Capítulo 4

Capítulo 4

O carro do Christian era um Aston Martin preto e elegante que provavelmente custava mais do que eu ganharia em cinco anos na Knight Industries.

Eu já tinha tido minha cota de surpresas hoje, mas o universo ainda guardava mais algumas na manga.

Ergui uma sobrancelha, com uma pitada de sarcasmo na voz.

— Bem discreto — comentei.

Uma risada quente e grave escapou dele, provocando uma sensação agradável que desceu pela minha coluna.

— Discreto? Nunca disse que era — ele admitiu.

O banco de couro me abraçou como manteiga quando me sentei. O cheiro do Christian me envolveu — pinho, chuva, poder e outra coisa que eu não conseguia identificar. Minha loba praticamente dançava debaixo da pele, ansiosa para ficar mais perto dele.

— Calma, garota. Já tivemos drama masculino suficiente pra uma vida inteira.

Mas a minha loba não se aquietava. Havia algo no Christian que a chamava, algo além do status óbvio de Alfa dele. Ela nunca tinha reagido assim ao Tom, nem quando o nosso laço de mate ainda era novo.

— Diferente — ela insistiu. — Mais forte. Melhor.

Mandei ela calar a boca. De novo.

— Então… — Christian entrou no trânsito com suavidade, conduzindo o carro potente com uma facilidade casual. — Knight Industries?

Certo. Meu emprego dos sonhos. Aquele com o qual eu estava tão empolgada hoje de manhã, antes de a minha vida inteira desmoronar. Antes de eu descobrir que meu mate e minha melhor amiga estavam rindo de mim pelas minhas costas havia meses.

— Gerente de Operações Estratégicas — respondi, tentando manter a voz firme. — Ou pelo menos era o que eu deveria ser.

As mãos do Christian apertaram o volante.

— “Deveria”?

— Bom, não é como se eu pudesse aparecer lá agora — as palavras saíram mais amargas do que eu queria. — Mates rejeitadas não são exatamente conhecidas pela estabilidade. Tenho certeza de que o Tom e a Lily vão dar um jeito de todo mundo saber o quanto eu sou instável.

— Foda-se eles.

— Como é?

— Foda-se eles — os olhos do Christian brilharam em âmbar, o poder irradiando dele em ondas. — Você conquistou esse cargo. As decisões idiotas do seu ex-mate não têm nada a ver com a sua capacidade.

Minha loba se empertigou, toda satisfeita, com a defesa que ele fez de nós. O laço de mate rompido parecia pulsar menos na presença dele, como se o poder do Christian de algum jeito amortecesse a dor.

— Você parece bem seguro de alguém que acabou de conhecer num bar — observei, estudando o perfil dele.

O sorriso do Christian guardava segredos.

— Digamos que eu tenho um ótimo instinto para pessoas. Principalmente para pessoas que se recusam a deixar que os outros definam o valor delas.

As luzes da cidade passavam borradas enquanto a gente avançava mais fundo no distrito financeiro. Era para eu estar com medo, entrando no carro de um Alfa estranho. Tudo o que eu sabia sobre política de alcateia e segurança de lobos gritava que isso era uma péssima ideia.

Em vez disso, eu me sentia… segura. O que provavelmente era um péssimo sinal sobre o meu senso de julgamento.

“A maioria dos Alfas que eu conheço não aprovaria uma loba querendo fazer carreira corporativa”, comentei, testando o terreno.

A mandíbula de Christian enrijeceu. “A maioria dos Alfas está presa na idade da pedra. A gente é predador, não lobo das cavernas. A evolução devia deixar a gente mais forte, não prender com tradição ultrapassada.”

Bom, isso era… diferente.

“Sua matilha deve ser interessante”, arrisquei.

“Pode-se dizer que sim.” Ele se enfiou no trânsito com uma facilidade tranquila. “A gente acredita em mérito acima de tradição. Força acima de status.”

“Parece bom demais pra ser verdade.”

“Às vezes, as melhores coisas da vida são inesperadas.”

Do jeito que ele olhou pra mim, minha pele arrepiou. Minha loba avançou de novo, querendo ficar mais perto.

“Seguro”, ela insistiu. “Lar.”

Eu realmente precisava ter uma conversa com ela sobre limites.

“Pra onde a gente tá indo?”, perguntei por fim, embora eu já tivesse uma boa ideia.

“Pra minha casa.” Ele lançou um rápido olhar na minha direção, a expressão indecifrável. “A não ser que você prefira outro lugar?”

Pensei no meu apartamento, provavelmente sendo revirado pela Lily naquele exato momento. Na casa da matilha, onde eu nunca mais seria bem-vinda. Em quartos de hotel pagos com o cartão do Tom.

“Sua casa tá ótimo.”

O carro ronronou até parar em frente à Aurora Tower – o prédio mais exclusivo da cidade. Sessenta andares de vidro e aço subindo em direção à lua como um castelo moderno.

Um manobrista surgiu na mesma hora para pegar as chaves.

“Sr. Knight”, ele cumprimentou com um aceno respeitoso.

Quase tropecei nos próprios pés.

Knight. Tipo Knight Industries. Tipo a empresa onde eu devia começar a trabalhar na segunda-feira.

A mão de Christian me firmou, quente na base das minhas costas. “Cuidado.”

“Você é o Christian Knight?” Minha voz saiu ridiculamente fina.

“Culpado.” Os olhos dele brilhavam de diversão. “Isso é um problema?”

Seria um problema eu ter passado horas despejando minha alma pro meu futuro chefe? Ter contado pra ele sobre a rejeição do meu par destinado e o drama da matilha? Estar agora subindo pro apartamento de cobertura dele como uma…

“Sophie.” A voz de Christian cortou minha espiral. “Respira.”

Certo. Respirar. Isso era uma coisa que eu precisava lembrar de fazer.

A subida de elevador foi silenciosa, a tensão faiscando entre nós. Minha loba estava estranhamente quieta, observando, à espreita. Ela normalmente odiava elevadores – espaço muito fechado, controle demais. Mas parecia perfeitamente satisfeita em ficar presa num lugar apertado com o Christian.

— Confie no Alfa — ela ronronou.

Eu realmente precisava mandar checar os hormônios dela.

O elevador dava direto na cobertura dele, e eu quase engasguei. O espaço era exatamente o que você esperaria de um Alfa corporativo: clean, moderno, masculino. Janelas do chão ao teto exibiam a cidade estendida lá embaixo como um tapete de estrelas.

Mas foram os detalhes sutis que chamaram minha atenção. As marcas da matilha trabalhadas na decoração — runas de proteção entalhadas nos batentes das portas, símbolos de força trançados nos tapetes. O calendário das fases da lua na parede não estava ali só de enfeite; era um modelo antigo, usado por líderes de matilha para acompanhar a energia dos lobos. E aqueles livros…

Cheguei mais perto das prateleiras embutidas, atraída pela lombada de um volume em particular.

— Isso é uma primeira edição de “Dinâmica de Matilha na Era Moderna”?

Christian apareceu ao meu lado, a presença dele fazendo a minha pele formigar.

— Você conhece o trabalho do Martinson?

— Tá brincando? As teorias dele sobre evolução de matilha revolucionaram a forma como a gente pensa sobre hierarquia de lobos. — Eu não consegui esconder a empolgação na minha voz. — A maioria dos Alfas odeia ele, porém. Progressista demais.

— A maioria dos Alfas tem medo de mudança. — A voz de Christian ficou mais baixa. — Medo de lobos que pensam por conta própria.

Esse não era o território de qualquer Alfa. Era a toca de um líder de matilha. E não de qualquer líder — de um que colecionava livros proibidos sobre reforma de matilha.

— Você não é só o CEO da Knight Industries — eu disse. Não era uma pergunta.

— Não. — Ele foi até um carrinho de bar estiloso, escolhendo uma garrafa de vinho que provavelmente custava mais do que o meu carro. — Quer saber o que mais eu sou?

Eu devia ter dito não. Devia ter fugido enquanto ainda dava tempo. Em vez disso, me peguei assentindo.

Nossos dedos se tocaram quando ele me entregou uma taça. Centelhas elétricas passaram entre nós, fazendo minha loba avançar, interessada.

— Eu sou o Alfa da Matilha Shadow Ridge — ele disse em voz baixa. — A maior, mais forte e mais progressista matilha da Costa Leste. E você, Sophie Turner, está no meu radar há bastante tempo.

A taça quase escorregou dos meus dedos.

— O quê?

Christian tomou um gole lento do vinho, me encarando por cima da borda.

— Você realmente achou que conseguiu aquele emprego na Knight Industries puramente por acaso?

Eu devia estar com raiva. Devia me sentir manipulada. Em vez disso, eu estava só… curiosa.

— Por que eu?

Ele pousou a taça e se aproximou. O poder dele vinha em ondas sobre mim, mas não parecia ameaçador. Parecia… reconhecimento.

— Porque eu venho procurando alguém exatamente como você, Sophie Turner. Uma loba que entende que o nosso mundo precisa evoluir. Uma guerreira que se recusa a ser limitada pela tradição.

— Uma rejeitada, cheia de drama de matilha? — As palavras saíram amargas.

— Uma fêmea forte que apavora machos fracos. — A voz dele desceu para um rosnado. — Seu ex-parceiro te rejeitou porque não aguentou o seu poder. Eu acho isso… intrigante.

Ele estava perto agora, perto demais. Minha loba se lançou na direção dele, atraída pelo poder, pelo cheiro, por tudo nele.

— Eu tô quebrada — sussurrei. — O laço de mate…

— Não é o único tipo de laço que importa. — Os dedos dele contornaram a minha mandíbula. — Às vezes a Deusa da Lua rompe um laço pra abrir espaço pra algo mais forte.

O primeiro beijo dele foi gentil. Minha loba avançou com um uivo de triunfo.

Tudo se estreitou em pura sensação — as mãos dele se enroscando no meu cabelo, o poder dele me envolvendo como um cobertor, o lobo dele chamando o meu de um jeito que fazia o laço de mate quebrado parecer uma lembrança distante.

Nós mal conseguimos chegar até o quarto.

Roupas se espalharam como migalhas de pão marcando o caminho. Meu blazer chique. O terno caro dele. Todos os adereços das nossas vidas humanas largados de lado enquanto nossos lobos assumiam o controle.

Christian adorou o meu corpo como se fosse algo precioso, apagando a rejeição de Tom a cada toque. O poder do lobo dele me inundou, preenchendo todos os espaços que o meu laço quebrado tinha deixado para trás.

— Minha — ele rosnou, e a minha loba uivou em concordância.

A cidade assistia à nossa paixão através daquelas janelas gigantes, mas eu já tinha passado do ponto de me importar. Tudo que não fosse Christian desapareceu — política de matilha, rejeição de mate, drama corporativo.

Horas depois, ele me segurava apertado, os braços protetores e possessivos. Minha loba se aquietou em paz, satisfeita de um jeito que não ficava desde a rejeição.

— Dorme — ele murmurou, beijando a minha têmpora.

Eu devia ter resistido. Devia ter feito mais perguntas. Devia ter me preocupado com a segunda-feira de manhã, com política de matilha, com todas as complicações que isso ia causar.

Em vez disso, me deixei adormecer nos braços dele, segura na toca dele, cercada pelo cheiro dele.

Meu último pensamento antes do sono me levar foi simples:

“A Deusa da Lua trabalha de maneiras misteriosas.”

Eu não fazia ideia de quão misteriosas as coisas estavam prestes a ficar.

Porque, enquanto eu dormia tranquila nos braços de Christian, meu celular, esquecido no blazer largado no chão, estava explodindo de mensagens da Maria.

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