Capítulo 2
POV da Christina
A ida até o meu apartamento quase nunca usado foi um borrão. Aquele em que eu não punha os pés fazia meses, desde que a mãe do Niall me convidou pra morar na sede da alcateia deles e planejar o casamento. Que piada que isso acabou sendo.
Quando cheguei à minha porta, comecei a errar no teclado de segurança.
A dor percorria cada centímetro do meu corpo, e eu cerrei os dentes, me recusando a desmaiar pateticamente na soleira.
Código errado. De novo. E de novo.
A frustração transbordou.
Dei um chute na porta com o calcanhar, um gesto patético que não serviu pra nada além de mandar uma fisgada de dor subindo pela minha perna.
Claro. O universo tinha decidido que hoje seria o dia do meu papel principal numa comédia cósmica.
Eu deslizei pela parede até o chão enquanto soluços rasgavam minha garganta.
Por que todo mundo sempre preferia a Beatrice?! Eu já não tinha sofrido o suficiente? Segundo lugar na minha própria família, só uma substituta no coração do meu próprio par?
Quando eu já estava quase engasgando com o meu choro, uma voz grave soou atrás de mim.
— Essa é a minha porta que você tá atacando.
Ótimo. Mais um maldito problema.
— O quê? — rosnei, virando pra encarar.
O homem parado ali era... devastador. Não bonito do jeito arrumadinho do Niall, mas de uma masculinidade rude. Alto e muito forte, com maçãs do rosto marcadas e um maxilar firme. O cabelo escuro estava levemente bagunçado, e aqueles olhos cinza‑azulados penetrantes pareciam enxergar através de mim.
Ele tinha o jeito de um Alfa que não só vencia batalhas, mas apagava os inimigos da história por completo.
— Se você pretende arrombar, vou precisar dos dados do seu seguro primeiro — ele disse num tom neutro.
Minha garganta secou.
— E‑eu sinto muito. Eu achei que esse fosse o meu apartamento.
Ele inclinou a cabeça, o olhar indecifrável.
— Dia difícil?
Meu rosto queimou de vergonha. Ótimo. Rejeitada, machucada e agora parecendo uma completa idiota na frente do homem mais lindo que eu já tinha visto.
— Pode dizer isso — murmurei, me erguendo e tentando manter alguma dignidade enquanto eu devia estar parecendo um guaxinim que caiu numa caçamba em chamas.
— Calma aí, furacão. — Ele ergueu uma sobrancelha, apontando pra porta do outro lado do corredor. — Aquela ali é a sua, eu acho.
Furacão? Eu devia ficar irritada, mas do jeito que ele falou, meu estômago deu um arrepio estranho.
— Eu sei onde eu moro.
— Engana bem.
— Tá bom — resmunguei, tentando alisar o desastre que era meu vestido. — Valeu pela aula de geografia.
— Precisa de ajuda com o código da porta?
— O que eu preciso é que esse dia reinicie igual iPhone travado, mas obrigada pela oferta.
Caminhei até a porta fingindo calma e elegância. Como se a mulher surtada que tinha acabado de desmoronar não fosse eu.
Enquanto eu digitava o código, sentia aqueles olhos intensos acompanhando cada um dos meus movimentos.
Vamos, dedos, anda logo.
Bip — finalmente.
Olhei por cima do ombro. Ele ainda estava me observando, braços cruzados.
— Desculpa pela sua porta — murmurei.
— Eu sobrevivo.
Fechei a porta e encostei as costas nela.
Que humilhação. Meu vizinho absurdamente bonito provavelmente achava que eu era maluca e, pra ser sincera? Ele não estava errado.
Pera — absurdamente bonito? Merda. Eu estava mesmo pirando.
Desabei na cama, exausta.
Akira mal respirava dentro de mim, ferida pela rejeição, seus sentidos antes tão afiados agora embotados.
— A gente vai se curar — sussurrei pra ela.
Nenhuma resposta. Ótimo. Até a minha própria loba estava fazendo tratamento de silêncio comigo.
