Capitulo 2

Marina acordou com cheiro de madeira encerada, chuva antiga e cafe forte.

Por alguns segundos, ficou perfeitamente imovel. Era um truque simples que usava ao atender chamadas confusas: antes de reagir, identificar o que era real. Havia musica baixa em algum lugar, um contrabaixo marcando pulsos lentos. Havia vozes. Copos. Um ventilador antigo. Havia tambem a dor fina no pulso, onde dedos gelados tinham se fechado sobre ela.

Ela abriu os olhos.

O teto era de estanho trabalhado, daqueles que sobreviviam em predios velhos do centro. Lampadas ambar pendiam sobre mesas pequenas. No palco estreito, um trio de jazz tocava como se nada no mundo fosse urgente. A parede atras do bar era coberta de garrafas, espelhos manchados e pequenos objetos que pareciam reliquias: chaves sem dentes, moedas furadas, uma mascara de carnaval rachada, um rosario preso dentro de uma redoma de vidro.

Bonito, pensou Marina.

Depois viu o homem sem sombra bebendo absinto na mesa da frente.

Ela sentou de uma vez.

-- Calma -- disse uma mulher atras do balcao. -- Se voce vomitar no sofa, o Hugo vai querer cobrar limpeza emocional.

Marina virou para ela. A mulher tinha cabelo preto preso com um lapis, delineador afiado e uma expressao de quem ja tinha visto todos os tipos possiveis de idiotice antes do cafe da manha. Sacudia uma coqueteleira com uma mao e, com a outra, riscava algo no ar. Pequenas faiscas verdes acompanhavam os dedos dela.

Marina olhou para as faiscas. Olhou para o homem sem sombra. Olhou para uma senhora de vestido lilas que tinha duas pupilas em cada olho. Olhou para o proprio corpo, inteiro demais para quem tinha acabado de fugir de um pesadelo.

-- Eu fui drogada -- concluiu.

A bartender ergueu a sobrancelha.

-- Voce invadiu o bar de um guardiao, quase trouxe um carniceiro de limiar pela porta dos fundos e desmaiou de choque. Mas claro, vamos de droga. E mais confortavel.

Marina levantou do sofa. A sala girou. Ela segurou a mesa mais proxima, e a criatura sentada ali recolheu discretamente uma cauda fina para nao ser pisada.

-- Onde esta meu celular?

-- Morto.

-- Eu sei que a bateria acabou. Estou perguntando onde esta.

-- No balcao. Morto, mas com dignidade.

Marina respirou fundo. A vontade de gritar era grande. A de parecer fragil, menor ainda.

-- Quem e voce?

-- Nina Paiva. Bruxa, bartender e pessoa que, por azar, estava perto quando voce decidiu transformar nossa noite numa ocorrencia.

-- Isso aqui e algum tipo de festa tematica?

Nina olhou para o salao. Um homem com guelras no pescoco levantou o copo em cumprimento. Perto do piano, duas mulheres identicas demais sorriam sem mostrar os dentes. Uma cadeira vazia discutia em voz baixa com o garcom.

-- Sim -- Nina disse. -- Tema: negacao humana antes do colapso.

Marina passou a mao pelo rosto.

-- Eu preciso ir embora.

O salao inteiro ficou quieto.

Nao completamente. O trio continuou tocando, mas mais baixo. Conversas morreram mesa por mesa. Copos pararam no ar. Marina sentiu que tinha acabado de dizer uma obscenidade numa missa.

Entao ele apareceu.

O homem que fechara a porta atras dela.

Marina soube antes de ve-lo por inteiro. O ar mudou, nao como frio, mas como obediencia. Ele desceu a escada lateral sem pressa, usando camisa preta com as mangas dobradas e um colete escuro que fazia o corpo parecer ainda mais alto. Tinha cabelo castanho quase preto, rosto de trinta e poucos anos e olhos cinzentos que nao combinavam com nenhuma luz do bar. O tipo de homem que nao precisava levantar a voz porque o mundo ja se inclinava para escutar.

-- Ninguem vai embora -- ele disse.

Marina travou o maxilar.

-- Otimo. O sequestro pelo menos vem com nota fiscal?

Nina tossiu para esconder uma risada.

O homem a ignorou. Desceu o ultimo degrau e parou a uma distancia calculada, perto o bastante para dominar a sala, longe o bastante para nao parecer que a encurralava. Marina odiou perceber o cuidado.

-- Seu nome.

-- Voce primeiro, ja que aparentemente e o dono da prisao.

Um murmurio atravessou o bar. Alguem no fundo sussurrou que humana tinha coragem ou estupidez. Talvez as duas.

-- Caio Rowan -- ele respondeu. -- Dono do Meia-Noite Azul.

-- Marina Vale. Atendente do SAMU. Cidada com documentos, familia e uma paciencia muito menor do que voce imagina.

-- Voce sabe o que a perseguiu?

-- Sei. Alguma coisa que nao existe.

-- Existir nunca dependeu da sua autorizacao.

Ela riu sem humor.

-- Frase bonita. Deve funcionar com gente que nao acabou de quase morrer.

Caio olhou para a porta dos fundos. Marina acompanhou o olhar e viu tres trancas que nao estavam ali antes, cada uma gravada com simbolos escuros. A madeira tremia de leve. Do outro lado, alguma coisa arranhou uma vez, com paciencia.

O sangue dela gelou.

-- Aquilo ainda esta la.

-- Esta.

-- Chame a policia.

Nina fez um som pequeno.

Caio continuou olhando para Marina.

-- A policia nao atende esse tipo de ocorrencia.

-- Engracado. Eu atendo ocorrencia todo dia e nunca vi opcao "monstro na porta" no sistema.

-- Porque os que veem raramente conseguem preencher formulario.

Marina segurou o medo com as duas maos e transformou em raiva, porque raiva pelo menos ficava de pe.

-- Eu vou ligar para meu irmao.

-- Nao.

-- Isso nao foi um pedido.

-- Tambem nao foi uma permissao.

O silencio voltou mais pesado. Marina deu um passo a frente. Caio nao se mexeu. De perto, ela percebeu uma cicatriz fina atravessando a base do polegar dele e outra, mais antiga, perto da clavicula, desaparecendo sob a gola.

-- Escuta aqui, dono do bar. Eu nao sei que tipo de clube secreto voces acham que sao, mas eu nao vou ficar presa porque um homem de roupa preta decidiu falar em frases curtas.

-- Se voce sair antes do amanhecer, morre antes de chegar na esquina.

-- Isso e ameaca?

-- E matematica.

Marina abriu a boca para responder. A dor no pulso queimou.

Ela puxou a manga da jaqueta.

Havia uma marca ali.

Nao era arranhao. Era um desenho fino, azul-escuro sob a pele, como se tinta tivesse florescido dentro das veias. Tres linhas curvas se encontravam no centro do pulso e pulsavam no mesmo ritmo da musica.

Caio ficou imovel.

Pela primeira vez desde que entrara, algo parecido com susto atravessou o rosto dele.

-- Mostre o braco -- ele disse.

-- Nao.

-- Marina.

Ouvir seu nome naquela voz baixa acendeu todos os alarmes dela.

-- Eu disse nao.

Caio atravessou a distancia com rapidez impossivel, mas parou antes de toca-la. O controle dele parecia uma corrente esticada ate o limite.

-- Quem marcou voce?

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