Capítulo 3
Capítulo 3
Eu fui parar num bar chamado “O Lobo Sedento”.
A placa de neon piscava lá em cima como uma piada cósmica. Lobos de verdade afogando as mágoas num bar com “lobo” no nome – a Deusa da Lua devia estar rachando de rir.
Olhei meu reflexo na janela escura. Rímel borrado embaixo dos olhos, cabelo desgrenhado de tanto correr. Pelo menos eu ainda estava com o meu blazer chique, mesmo todo amarrotado. Só mais uma garota corporativa tendo uma noite ruim, não uma lobisomem recém-rejeitada, com a vida inteira em ruínas.
O segurança mal olhou a minha identidade. Ainda bem, porque minha mão tremia tanto que quase deixei o documento cair. Minha loba continuava inquieta, andando de um lado pro outro debaixo da pele, querendo uivar a nossa dor pra lua. Em vez disso, eu fui direto pro balcão.
— Uísque. Duplo. E vai girando.
O barman – um sujeito parrudo, com olhos de quem já viu de tudo – me lançou aquele olhar que todo barman parece treinar. O clássico “quem quebrou seu coração, querida?”. Se ele soubesse.
Com os sentidos aguçados, captei pelo menos mais três lobos no bar, todos mantendo com cuidado a fachada humana. Um deles cruzou o olhar comigo e logo desviou. As notícias correm rápido na comunidade sobrenatural. Até amanhã, toda matilha num raio de três estados ia saber da minha humilhação.
Depois do terceiro drink, o laço de alma rompido ainda latejava como um ferimento aberto. Metabolismo de lobisomem é uma desgraça – ia precisar de meia garrafa pra eu começar a ficar tonta. Mesmo assim, a queimação do álcool me dava algo em que focar além do vazio no peito onde o Tom costumava ficar.
A pista de dança pulsava com humanos perdidos em seus dramas simples. Términos, pegação, intriga de escritório. Nenhum deles preocupado com hierarquia de matilha, laço de alma ou melhor amigo que vinha planejando sua queda há meses.
— Esse lugar tá ocupado?
Virei pra mandar quem quer que fosse se ferrar, mas as palavras morreram na garganta. O cara era lindo naquele estilo alto-moreno-bonito de revista, mas não foi isso que me pegou. O poder vinha dele em ondas – poder de Alfa.
Ótimo. Exatamente o que eu precisava.
— País livre — resmunguei, voltando pro meu copo.
Ele sentou mesmo assim e fez sinal pro barman.
— Bourbon. Puro.
O cheiro dele me atingiu – pinho, chuva e alguma coisa selvagem. Minha loba esticou as orelhas na mesma hora, interessada apesar da minha decisão de afundar na miséria.
“Perigo”, meus instintos sussurraram. Mas depois do dia que eu tinha tido, perigo parecia uma melhora.
— Noite difícil? — A voz dele carregava uma autoridade natural, embora ele claramente estivesse tentando suavizar.
Eu ri, um som tão seco que fez o barman até fazer uma cara de dor.
— Dá pra dizer que sim.
— Quer falar sobre isso?
— Nem um pouco. — Virei o resto do uísque e já fiz sinal por outro.
— Justo. — Ele tomou um gole do bourbon, aparentemente satisfeito com o silêncio.
As caixas de som vagabundas do bar começaram a tocar alguma música pop sobre traição e corações partidos. Porque, aparentemente, o universo ainda não tinha terminado de tirar sarro da minha cara.
— Meu par me rejeitou por causa da minha melhor amiga na frente da matilha inteira — eu disparei. — Depois de eu pegar os dois transando na cama dele. No dia em que eu ia contar pra ele sobre o meu emprego dos sonhos.
Esperei ele se afastar. Em vez disso, ele só assentiu e fez sinal para o barman.
— Vamos precisar do que tem de bom pra essa conversa.
O “que tem de bom” acabou sendo uma garrafa de bourbon de alta qualidade que provavelmente custava mais do que meu blazer chique.
— Eu sou o Christian — ele disse, servindo doses generosas pros dois.
— Sophie. — Não ofereci o nome da minha matilha. Eu não tinha mais um.
— Bom, Sophie, parece que o seu ex-parceiro é um idiota.
Minha loba se animou com o rosnado por baixo das palavras dele. Alfas costumavam ser tradicionalistas em relação ao laço de parceria. O fato de esse aí parecer irritado por minha causa era… interessante.
— A matilha inteira parece achar que a idiota sou eu — falei, encarando meu copo. — Forte demais, ambiciosa demais, demais em tudo.
Os olhos de Christian brilharam âmbar por uma fração de segundo.
— Não existe isso de forte demais.
Alguma coisa no tom dele me fez erguer o olhar. Ele me observava com uma intensidade que deveria ser desconfortável. Em vez disso, parecia… certo.
Minha loba avançou, querendo ficar mais perto dele. O laço de parceria quebrado doía menos na presença dele, como se o poder dele de algum jeito amortecesse a dor.
— Quer ouvir uma coisa bem patética? — O bourbon finalmente estava batendo. — Acabei de conseguir um emprego maravilhoso na Knight Industries. Mundo corporativo, sala de canto, o sonho completo. Eu estava tão animada pra contar pro Tom. Achei que ele fosse ficar orgulhoso.
A mão de Christian apertou o copo.
— Knight Industries?
— É. Eu começo na segunda. — Soltei uma risada amarga. — Quer dizer, eu ia começar. Agora provavelmente vou estar ocupada demais servindo de exemplo de parceira rejeitada pra aparecer por lá.
— Você devia ir.
— O quê?
Christian se virou completamente pra mim, a expressão séria.
— Vai pro trabalho. Arrasa. Mostra pra todo mundo o que eles perderam.
Minha loba praticamente ronronou com as palavras dele. “Alfa forte. Alfa bom.”
Mandei ela calar a boca.
— Você não me conhece — eu disse. — Posso ser péssima.
— Eu sou um excelente juiz de caráter. — O sorriso dele guardava segredos. — E você, Sophie, está longe de ser péssima.
O bar anunciou a saideira, me fazendo sobressaltar. A gente realmente tinha ficado horas conversando?
Christian se levantou, a altura e o poder dele totalmente aparentes. Os outros lobos no bar desviaram o olhar na mesma hora, se submetendo no instinto. Interessante.
— Deixa eu te levar em casa — ele disse.
Pensei no meu apartamento vazio, cheio de lembranças da matilha e de status perdido. Pensei na mensagem da Lily sobre “cuidar” das minhas coisas.
— Eu não tenho mais casa — admiti.
Christian estendeu a mão pra mim. O gesto era ao mesmo tempo uma pergunta e um convite.
— Então deixa eu te levar pra algum lugar melhor.
Minha loba uivou “sim”, me empurrando pra aceitar. O laço de parceria quebrado parecia distante, sem importância.
Tudo o que eu sabia sobre política de matilha e segurança de lobos gritava que ir a qualquer lugar com um Alfa desconhecido era uma péssima ideia.
Mas, ao olhar pra mão estendida dele, percebi uma coisa: eu não tinha mais nada a perder.
E talvez, só talvez, isso quisesse dizer que eu tinha tudo a ganhar.
— Onde você tinha em mente? — perguntei.
O sorriso de Christian carregava promessas de perigo e possibilidade.
— Por que a gente não descobre junto?
Coloquei minha mão na dele.
A noite estava prestes a ficar bem mais interessante.
