Mais uma mensagem da Maria: “Você tá bem?”

Não. Eu não tava bem. Eu nunca mais ia ficar bem.

O laço de companheira latejava como um ferimento aberto no meu peito. Cada pulsar me lembrava do que eu tinha visto: Tom e Lily, embolados, seis meses de mentira escancarados num único golpe.

Peguei o celular e abri minhas fotos. Lá estávamos nós – Tom, Lily e eu no último encontro da alcateia. O braço do Tom na minha cintura, Lily sorrindo ao nosso lado. Com certeza os dois estavam rindo de como eu era idiota.

“Excluir.”

Tom e eu na nossa cerimônia de companheiros.

“Excluir.”

Lily e eu crianças, treinando juntas pra ser guerreiras.

“Excluir.”

Meu dedo pairou sobre a última foto – minha cerimônia de Beta. Eu tinha ficado tão orgulhosa naquele dia, me tornando a fêmea mais jovem a ser Beta na história da alcateia. Agora eu me perguntava se o Tom já dormia com a Lily naquela época.

Um uivo cortou o ar da noite – o chamado do Alfa Jensen pra reunir a alcateia. Meu celular explodiu de mensagens.

“É verdade?”

“O Tom fez isso mesmo…?”

“MEU DEUS, Sophie, olha suas mensagens!”

“O Alfa tá chamando todo mundo!”

Ignorei todas, endireitando os ombros. Hora de encarar minha execução.

A caminhada até o campo de reuniões parecia um caminho pro cadafalso. Os membros da alcateia passavam por mim, cuidando pra não cruzar olhares. As mães puxavam seus filhotes pra mais perto, como se rejeição pegasse. Ontem eles abaixavam a cabeça com respeito pra sua Beta. Hoje eu já não era nada.

O círculo tradicional se formou rápido, mas espaços se abriram ao meu redor. Ninguém queria ficar perto demais da companheira rejeitada. Ouvi sussurros se espalhando pela multidão:

“Ela devia ter percebido…”

“Só pensava na carreira…”

“Não tem macho que queira uma companheira mais forte que ele…”

“A Lily vai ser uma Beta melhor…”

Minha loba rosnou, querendo desafiar cada um deles. Eu a forcei pra baixo. Desabar na frente da alcateia não ia ajudar em nada.

O Alfa Jensen estava em pé na pedra cerimonial, a expressão sombria. O Alfa era à moda antiga, obcecado por tradição e por uma dinâmica “correta” de alcateia. Ele nunca tinha aprovado uma Beta fêmea.

A multidão se abriu quando Tom e Lily se aproximaram. Eles vinham juntos, a mão do Tom possessiva na lombar da Lily. Os cheiros deles estavam misturados – eles nem se deram ao trabalho de tomar banho depois que eu peguei os dois.

“Membros da Alcateia Lua de Prata”, a voz do Alfa Jensen se espalhou pelo campo. “Nós nos reunimos hoje à noite por um assunto sério.”

Minhas pernas tremiam. O laço de companheira se retorcia de dor, reconhecendo o que estava por vir.

“O Beta Thomas Bennett pediu a rejeição formal do seu laço de companheira.”

Um coro de suspiros percorreu a multidão. Rejeições de companheiro eram raras – praticamente um tabu. A própria Deusa da Lua abençoava os laços de companheiro. Rejeitar um era como cuspir na cara dela.

Tom deu um passo à frente, Beta poderoso em cada centímetro de seu corpo. Ele não olhou para mim quando pronunciou as palavras do ritual:

— Eu, Thomas Bennett, rejeito Sophie Turner como minha parceira.

O vínculo se despedaçou.

A dor explodiu no meu peito como se alguém tivesse arrancado meu coração com as próprias mãos. Minhas pernas cederam e eu caí com força no chão. Alguém gritou – talvez eu, talvez minha loba, talvez nós duas.

Por entre a névoa da agonia, ouvi Tom continuar:

— Eu escolho Lily Adams como minha verdadeira parceira.

O choque da matilha era quase palpável. Escolher uma nova parceira minutos depois da rejeição? Até o Alfa Jensen parecia desconfortável.

— A Deusa da Lua abençoou seu vínculo com Sophie — um dos anciãos da matilha se manifestou. — Rejeitá‑lo é…

— A vontade da Deusa é misteriosa — Tom cortou, suave. — Talvez ela tenha mostrado Sophie primeiro para que eu reconhecesse minha verdadeira parceira quando a encontrasse.

Deu vontade de vomitar. Quantas vezes ele já tinha me alimentado com essas mesmas frases doces?

Lily avançou, radiante em um vestido branco. De repente, me lembrei de ter ajudado ela a escolher na semana passada. Será que ela tinha comprado para este momento?

— Eu aceito Thomas Bennett como meu parceiro — ela disse, com clareza. — E aceito o posto de Luna da Matilha Lua de Prata.

Luna. Claro. Tom não tinha só querido me humilhar – ele queria me substituir por completo.

A hierarquia da matilha mudou na mesma hora. Senti meu poder de Beta sendo arrancado, me deixando em carne viva, exposta. Os membros da matilha começaram a me virar as costas – o gesto tradicional de rejeição.

Vi Maria tentando abrir caminho pela multidão até mim, mas o Alfa Jensen fez um sinal para que ela recuasse. Ninguém podia ajudar a rejeitada. Era lei da matilha.

Os sussurros foram ficando mais altos, mais ousados:

— Forte demais pro próprio bem dela…

— Devia ter se preocupado mais em ser uma Luna de verdade…

— Sempre soube que ela não era a certa pra ele…

— Querendo trabalhar no mundo humano como uma loba solitária…

Meu treinamento de guerreira desmoronou. Todos aqueles anos aprendendo a ser forte, a nunca mostrar fraqueza, e ali estava eu – arrebentada no chão enquanto meu ex‑parceiro e minha antiga melhor amiga completavam o vínculo na frente de todo mundo.

Eu corri.

Sem recuo estratégico desta vez. Sem dignidade. Só pânico cego e dor enquanto eu fugia dos terrenos da matilha.

As árvores passavam em borrões enquanto eu corria mais rápido do que jamais tinha corrido. Minha loba me empurrava para frente, para longe da dor, longe da traição, longe de tudo o que eu já tinha conhecido.

As luzes da cidade brilhavam à distância – anônimas, seguras, humanas. Um lugar onde a política de matilha não podia me alcançar.

Meu celular vibrou uma última vez. Uma mensagem da Lily:

“Não se preocupa em arrumar suas coisas, bestie. Eu cuido de tudo. Afinal, não é pra isso que servem as amigas? 😘”

Joguei o celular contra uma árvore, vendo ele se despedaçar como a minha vida tinha se despedaçado.

O vínculo de alma tinha acabado. Meu status na matilha tinha acabado. Minha melhor amiga tinha ido embora.

E em algum lugar na cidade à frente, um estranho saboreava seu bourbon, sem saber que o destino estava prestes a jogar na nossa cara uma reviravolta que nenhum de nós dois viu chegando.

Mas é isso sobre o fundo do poço – depois que você chega lá, não tem outro lugar pra ir além de subir.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo