Capitulo 3

Marina nao respondeu porque nao sabia se a pergunta era uma acusacao ou uma sentenca.

A marca no pulso latejava. Cada pulso parecia puxar uma lembranca que nao era dela: uma porta de pedra, agua preta batendo em degraus, a voz da mae dizendo para nunca aceitar abrigo de estranhos sem perguntar o preco. Ela tinha doze anos quando ouvira aquilo. Achara que era paranoia de uma mulher que guardava sal grosso no parapeito da janela e costurava moedas antigas dentro da barra das cortinas.

Agora, em um bar cheio de criaturas impossiveis, a paranoia da mae parecia atrasada, nao exagerada.

-- Eu nao sei -- Marina disse. -- Apareceu depois que aquela coisa me perseguiu.

Caio olhou para Nina.

A bruxa deixou a coqueteleira sobre o balcao com cuidado demais.

-- Nao fui eu -- disse Nina. -- E antes que voce me olhe desse jeito, se eu fosse marcar uma humana perdida, escolheria algo menos dramatico. Talvez um recibo.

-- E uma marca de rastreio? -- perguntou Marina.

-- Pior -- Caio respondeu.

-- Adoro quando a resposta vem com detalhes.

Ele estendeu a mao, sem tocar.

-- Posso?

Marina quis negar por principio. O problema era que o principio nao explicava a marca. Ela estendeu o pulso, pronta para recuar se ele fizesse qualquer movimento brusco.

Os dedos de Caio eram frios, mas o toque foi leve. A marca reagiu na hora. Um fio azul subiu pela pele dela ate o antebraco, e o bar inteiro gemeu, nao as pessoas, o edificio. As lampadas piscaram. A musica perdeu uma nota.

Caio soltou o pulso.

-- Nao foi o carniceiro. Ele seguiu a marca, mas nao a criou.

-- Entao quem criou?

-- Alguem que sabe procurar sangue antigo.

Marina riu, porque a alternativa era perguntar se podia desmaiar de novo.

-- Sangue antigo? Eu tenho tipo O positivo e historico familiar de pressao alta.

-- Sua familia por parte de mae. Qual era o sobrenome dela antes de casar?

A pergunta acertou um lugar que Marina nao oferecia a estranhos.

-- Por que?

-- Porque talvez seja a unica informacao entre voce e a morte.

-- Engracado como todo mundo aqui vende controle como se fosse protecao.

Nina apoiou os cotovelos no balcao.

-- Ele e pessimo em conversar, mas, para variar, nao esta mentindo.

Marina pegou o celular morto e apertou o botao como se teimosia gerasse energia eletrica. Nada.

-- Eu quero um carregador.

Caio negou com a cabeca.

-- Nenhuma chamada sai daqui enquanto houver um predador na rua.

-- Meu irmao recebeu minha localizacao antes da bateria acabar. Se eu nao responder, ele vem.

Caio ficou mais rigido.

-- Ele e humano?

-- Bombeiro. O que, perto desta noite, talvez seja a especie errada de corajoso.

Nina praguejou baixo.

-- Caio...

-- Vou mandar alguem desviar o caminho dele.

-- Voce vai o que?

-- Mantelo longe.

-- Nao. Voce nao vai chegar perto do Julio, nem mandar uma das suas criaturas atras dele.

Do fundo da sala, um cliente com chifres discretos ergueu a mao.

-- O termo criaturas e ofensivo dependendo da jurisdicao.

-- Eu pego um manual depois -- Marina retrucou sem olhar.

Caio aproximou o rosto, ainda sem toca-la.

-- Marina, escute. O que esta do lado de fora sabe seu nome. Se souber o nome dele, vai usar.

-- Voce acha que eu nao sei como funciona medo por telefone? Eu passo noites ouvindo gente tentar manter parente vivo ate a ambulancia chegar. Voz pode salvar uma pessoa. Tambem pode destruir. Nao preciso de aula.

Alguma coisa bateu na porta dos fundos.

Uma vez.

Depois outra.

O saxofone morreu no meio de uma nota.

-- Marina? -- chamou uma voz do lado de fora.

O mundo dela parou.

Julio.

Nao havia duvida. O timbre rouco de sono, o jeito de segurar a ultima vogal, a urgencia tentando nao virar panico. Era a voz do irmao dela do outro lado da porta.

-- Marina, abre. Sou eu.

Ela se moveu antes de pensar.

Caio agarrou o braco dela.

-- Nao.

-- Solta.

-- Nao e ele.

-- Voce nao sabe.

-- Sei.

-- Marina! -- A voz de Julio bateu na madeira. -- Eu vi sua localizacao. Tem alguma coisa errada nessa rua. Abre a porta agora.

Os olhos dela encheram de agua, de raiva, de medo. Julio era o unico pedaco de familia que tinha sobrado inteiro depois da morte da mae. Ele tinha aprendido a cozinhar arroz empapado para ela, a assinar reuniao de escola, a fingir que nao estava apavorado quando ela chegava tarde. Se ele estava do lado de fora, ela nao ficaria ali discutindo regras invisiveis com um homem perigoso.

-- Se for ele, voce esta me impedindo de salvar meu irmao.

-- Se nao for, voce vai abrir a porta para algo que vai usar a sua culpa ate voce andar voluntariamente para a boca dele.

-- Eu conheco a voz dele.

-- E por isso que escolheu essa voz.

Marina puxou o braco. Caio segurou com mais firmeza, mas sem machucar. Isso a irritou ainda mais, porque um agressor facil seria mais simples de odiar.

-- Voce nao tem direito.

-- Tenho enquanto estiver no meu territorio.

-- Entao seu territorio e uma prisao.

Algo doeu no rosto dele, rapido demais para ser usado contra ele.

Do lado de fora, Julio gritou.

-- Marina, por favor!

Ela deu um passo, arrastando Caio junto. O bar inteiro prendeu a respiracao. Nina saiu de tras do balcao, murmurando palavras que fizeram as garrafas tremerem.

Caio se colocou entre Marina e a porta.

-- Me odeie depois -- ele disse baixo.

-- Eu posso comecar agora.

-- Melhor viva e com odio do que morta e obediente.

A voz de Julio mudou. Apenas um pouco.

Ficou lisa demais.

-- Maninha, abre para mim.

Julio nunca chamava Marina de maninha. So fazia isso quando queria irrita-la, e nunca com aquele carinho molhado, quase doce. A percepcao chegou tarde, mas chegou como uma faca limpa.

Marina parou.

A coisa do lado de fora riu com a voz do irmao dela.

Caio aproveitou o unico segundo de hesitacao. Cortou a propria palma com uma faca fina tirada de lugar nenhum e pressionou a mao ensanguentada contra a porta. Simbolos azuis explodiram pela madeira. O bar inteiro se inclinou.

-- Caio -- Nina avisou. -- Se voce fizer isso sem consentimento formal...

-- Eu assumo o custo.

Marina recuou.

-- Que custo?

Caio olhou para ela, e pela primeira vez o perigo nos olhos dele pareceu menos ameaca do que desespero contido.

-- Uma ancora temporaria. A marca vai parar de chamar predadores, mas voce ficara presa ao territorio ate quebrarmos o rastreio.

-- Nao.

Do lado de fora, a coisa imitou o choro de Julio.

Caio agarrou o pulso marcado dela.

-- Se voce sair agora, nao vai ser comigo que tera que se preocupar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo