Capítulo 7 Isso é entre nós como casal
A sala inteira encarou Edward, em choque coletivo.
Se masturbando para uma fotografia?
Gemendo o nome de outra mulher?
Ele tinha esse tipo de... hábito secreto?
O rosto de Edward ficou lívido.
— Jenna! Você está se ouvindo? Que diabos aconteceu com a sua dignidade? Com a sua vergonha?
— Dignidade? Vergonha? — a risada de Jenna saiu amarga, crua. — Edward, você quer me dar sermão sobre vergonha? Você acha que tem esse direito?
Ela ergueu a mão e apontou direto para Jennifer, cujo rosto tinha ficado branco como papel.
— Edward, você esteve casado comigo esse tempo todo, mas o seu coração... os seus pensamentos... sempre estiveram com outra pessoa. Você se esconde atrás da desculpa de “velhos amigos”, mas todo mundo aqui sabe o que está acontecendo de verdade. E você, Jennifer... — o olhar de Jenna cortou a outra mulher como uma lâmina. — Você sabia que ele era casado. Você sabia. Mas continuou fazendo o papel da amiguinha doce e inocente enquanto destruía o nosso casamento.
A voz dela baixou, fria e definitiva.
— Uma destruidora de lares e um marido traidor. Que casal perfeito. Espero que vocês dois tenham uma vida maravilhosa juntos. Eu terminei.
Ela deu meia-volta e foi a passos firmes em direção à porta.
— Jenna! Nem pense em ir embora de mim! — a voz de Edward estalou pela sala como um chicote.
Mas ela nem diminuiu o passo. Se é que foi possível, andou ainda mais rápido, sumindo pela porta sem olhar para trás.
O silêncio que veio depois foi sufocante.
Todos os olhares na sala se cravaram em Edward. Ali, com as roupas encharcadas de vinho, humilhado publicamente diante dos amigos mais próximos, ele nunca pareceu tão pequeno.
Pela primeira vez na vida, Edward Russell se sentiu genuinamente sem poder.
Ele puxou o ar com força e se virou para Jennifer, que parecia prestes a desabar.
— Jenny... me desculpa. Sua festa de boas-vindas virou... isso. — a voz dele suavizou. — Vem. Eu te levo pra casa.
Jennifer assentiu, fraca, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Era óbvio que ela não tinha a menor intenção de ficar mais um segundo.
Edward pousou uma mão protetora no ombro dela e lançou um olhar de aviso para a plateia atônita.
— O que aconteceu aqui hoje fica aqui. Entendido?
— S-sim! Claro! A gente não vai falar nada! — veio o coro de garantias apressadas.
Edward conduziu Jennifer para fora, o braço ainda envolto nela, como se a protegesse do mundo.
Jenna saiu do hotel quase explodindo, indo direto para o ar frio da noite, andando rápido e sem rumo. Ela não fazia ideia de para onde estava indo. Só precisava se mover.
— Jenna! Para aí!
A voz cortante rasgou a noite.
Jenna congelou. Jennifer.
Ela não se virou. A voz saiu sem emoção, cansada.
— Senhorita Garcia. E agora? Não era pra você estar lá dentro consolando seu “querido amigo”? Por que perder tempo correndo atrás de alguém tão irrelevante quanto eu?
— Irrelevante? — o salto de Jennifer bateu rápido no asfalto enquanto ela deu a volta para ficar de frente para Jenna. A expressão dela tinha se transformado completamente; nada de lágrimas, nada de fragilidade. Só uma fúria fria, venenosa.
— Você me humilhou na frente de todo mundo. Acha que pode simplesmente ir embora depois disso?
Jenna sustentou o olhar dela sem piscar.
— Eu só falei a verdade. Se você não gosta de ouvir, talvez não devesse ter feito.
— Verdade? Verdade? — a risada de Jennifer saiu aguda e feia. — Jenna, você realmente acha que tem o direito de me julgar? Você não é nada. Nunca foi.
Sem aviso, a mão de Jennifer disparou, mirando direto o rosto de Jenna.
Os reflexos de Jenna entraram em ação. Ela se esquivou, e um braço foi instintivamente para a barriga, protegendo o bebê.
Mas o movimento extra desequilibrou o corpo dela. As unhas de Jennifer arranharam o pescoço de Jenna, deixando trilhas ardidas de dor.
Jenna puxou o ar e levou a mão à garganta. Quando afastou, a palma estava manchada de vermelho.
Jennifer ergueu a mão de novo, os olhos incendiados de ódio.
Dessa vez, Jenna pegou o pulso dela no meio do golpe e a empurrou para trás com toda a força.
O salto agulha de Jennifer cedeu. Ela soltou um grito e caiu no chão, toda desengonçada.
— Jenna! Que diabos você tá fazendo?!
A voz de Edward ecoou quando ele veio correndo, depois de ter acabado de encostar o carro ali.
— Edward... — as lágrimas de Jennifer voltaram na mesma hora. Ela ergueu o rosto para ele com os olhos arregalados e feridos, a imagem perfeita da vulnerabilidade indefesa.
