Capítulo 5 Quando você planeja ter filhos

Jenna de repente sentiu como se estivesse encarando uma desconhecida.

Só hoje ela tinha descoberto esse lado de Edward — arrogante, mesquinho, cruel.

Sem dizer mais nada, ela empurrou os dois em direção à porta.

— Saiam daqui!

Edward cambaleou para trás, descendo os degraus da entrada e mal conseguindo se equilibrar. Ele agarrou o braço de Jennifer para firmá-la quando ela vacilou em cima do salto.

— Aquela maluca! — Edward cuspiu, entre os dentes cerrados.

Jennifer se agarrou ao braço dele, com a voz carregada de uma preocupação falsa.

— Edward, por favor, não briga por minha causa. Se isso está dando tanta dor de cabeça... a gente pode cancelar a festa de boas-vindas.

— Esquece ela. — A voz de Edward saiu gelada.

Ele segurou o pulso de Jennifer e a puxou em direção ao carro.

— Vamos.


Às seis da noite, a Mansão Russell estava toda iluminada.

O porteiro se adiantou e abriu a porta do carro com a elegância de quem já fez aquilo mil vezes.

— Senhora Russell.

Jenna fez um leve aceno com a cabeça e saiu devagar.

Ela não tinha planejado vir. Mas aquela era a oportunidade perfeita para contar a Samantha sobre o divórcio.

Atrás dela, outra porta de carro se abriu.

Um sedã preto e elegante parou ao lado. Edward saiu do banco do motorista.

Jenna lançou para ele um olhar frio e rápido e passou direto, sem dizer uma palavra.

Eles entraram na mansão um atrás do outro, sem trocar uma palavra.


Na sala de jantar, Samantha já estava sentada à mesa.

Quando viu os dois entrarem, ela sorriu calorosamente e fez sinal para que se aproximassem.

— Venham, venham! A sopa acabou de ser servida. Comam enquanto ainda está quente.

— Mãe. — A voz de Jenna saiu baixa quando ela se sentou ao lado de Samantha.

Edward se sentou de frente para ela, pegando os talheres com uma expressão calma — como se o confronto brutal daquela tarde nunca tivesse acontecido.

— Você está ainda mais magra. — Samantha serviu sopa na tigela de Jenna, com os olhos cheios de preocupação. — E você está com uma aparência péssima. O Edward voltou a te tratar mal?

— Não, mãe. — Jenna forçou um sorriso. — É só que eu não tenho tido muito apetite ultimamente.

— Então é mais um motivo pra comer. — Samantha colocou um pedaço de peixe no vapor no prato de Jenna. — Esse peixe está fresquinho. Eu pedi pra Mary preparar especialmente. É leve, não pesa no estômago. Experimenta.

Jenna baixou a cabeça e comeu, no automático. Não sentia gosto de nada.

De repente, Edward estendeu a mão e colocou um pouco de legumes na tigela dela, num tom surpreendentemente gentil:

— Come mais verdura.

Jenna ficou paralisada.

Na frente de Samantha, ele tinha deixado de lado a indiferença fria, interpretando o papel do marido cuidadoso e atencioso.

O sorriso de Samantha se abriu ainda mais.

— Assim que eu gosto de ver. Casal tem que cuidar um do outro. Edward, você precisa cuidar melhor da Jenna. Não fica o tempo todo enfiado no trabalho.

— Eu sei, mãe. — Edward assentiu, servindo mais sopa na tigela de Jenna.

Os movimentos dele eram suaves, naturais — como se ele já tivesse feito aquilo mil vezes.

Antes, Jenna teria se emocionado.

Mas agora, enxergando a farsa, ela sabia que não passava de teatro.

Uma encenação para a Samantha.

Que coisa mais patética.

Jenna manteve a cabeça baixa, mastigando e engolindo mecanicamente. Por dentro, ela sentia o coração como se estivesse sendo rasgado por uma lâmina cega — doía, mas ao mesmo tempo parecia anestesiado.

— Na verdade, tem uma coisa que eu queria conversar com vocês dois. — Samantha pousou os hashis, e a expressão dela ficou séria.

— Vocês já estão casados há cinco anos. Não acham que já está na hora de começarem a pensar em ter um bebê? Todas as minhas amigas já têm netos que já andam e falam. Eu não estou ficando mais nova... eu queria tanto segurar um netinho meu.

A mão de Jenna apertou os hashis com força. Instintivamente, a outra mão foi até o abdômen — onde uma vidinha já estava crescendo. Um filho dela e do Edward.

Ela já tinha se enchido de esperança com a ideia daquele bebê. Mas agora...

Jenna abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Se ela contasse para Samantha naquele momento, a mãe ficaria radiante.

Mas e depois?

Uma criança nascida dentro de um casamento vazio, sem amor, teria alguma chance de ser feliz?

E Edward nem queria esse bebê.

— Mãe, não precisa ter pressa. — Edward falou primeiro. — Eu e a Jenna ainda somos jovens.

— Jovens? — Samantha balançou a cabeça, desaprovando. — Vocês estão casados há cinco anos. Quanto mais cedo tiverem filhos, melhor — pra vocês e pro bebê.

