Entrei Num Bar de Monstros e o Dono Disse Que Eu Nao Podia Sair

Entrei Num Bar de Monstros e o Dono Disse Que Eu Nao Podia Sair

Ana Beatriz Oliveira · Atualizando · 13.3k Palavras

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Introdução

Marina Vale passava as madrugadas atendendo pedidos de socorro na central do SAMU, acostumada a ser a voz calma do outro lado da linha enquanto a cidade quebrava em acidentes, sirenes e desespero. Numa noite de chuva, depois de um plantao que parecia nao terminar, ela e seguida por algo impossivel nas ruas vazias do centro antigo de Sao Paulo.

Para sobreviver, Marina invade um bar de jazz escondido numa rua que so aparece depois das 23h33. La dentro, os clientes nao sao humanos, o dono e mais perigoso que todos eles, e a porta pela qual ela entrou talvez nunca devesse ter se aberto.

Caio Rowan salva sua vida. Depois tranca a saida e diz que ela nao pode ir embora.

Marina acha que encontrou seu carcereiro. Mas quando escuta a voz do proprio irmao chamando do lado de fora, descobre que o perigo real aprendeu a usar rostos e vozes que ela ama. Agora, presa entre uma corte sobrenatural, um guardiao exilado e uma heranca de sangue que sua mae escondeu ate morrer, Marina precisa decidir quem esta tentando controla-la e quem esta tentando impedir que o mundo inteiro a engula.

Capítulo 1

As ultimas chamadas do plantao sempre tinham gosto de ferrugem.

Marina Vale tirou o headset com cuidado, como se o plastico pudesse levar junto o grito de uma mae que ainda vibrava dentro do ouvido dela. Na tela da central, a ocorrencia ja tinha sido encerrada. Viatura despachada. Bombeiros acionados. Prioridade vermelha. Tudo devidamente registrado no sistema, com horario, codigo e uma frieza que fazia parecer que sofrimento cabia em campos obrigatorios.

Ela esfregou os olhos ardendo.

-- Voce vai embora desse jeito? -- perguntou Renata, da mesa ao lado.

-- Que jeito?

-- Com cara de quem quer brigar com a cidade inteira.

Marina pegou a mochila no armario e vestiu a jaqueta por cima da camiseta amassada.

-- A cidade comecou.

Renata soltou uma risada curta, cansada. No turno da madrugada, todo mundo aprendia a rir baixo, porque sempre havia alguem morrendo em algum lugar.

Do lado de fora, Sao Paulo tinha aquele brilho molhado que deixava as avenidas bonitas so para quem as via de longe. Perto, era outra coisa: cheiro de escapamento, lixo inchado pela chuva, calcadas quebradas, predios antigos fechados como bocas sem dentes. Marina recusou a oferta de carona porque Renata morava para o outro lado e porque, aos vinte e seis anos, ela ainda tinha o orgulho estupido de nao querer dar trabalho.

Cinco minutos depois, se arrependeu.

O aplicativo de transporte cancelou duas vezes. O metro ja tinha fechado. A bateria do celular marcava doze por cento, e a chuva fina fazia a tela responder como se tambem estivesse irritada.

-- Perfeito -- ela murmurou. -- Absolutamente perfeito.

Marina caminhou pela regiao da Se com a mochila colada ao corpo. Conhecia o centro antigo de dia: gente demais, pressa demais, vendedor gritando, fila, buzina, turista perdido na frente da catedral. De madrugada, parecia outra cidade, uma versao deixada de molho ate perder a cor. As portas metalicas das lojas estavam abaixadas, os postes falhavam em trechos inteiros, e os predios antigos observavam a rua com janelas pretas.

Ela virou numa travessa para cortar caminho ate uma avenida mais iluminada.

O som dos proprios passos mudou.

Marina parou.

No inicio, achou que fosse eco. Calcado molhado podia fazer isso. Predios altos devolviam sons tortos. Mas o ritmo atras dela nao era eco. O eco obedecia. Aquilo esperava meio segundo, depois imitava.

Ela apertou a alca da mochila.

-- Boa noite -- disse, sem se virar, com a voz profissional que usava para acalmar bebados, idosos em panico e homens que juravam que nao estavam tendo infarto.

Nada respondeu.

Marina virou devagar.

A rua estava vazia.

Claro. Porque a cidade, alem de tentar mata-la de cansaco, tambem tinha senso de humor.

Ela voltou a andar mais rapido. O celular vibrou na mao. Julio, seu irmao.

-- Fala -- ela atendeu, tentando parecer normal.

-- Ja saiu?

-- Sai. Estou viva, molhada e odiando cada decisao que me trouxe ate aqui.

-- Quer que eu va te buscar?

Marina olhou para a rua vazia atras dela. Por um segundo, quase disse sim. Depois imaginou Julio saindo do quartel depois de outro plantao de bombeiro, atravessando a cidade porque a irma mais nova nao quis esperar dez minutos por outro carro.

-- Nao precisa. Pego um taxi na avenida.

-- Marina.

-- Julio.

-- Manda localizacao.

-- Minha bateria esta acabando.

-- Entao manda agora.

Ela revirou os olhos, mas enviou. O aplicativo engasgou antes de confirmar. O icone de bateria caiu para nove por cento.

-- Satisfeito?

-- Nunca. Voce trabalha ouvindo tragedia o dia inteiro e continua andando sozinha de madrugada.

-- Eu tambem ouco homens adultos prendendo dedo em porta e chamando ambulancia. Isso equilibra minha visao do mundo.

Julio suspirou.

-- Vai direto para a avenida. Nada de atalho.

Marina abriu a boca para mentir que claro, obvio, jamais faria um atalho, quando alguma coisa raspou no muro atras dela.

Nao foi passo.

Foi unha.

Longa. Lenta. Procurando uma fresta.

O ar ficou frio com uma rapidez absurda. A chuva na nuca dela pareceu virar agulha. Marina virou a esquina sem despedir direito, o telefone ainda no ouvido.

-- Marina? -- a voz de Julio chiou. -- O que foi?

Ela correu.

O som atras dela tambem correu.

Nao havia tempo para entender. O corpo sabia antes da cabeca. Marina disparou pela travessa, escorregando na calcada, o coracao batendo tao forte que doia nos dentes. Passou por uma banca fechada, por uma fachada pixada, por uma igreja pequena com o portao trancado. Atraves do reflexo numa vitrine escura, viu algo alto demais dobrar a esquina.

Alto demais e magro demais.

E com a cabeca inclinada como se estivesse ouvindo o sangue dela.

Marina perdeu o ar.

-- Julio -- ela falou, mas o celular apagou na mao.

Sete anos atendendo emergencias ensinaram duas coisas uteis: gente em panico morria mais facil, e ninguem vinha rapido o bastante quando a desgraca ja estava encostando. Ela procurou uma porta aberta, uma luz, qualquer pessoa. Nada. So a cidade molhada, indiferente, e o som impossivel atras dela.

Entao ouviu jazz.

Um saxofone baixo, rouco, vindo de uma rua que Marina juraria nao estar ali um minuto antes.

Ela parou so o suficiente para ver a placa azul no fim da travessa: Meia-Noite Azul. Letras antigas, neon tremendo, uma porta de servico meio escondida entre dois predios. Nao fazia sentido. Aquela rua nao existia no caminho que ela conhecia. Nao havia bar ali. Nao havia musica ao vivo perto da Se numa viela morta depois da meia-noite.

O monstro atras dela abriu a boca.

Nao rugiu.

Disse o nome dela.

-- Marina Vale.

Ouvir a propria identidade naquela voz a fez esquecer qualquer duvida. Ela correu para a porta dos fundos e bateu com o ombro na madeira.

-- Abre! -- gritou. -- Pelo amor de Deus, abre!

Do outro lado, a musica parou.

Marina olhou para tras.

A coisa vinha pela chuva sem pressa agora, porque sabia que ela nao tinha para onde ir. Tinha pele cinza colada nos ossos, dedos longos demais e um sorriso cheio de espacos escuros. Usava o rosto de um homem morto ha muito tempo, mas os olhos eram vazios como pocos.

-- Nao -- Marina sussurrou. -- Nao, nao, nao.

Ela bateu de novo.

-- Se tem alguem ai, abre essa porta agora!

A criatura levantou a mao. A rua inteira pareceu inclinar em direcao a ela.

A tranca estalou.

A porta abriu por dentro.

Uma mao fria agarrou o pulso de Marina e a puxou para a escuridao.

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