A expressão de Edward escureceu. Ele correu até ela e a ajudou a se levantar com cuidado.
— Jenny, você está bem? Está doendo?
— Eu tô bem... — Jennifer balançou a cabeça, fazendo força para parecer corajosa, embora se apoiasse pesado nos braços dele. — Edward, eu não sei o que eu fiz pra ela me odiar tanto. Eu só queria pedir desculpas... explicar... mas ela não quis ouvir. Ela gritou comigo e depois me empurrou...
O maxilar de Edward se contraiu. Ele se virou para Jenna, com os olhos em chamas de raiva.
— Jenna, até quando você vai levar isso adiante? Não bastou humilhar a gente na frente de todo mundo? Agora você está agredindo as pessoas na rua? Quando foi que você ficou tão perversa? Tão cruel?
— Você tem razão. — A voz de Jenna estava estranhamente calma. — Eu sou perversa. Eu sou cruel.
Ela foi abaixando devagar a mão do pescoço, revelando os arranhões vivos, que se destacavam mesmo na luz fraca.
O olhar de Edward oscilou para a garganta dela. Por um segundo, algo como dúvida atravessou seu rosto.
Jennifer percebeu na hora. Apertou o braço dele e soltou um gemido baixinho, lastimoso.
— Edward... tá doendo tanto...
A atenção dele voltou para ela imediatamente.
— Jenna, se a Jenny estiver mesmo machucada, eu juro que eu vou...
— Vai o quê?
Um grito furioso o interrompeu.
Becky veio avançando, tomada de raiva, o rosto vermelho. Ela estava esperando na sala reservada e, quando Jenna não voltou — e não atendeu o celular —, saiu para procurar.
— Você é cego? Olha o pescoço da Jenna! É ela que tá sangrando! E você nem perguntou o que aconteceu — já assumiu que a culpa era dela! — A voz de Becky tremia de ódio. — Ela é sua esposa, Edward! Sua esposa há cinco anos! E é assim que você trata ela?! Que feitiço essa mulher jogou em você pra você perder o mínimo de decência?!
— Isso é entre a minha esposa e eu. Não é da sua conta! — Edward rebateu, elevando a voz para acompanhar a dela.
Becky soltou uma risada seca. — Ah, eu não vou perder meu tempo discutindo com um cachorro. A Jenna tá machucada. Se você quiser continuar falando, pode fazer isso na delegacia.
Ela puxou o celular e tirou várias fotos do pescoço de Jenna, rapidinho.
Depois apontou para cima. — E só pra você saber, tem câmera de segurança por toda essa rua. Agressão em público? Jennifer, você pode ir com a gente pra delegacia por livre e espontânea vontade, ou eu ligo pra polícia agora e mando te levarem. Você escolhe.
O rosto de Jennifer ficou branco. Ela se encolheu atrás de Edward, agarrada ao braço dele.
— Edward, não... eu não quis... eu só fiquei com tanto medo... a Jenna estava tão brava, eu achei que ela ia...
Edward, por instinto, se colocou na frente para protegê-la.
Ele não podia deixar ela ir pra polícia. Se isso vazasse, seria um desastre — pra ele, pra família Russell, pra todo mundo.
Ele se virou para Jenna, com o tom um pouco mais brando.
— Jenna. Vem pra casa. A gente conversa lá.
— A gente não tem casa. — A voz de Jenna era baixa, mas cortou a noite como vidro. — Nunca teve.
Ela afastou com delicadeza o braço protetor de Becky e deu um passo à frente.
— Edward, escuta bem. Acabou. Já tinha acabado faz tempo. Aquele lugar onde você mora? Nunca foi a minha casa. E nunca vai ser.
Ela estendeu a mão para Becky e apertou a dela, num gesto tranquilizador.
— Vamos, Becky. Eu não quero olhar pra eles mais.
— Jenna, você vai mesmo deixar ela sair impune dessa? — A voz de Becky veio tensa, de frustração.
Jenna encarou Becky e lhe lançou um olhar cheio de significado.
A expressão de Becky mudou. Ah. É verdade. O bebê.
Elas não podiam se dar ao luxo de prolongar aquilo.
Becky lançou a Edward um último olhar fulminante. — Tá. A gente vai embora. Cada segundo que eu passo perto de vocês me dá nojo.
Ela passou um braço firme em torno de Jenna, sustentando o corpo trêmulo dela.
Então se virou de novo para Jennifer, com a voz pingando desprezo.
— Senhorita Garcia, é melhor você se cuidar. Eu vou deixar isso passar hoje porque a Jenna não quer mais lidar com você. Mas se tiver uma próxima vez? Eu vou fazer você se arrepender.
Com isso, ela conduziu Jenna com cuidado para longe, apoiando-a, até que as duas desapareceram na noite.
Edward ficou parado, sem se mexer, encarando as duas sumirem.
O vento frio mordeu a pele dele, mas, por algum motivo, por dentro ele se sentiu ainda mais gelado.
