Capítulo 5
Capítulo 5
Meus olhos se abriram devagar para uma luz do sol desconhecida, entrando por janelas do chão ao teto. Por um momento, eu só fiquei encarando o horizonte da cidade, tentando juntar as peças de onde eu estava. Os lençóis contra a minha pele pareciam nuvens – com certeza não eram o jogo de promoção da IKEA.
Minha loba se espreguiçou, satisfeita, ronronando de prazer. Foi aí que tudo me atingiu como um caminhão.
O bar. O Aston Martin. Christian. A “noite”.
— Ai, meu Deus. — Eu me sentei tão rápido que o quarto girou, agarrando os lençóis absurdamente caros contra o peito. — Ai, meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Minha loba revirou os olhos. — Par ideal — ela insistiu.
— Cala a boca! Ele não é o nosso par. A gente só… ai, meu Deus.
Eu tateei atrás do meu celular, quase caindo da cama king size californiana no processo. Onde estavam as minhas roupas? Ali — uma trilha levando até a porta, tipo caminhada da vergonha em versão trilha de migalha de pão.
Quinze ligações perdidas da Maria. Vinte e oito mensagens.
“Sophie, cadê você??”
“O Tom e a Lily estão no seu apartamento”
“Eles tão mexendo nas suas coisas”
“ME LIGA”
— Merda.
Achei o banheiro fácil – a cobertura tinha um layout lógico, apesar do tamanho absurdo. Tudo gritava dinheiro e poder: bancadas de mármore, um box de banho grande o bastante pra reunião de bando, e produtos que provavelmente custavam mais do que o meu aluguel mensal.
Joguei água no rosto, evitando olhar pro meu reflexo. Meu cabelo estava um desastre, e havia marcas no meu pescoço que faziam minha loba ronronar e meu lado humano querer morrer de vergonha.
— Se recompõe, Sophie — murmurei. — Você é melhor do que isso.
Meu celular vibrou de novo. Maria.
“Eles tão destruindo suas coisas. Onde VOCÊ TÁ??”
Isso me fez me mexer. Peguei minhas roupas, fazendo careta pro estado amarrotado delas. Tudo cheirava a Christian – pinho, chuva e poder. Minha loba choramingou quando comecei a cobrir o cheiro dele com o meu.
Percebi que ele não estava na cobertura. Por um instante, considerei esperar, conversar com ele. Minha loba com certeza queria isso.
— Não — falei firme com ela. — A gente vai embora.
Peguei um bloco de notas da mesa de cabeceira, comecei a escrever… e amassei a folha. O que eu ia dizer, afinal? Valeu pelo sexo tapa-buraco, foi mal pela bagagem emocional?
A descida de elevador foi uma tortura. Cada instinto gritava pra eu voltar, encarar isso como uma adulta. Mas eu não conseguia. Não com o Tom e a Lily revirando o meu apartamento. Não com a minha vida inteira desmoronando.
O porteiro da manhã chamou um táxi sem eu precisar pedir. Fiquei me perguntando se ele já estava acostumado com isso – mulheres fugindo da cobertura do Christian com a roupa da noite anterior.
Aquilo não deveria ter doído tanto quanto doeu.
O taxista não comentou sobre a minha aparência, embora tenha abaixado um pouco os vidros. Ótimo. Eu provavelmente estava fedendo a sexo e colônia cara.
Meu prédio parecia o mesmo. Engraçado como a sua vida inteira pode implodir, mas o mundo simplesmente continua girando.
A Maria andava de um lado pro outro na frente da minha porta, o cabelo escuro todo bagunçado e a maquiagem, que normalmente era impecável, borrada. Ela me puxou pra um abraço apertado antes que eu conseguisse falar.
— Onde você tava? — ela sussurrou. — Eu tava morrendo de preocupação! Eles tão aqui há horas e… — Ela congelou, cheirando o ar. — Sophie… por que você tá cheirando a…
A porta se escancarou antes que ela pudesse terminar. Lily estava ali, o cabelo loiro perfeito, arrumado como se estivesse indo para um ensaio fotográfico em vez de destruir a vida de alguém.
— Olha, olha, olha. — O sorriso dela era só dentes. — Olha só quem finalmente apareceu.
Endireitei os ombros, evocando cada gota de energia de sala de reunião corporativa que eu tinha.
— Sai do meu apartamento.
Ela riu, alta e falsa.
— Seu apartamento? Querida, isso aqui é propriedade da alcateia. E fêmea rejeitada não tem direito a privilégio de alcateia.
Empurrei Lily para o lado, minha loba rosnando. A visão do meu apartamento me fez congelar.
Eles tinham sido minuciosos. Cada gaveta esvaziada, cada porta-retrato quebrado. Meus livros — meus preciosos e caros livros-texto — estavam espalhados pelo chão, páginas arrancadas.
Tom estava no meio do caos, me observando com aqueles olhos castanhos familiares. Olhos que eu já tinha amado.
— Você tá com um cheiro diferente — ele disse, franzindo a testa.
Minha loba se exibiu. O cheiro persistente de Christian me dava uma força que eu nem sabia que precisava.
— Cai. Fora.
— Sophie — a voz de Tom assumiu aquele tom condescendente que eu costumava confundir com cuidado. — Seja razoável. Você conhece a lei da alcateia. Depois que o vínculo de casal é rompido…
— Então eu junto minhas coisas e vou embora — cortei, sem deixar ele terminar. — Mas antes, você e a sua nova fêmea vão sair do meu apartamento.
O rosto de Lily se contorceu.
— Como você ousa? O Tom me escolheu. Ele finalmente enxergou que tipo de desculpa patética de fêmea você era e…
— Maria — interrompi, sem tirar os olhos de Tom. — Você me ajuda a arrumar minhas coisas?
Maria apertou minha mão.
— Claro.
Nós trabalhamos rápido, juntando o essencial que tinha sobrevivido ao ataque de fúria de Lily. Roupas, documentos, meu notebook. As poucas fotos que não tinham sido destruídas.
— Você nunca foi digna de ser a fêmea dele mesmo — Lily gritou enquanto a gente ia em direção à porta. — Todo mundo sabia disso. A gente só tava esperando o Tom perceber.
Dois anos atrás, aquelas palavras teriam me destruído. Hoje, mal fizeram cócegas. Minha loba estava ocupada demais com as lembranças de olhos cor de âmbar e mãos poderosas para se importar com a traição de Tom.
Maria me ajudou a carregar o carro, prometendo voltar para buscar qualquer coisa que a gente tivesse deixado.
— Pra onde você vai?
— Pro território da alcateia nova — respondi, tentando soar mais confiante do que eu me sentia. — Começo no emprego novo na segunda-feira. Eles têm moradia temporária pra membros novos.
Ela me abraçou de novo.
— Me liga quando chegar. E, Sophie? — Ela se afastou um pouco, estudando meu rosto. — Quem quer que ele seja… talvez seja exatamente o que você precisava.
Pensei em Christian enquanto dirigia para longe. No riso dele, no poder dele, no jeito como ele tinha me feito sentir segura e desejada.
— Parceiro — minha loba insistiu de novo.
Dessa vez, eu não mandei ela calar a boca.
Eu só dirigi, deixando minha vida antiga para trás, tentando não pensar no desconhecido que tinha virado meu mundo de cabeça pra baixo duas vezes na mesma noite.
Meu celular vibrou com outra mensagem da Maria: “Amiga, a gente precisa falar desse cheiro de Alfa grudado em você…”
Desliguei o celular e continuei dirigindo.
Eu não fazia ideia de que a maior surpresa ainda estava me esperando na Knight Industries na segunda de manhã.