Ela voltou a servir comida, num tom firme. “Nem pense que dá pra fugir disso pra sempre. Quando vocês estão planejando ter um filho? Eu também não vou ficar mais nova, viu.”

“Mãe...” Edward suspirou, exasperado.

“Se não tiverem um bebê agora, quando vão ter? Olha os filhos dos vizinhos...”

Mãe e filho ficaram rebatendo um ao outro, discutindo o assunto.


Depois do jantar, Samantha disse que estava cansada e deixou os empregados ajudarem ela a voltar para o quarto.

A Jenna se lembrou de que a Samantha gostava de tomar chá depois das refeições, então levou uma xícara para o quarto dela.

Mas, quando empurrou a porta e entrou, encontrou a Samantha tossindo de um jeito assustador, sem parar.

“Mãe, o que foi?”

“Eu estou bem, querida.” Samantha fez um gesto fraco com a mão. “Mas você... já está tão tarde. Por que você não está descansando? Olha como você está magrinha. Como é que vai aguentar uma gravidez se não se cuidar?”

“Mãe, você está tossindo desse jeito e ainda está preocupada com isso?” A voz da Jenna veio carregada de impotência. “Deixa eu chamar um médico pra você.”

Ela puxou o celular, prestes a mandar mensagem para a Becky.

“Não!” Samantha segurou a mão da Jenna, com uma força surpreendente.

Ao ver a expressão confusa da Jenna, ela suspirou e se virou para a mesinha de cabeceira. Abriu a gaveta, tirou um laudo médico e entregou a ela.

“Acho que não adianta mais esconder.”

Jenna passou os olhos pelo papel. O rosto dela perdeu a cor.

Câncer de pulmão... estágio IV.

“Mãe... por que você não contou pra gente antes?”

“E teria adiantado o quê?” Samantha sorriu de leve. “Quando descobriram, já estava em fase terminal. Não tem cura. Eu não queria preocupar vocês dois, e não queria passar o tempo que me resta presa num hospital. O que eu quero... é passar meus dias restantes vendo vocês dois felizes. E, se eu pudesse segurar um neto antes de ir... aí tudo estaria perfeito.”

Jenna se levantou num salto. “Eu vou falar com o Edward. A gente vai procurar os melhores médicos. Tem que ter algum jeito—”

Samantha a puxou de volta para sentar. “Não tem cura, Jenna. Eu não quero desperdiçar meus últimos seis meses num hospital. Por favor... não conta pro Edward. Não deixa ele me obrigar a fazer tratamento. Só... deixa eu ter isso. Eu estou te implorando.”

Jenna ficou encarando a mãe, com lágrimas escorrendo em silêncio pelo rosto.

Samantha tinha tratado Jenna como uma filha — amou, cuidou, protegeu.

E ela tinha planejado pedir o divórcio naquela noite.

Mas agora... como ela poderia dizer isso?


Quando Jenna ajudou Samantha a sair do quarto, os olhos dela estavam inchados e vermelhos.

Edward olhou para ela e franziu a testa.

“Chorando desse jeito? Foi correndo pra Mamãe, do jeito que eu imaginei.”

“Já está tarde. Por que vocês dois não dormem aqui hoje?” Samantha olhou para o relógio na parede. Faltava pouco para as dez.

“Claro.” O maxilar do Edward se contraiu. “Usando a Mamãe pra me pressionar de novo.”

Ele se levantou, a voz fria: “Mãe, eu tenho amigos me esperando. Eu não vou ficar hoje.”

“Que amigos são tão importantes assim?” Samantha interrompeu.

“Que amigos?” Jenna pensou, amarga. “A Jennifer, óbvio.”

O cenho de Edward se aprofundou. “Mas—”

“Eu estou ficando velha, Edward. Vocês quase nunca vêm. Cada vez que eu vejo vocês pode ser a última.” A voz de Samantha suavizou, quase suplicante. “Fica comigo hoje. Por favor?”

Edward ficou em silêncio.

Ele não conseguia negar à mãe. Não quando ela falava daquele jeito.


Quando Jenna entrou no quarto, Edward tinha acabado de sair do banho. Uma toalha estava baixa, enrolada no quadril, e ele se apoiava na cama, mexendo no celular com um sorriso discreto no rosto.

“Mandando mensagem pra ela, óbvio.”

Jenna o ignorou, pegou um cobertor e foi na direção do sofá.

Edward levantou os olhos, e a expressão dele esfriou. “O que você está fazendo?”

“Você fica na cama. Eu vou dormir no sofá.” O tom dela foi plano, direto.

“No sofá?”

Edward soltou uma risada fria.

“Ótimo. Que ela continue assim. Chega de fantasias patéticas.”

No escuro, Jenna se encolheu no sofá, bem apertada, como se quisesse desaparecer.

Ela não sabia se era o corpo que estava gelado ou o coração. De qualquer forma, não conseguia dormir. A noite se arrastou, inquieta e vazia.


Na manhã seguinte, Jenna acordou com vozes abafadas do lado de fora do quarto.

Ela piscou devagar, desorientada. A luz do sol entrava pelas cortinas.

“Como eu dormi até tão tarde?”

Jenna se sentou de repente — e congelou.

Ela estava na cama.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo