Capítulo 1 A mulher que ele ama não sou eu

—Parabéns, você está grávida... de oito semanas.

Jenna Mellon saiu do hospital segurando com força o resultado do exame, com o coração batendo tão forte que ela achou que fosse explodir no peito.

Depois de cinco anos de casamento com Edward Russell, finalmente eles iam ter um bebê.

As circunstâncias eram... no mínimo, constrangedoras.

Em cinco anos de casamento, Edward nunca tinha tocado nela. Nem uma vez. Jenna passou incontáveis noites em claro tentando entender o motivo — era estresse do trabalho? Algum problema de saúde que ele tinha orgulho demais para comentar?

Até o mês passado, quando Edward chegou em casa completamente bêbado. Naquela noite, pela primeira vez, eles foram íntimos.

Uma única vez. E, de algum jeito, por milagre, ela tinha engravidado.

Parecia destino. Jenna mal podia esperar para contar a Edward, para ver o rosto dele se iluminar de alegria.

Quando chegou à Mansão Russell, a governanta informou que Edward estava no escritório e tinha pedido para não ser incomodado.

Mas Jenna estava animada demais para esperar. Ela subiu na ponta dos pés e se aproximou da porta do escritório, com a mão erguida para bater—

Um gemido baixo e contido veio de dentro.

A mão dela parou no ar. O corpo inteiro ficou rígido.

Ela conhecia aquele som. Era exatamente igual aos sussurros sem fôlego que ele tinha feito no ouvido dela naquela noite do mês passado. Profundos, ásperos, crus de desejo.

Um pensamento perturbador atravessou a mente dela.

Por que ele estaria fazendo “aquilo” se ela estava ali, na casa?

Com o coração disparado, Jenna prendeu a respiração e espiou pela fresta da porta.

O escritório estava mal iluminado. Edward estava sentado na cadeira, de costas para a porta, com os ombros subindo e descendo num ritmo constante. Uma mão agarrava o apoio do braço. A outra segurava alguma coisa—

Uma fotografia.

Jenna não conseguiu distinguir a imagem, mas conseguia ouvir tudo — a respiração cada vez mais irregular e, então, arrancado do fundo da garganta dele, um nome:

—Jenny...

O corpo inteiro de Jenna gelou.

Naquela noite do mês passado, mesmo apagado de bêbado, Edward tinha murmurado aquele nome sem parar. “Jenny... Jenny...”

O nome dela era Jenna — só uma letra de diferença. Na época, ela tinha se convencido de que era um apelido carinhoso, um diminutivo íntimo entre eles.

Ela tinha ficado tão feliz que não conseguiu dormir, pensando que, depois de cinco anos de espera, Edward finalmente sentia alguma coisa por ela. Que ela significava algo para ele.

Agora, a verdade desabou sobre ela.

Jenna recuou em silêncio até o quarto deles, fechou a porta e encostou nela, ofegante.

‘Calma. Você precisa se acalmar.’

Talvez a foto fosse dela. Talvez Edward estivesse olhando para uma foto dela.

Mas... por quê?

Por cinco anos, Edward a tratou com uma indiferença educada, como se ela fosse uma colega de apartamento que ele mal conhecia. Eles moravam na mesma casa, mas quase não conversavam. Toda vez que ela tentava se aproximar, ele se afastava com a mesma frieza cortês.

Jenna voltou a pensar no casamento, cinco anos antes.

A mãe de Edward, Samantha, tinha insistido naquele casamento. A mãe de Jenna tinha sido a melhor amiga de Samantha — as duas tinham prometido que seus filhos se casariam.

Quando a família Mellon faliu, a mãe de Jenna, à beira da morte, confiou a filha a Samantha.

Para honrar a promessa, Samantha tinha arranjado o casamento apesar das objeções de todos.

Desde então, os cochichos perseguiam Jenna: “Ela prendeu ele. Usou a amizade da mãe morta para amarrar Edward a um casamento que ele nunca quis.”

No dia do casamento, Edward tinha ficado ao lado dela sem a menor sombra de emoção, como se estivesse num velório em vez do próprio casamento.

Quanto mais Jenna pensava, mais errado tudo parecia. Um suor frio se espalhou pelas costas dela.

Passos ecoaram no corredor.

Jenna se jogou na cama, virou de costas para a porta e apertou os olhos.

A porta se abriu. Edward entrou.

Ele usava um roupão de seda grafite, o corpo alto se movendo com uma elegância treinada. Tirando um leve rubor ainda tingindo as maçãs do rosto, ele parecia exatamente como sempre — controlado, composto, indecifrável.

—O que foi? —a voz de Edward veio de cima dela. —Você está com uma cara péssima.

Jenna abriu os olhos e forçou um sorriso.

—Estou bem. Só cansada.

—Você não tinha consulta hoje? —Edward se sentou na beira da cama. —O que o médico disse?

O coração de Jenna martelou contra as costelas.

Ela tinha planejado surpreendê-lo com a notícia da gravidez. Agora não sabia nem se devia contar.

Se Edward estivesse apaixonado por outra mulher, o que esse bebê significaria para ele? Um peso? Uma armadilha?

“Só uma queda de açúcar”, disse Jenna. “Nada grave.”

Edward estendeu a mão e tocou a testa dela. “Você está suando.”

Jenna empurrou a mão dele. “Eu preciso descansar.”

Edward ficou em silêncio por um instante e então tirou do bolso uma caixinha pequena azul Tiffany.

Jenna abriu. Dentro havia uma pulseira — um modelo mais antigo, provavelmente de alguns anos atrás.

“Você disse que gostava dessa, não disse?”, comentou Edward, num tom casual.

Jenna encarou a pulseira, e uma tristeza profunda tomou conta dela.

Ela tinha comentado que queria o colar azul-claro, não uma pulseira. E isso tinha sido três meses atrás.

Ele não tinha prestado atenção nenhuma.

“Obrigada”, sussurrou Jenna.

Edward se levantou e pegou uma jaqueta no armário. “Tenho umas coisas de trabalho pra resolver nos próximos dois dias. Não vou voltar pra casa à noite. Se minha mãe perguntar, cobre pra mim.”

Os dedos de Jenna se apertaram em volta da caixinha até ficarem brancos.

Então era por isso que ele tinha se dado ao trabalho do presente — ele queria que ela mentisse por ele.

“Eu entendo.” Jenna fechou os olhos. “Pode ir.”

“Descansa.” Edward saiu sem dizer mais nada.

O quarto ficou em silêncio.

Jenna abriu os olhos e ficou olhando para o teto, a mente repetindo o que ela tinha visto no escritório.

Quem era a mulher daquela fotografia?

Quem era “Jenny”?

Ela precisava saber.

Jenna saiu da cama e foi de mansinho até o escritório.

Ela revirou a escrivaninha por horas — ou pelo menos foi o que pareceu — até finalmente encontrar a foto na gaveta de baixo.

Quando viu o que havia nela, o mundo inteiro dela desmoronou.

Era uma fotografia tirada ao ar livre, num estábulo.

A mulher da imagem usava roupa profissional de equitação, alta e atlética, com os cabelos dourados brilhando ao sol. Ela ria, e duas covinhas perfeitas marcavam suas bochechas.

Ao lado dela estava Edward.

Um Edward mais jovem, com o braço em volta dos ombros dela, o rosto iluminado por uma alegria que Jenna nunca tinha visto — felicidade genuína, sem defesas.

Jenna sempre achou que Edward fosse naturalmente fechado e frio. Agora ela entendia: ele não era incapaz de sentir alegria. Ele só não sentia isso com ela.

A fotografia era antiga. O rosto de Edward ainda guardava traços da suavidade da juventude.

Jenna virou a foto. No verso, em uma caligrafia elegante:

[Para o meu querido Edward. —Jennifer]

Jennifer.

Jenny.

Algo no peito de Jenna se partiu, uma dor tão aguda que ela mal conseguia respirar.

Então era por ela que Edward tinha chamado naquela noite. Não por Jenna. Por Jennifer.

Jenna se lembrou da primeira vez que tinha conhecido Edward.

Cinco anos antes, ela trabalhava como modelo. A Russell Corporation tinha patrocinado um desfile, e ela tinha sido a primeira a entrar na passarela.

Quando chegou ao centro e viu Edward na área VIP, ficou tão nervosa que torceu o tornozelo.

Uma gargalhada se espalhou pela plateia.

No momento em que Jenna quis sumir, Edward se levantou, entrou na passarela e a ajudou a se erguer como um perfeito cavalheiro.

“Você está bem?”, ele perguntou.

Foi a primeira vez que Jenna o viu de perto. Alto, bonito, gentil.

Ela pensou: Como eu seria sortuda se me casasse com alguém assim?

Quando a mãe dela contou que Samantha tinha arranjado o casamento com Edward, Jenna ficou tão empolgada que passou a noite inteira sem dormir.

Ela achou que era destino. Que, se ela fosse uma boa esposa, Edward acabaria se apaixonando por ela.

Agora ela via como tinha sido tola.

Jenna apertou a fotografia, as unhas cravando na palma da mão.

Quem era Jennifer?

Uma ex-namorada? Um primeiro amor? Ou...

Incontáveis perguntas rodopiavam na cabeça dela.

De repente, uma onda de náusea a atingiu.

Jenna se apoiou na escrivaninha para se firmar, mas sua visão escureceu.

Ela cambaleou em direção ao banheiro, mas as pernas falharam. Ela perdeu o equilíbrio e caiu com força no chão.

A fotografia escorregou de seus dedos e flutuou até o piso.

Na imagem, Edward e Jennifer sorriam com uma felicidade tão pura.

E Jenna ficou estendida no chão frio, a consciência se esvaindo.

Antes que a escuridão a engolisse por completo, a mão dela foi, inconscientemente, até a barriga.

Dentro dela, uma vida de oito semanas crescia.

Uma criança que talvez nunca fosse amada pelo próprio pai.

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