Não sei quando comecei a me perder por causa dele. Talvez tenha sido na primeira vez em que ele olhou pra mim como se eu não fosse suficiente.
Descolorei o cabelo até o couro cabeludo queimar porque ele disse que eu era sem graça com “aquele castanho rato”. Enfiei os pés em saltos que abriram bolhas na minha pele, só pra ele zombar: “Por que você tá andando igual uma girafa recém-nascida? A Beatrice conseguia correr de salto.”
Eu me arrastava pra cozinha antes do amanhecer, cozinhava refeições que nunca comia, passava camisas que não eram minhas. Quando a alcateia me humilhava, ele não me defendia. Só lembrava que eu devia ser grata por “me virar” com o que tinha.
Agora eu entendo — ele nunca me enxergou de verdade como fêmea dele. Como a única. Eu era o projeto dele. A empregada. Uma tampa provisória até ele achar o que realmente queria.
Por quatro longos anos, eu fiquei.
O peso dessa verdade me esmagou. Meu peito doía a cada respiração. Que patético, ter derramado tudo de mim por um homem que nunca sequer tentou me conhecer.
Meu coração exausto precisava descansar. Encolhi-me no travesseiro encharcado e deixei a escuridão me levar.
Dois dias se arrastaram até que eu acordasse de novo.
Chamei Akira com cuidado:
— Você tá bem, Akira? Tá me ouvindo?
Akira se remexeu, fraca, na minha mente:
— Chrissy, eu tô estranha. Não consigo mais sentir cheiro de nada.
Congelei, tentando captar qualquer aroma. Nada.
— Talvez seja só temporário, por causa de tanta dor — falei pra Akira, sem saber se estava consolando ela ou a mim mesma. — Pode ser que volte depois.
O rabo dela caiu, sem vida, dentro da minha mente. Não conseguir sentir cheiros significava que ela não podia identificar possíveis pares — uma perda devastadora pra qualquer loba. Mas não tinha nada que a gente pudesse fazer naquele momento.
Deixei que ela descansasse e fui conferir minhas mensagens.
Estranhamente, meus pais não tinham me bombardeado com links mentais nem ligações desde o surto inicial deles. Esse noivado tinha sido o bilhete premiado deles pra uma aliança com a Alcateia Frostpelt. Uma aliança de casamento com uma das três maiores alcateias do Norte não era algo que eles iam largar fácil. Nenhuma de nós duas, filhas, podia herdar a liderança da Alcateia Crescent, mas casar com um Alfa poderoso? Isso garantia a prosperidade futura da nossa alcateia.
Suspeito.
Uma parte de mim se perguntava se o Niall tinha dito alguma coisa pra manter eles afastados. Talvez até estivesse se sentindo culpado? Pouco provável. Mais provável era que estivesse planejando o próximo passo.
A campainha explodiu a minha sessão de autopiedade. E não parou de tocar.
Por cinco minutos.
Eu gemi. Interação social horrível.
Arrastando minha carcaça até a porta, abri.
Ysolde Carlisle, que era minha melhor amiga e a única pessoa com direito legal de gritar comigo, estava ali com os olhos semicerrados e duas sacolas de comida. Aí o olhar dela pousou no meu rosto.
— Que diabos aconteceu com você? Sério?
— Tô fazendo uma reforma na cara — simetria já tava ficando sem graça — — falei com um encolher de ombros preguiçoso, embora cada músculo do meu rosto doesse.
Ela não engoliu essa porcaria nem por um segundo.
Esticou a mão, segurando meu queixo com cuidado pra examinar a pele rachada na minha bochecha.
— Quem encostou a mão em você?
— Entra logo — resmunguei, apressando ela — não precisava o quarteirão inteiro comentando da minha cara amassada.
A porta bateu atrás da gente, e eu desabei nos braços dela, toda a minha resistência indo embora.
Eventualmente, uma palavra escapou, baixa e quebrada:
— Niall.
Ysolde ficou dura feito pedra.
— Nem fodendo — sibilou. — Niall? O Niall que é seu par? O garotinho-propaganda da perfeição diplomática?
Eu assenti, com os olhos ardendo.
— Me conta tudo. Não deixa escapar um detalhe.
Então eu contei. A foto da Beatrice. O tapa. A rejeição formal.
Quando terminei, Ysolde parecia pronta pra cometer um homicídio.
— Filho da puta — ela rosnou. — E por causa de quê? Da sua irmã psicopata que nem tá aqui? Eu juro pela Deusa, Chrissy, a Beatrice podia estar em outro continente e ainda assim ia dar um jeito de destruir a sua vida.
— Talvez seja melhor assim. Pelo menos eu descobri que tipo de par ele é de verdade antes da gente casar.
Meu estômago roncou alto.
Ysolde arqueou a sobrancelha e ergueu as sacolas de comida.
— Ainda bem que eu vim preparada.
Entre uma garfada e outra, eu franzi a testa.
— Você não acha estranho meus pais não terem ligado? Eles queriam tanto esse casamento, e agora... nada.
Ysolde deu de ombros.
— Talvez estejam tramando alguma coisa. Seu pai não é do tipo que desiste fácil do plano dele.
Depois do jantar, Ysolde praticamente me empurrou pro banheiro pra eu tomar banho enquanto ela arrumava tudo.
Fiquei debaixo da água quente, tentando lavar embora quatro anos de ilusão.
Pela porta do banheiro, ouvi ela no telefone. Peguei só umas partes.
“Complete escroto.”
“Que babaca.”
“Você não vai acreditar no que ele fez com ela—”
Ela provavelmente estava falando com o Zane Carlisle, o irmão dela. Diferente do Niall, o Zane tratava as mulheres com respeito.
O jeito como a Ysolde escolheu o meu lado tão rápido, tão ferozmente, deixou minha garganta apertada. Ela acreditou em mim sem hesitar. Quando todo mundo ia ficar do lado do Niall, ela declarou guerra por minha causa.
Aquilo não era pouca coisa. Enfrentar a matilha do Niall podia criar problemas sérios para a matilha pequena da família dela.
Me enrolei na toalha e suspirei.
Por que meus pais não conseguiam me amar assim?
De repente, uma onda de dor lancinante me atingiu, cada pontada atravessando meu abdômen. Cada surto queimava na minha nuca, onde a marca do Niall ainda insistia em ficar.
Desabei no chão do banheiro, gritando.
Ysolde arrombou a porta.
“Chrissy! O que aconteceu?”
Eu mal conseguia falar. “Remédio... pra dor... por favor...”
Ysolde me ajudou a levantar e saiu correndo para pegar o remédio.
Agarrei meu estômago, mordendo o lábio para não gritar de novo. Era diferente da dor da rejeição.
Akira uivava de agonia dentro de mim.
“É traição de parceiro,” ela sussurrou, fraca.
“O quê? Mas eu já rejeitei ele—”
“A marca no seu pescoço ainda não sumiu completamente,” Akira explicou através da nossa dor.
Sério? Ele me rejeitou e já saiu correndo pra comer outra? Não conseguiu nem esperar nosso vínculo quebrar de vez antes de enfiar o pau em outra mulher?
Ysolde voltou com analgésicos e água.
Depois que engoli os comprimidos e as piores ondas de dor passaram, ela se sentou ao meu lado, com a fúria pegando fogo nos olhos.
“Aquele desgraçado,” ela rosnou.
Assenti, fraca.
“Sabe de uma coisa?” Ysolde se levantou. “Foda-se ele. Você não tem que sofrer sozinha com essa dor, ele merece provar do próprio veneno.”
Olhei pra ela, confusa.
“Vai se vestir,” ela ordenou. “O pau do Niall não é diamante, e com certeza não vale luto. A gente vai sair pra encontrar alguém que não precise da foto da ex pra ficar duro.”
Pisquei. “Eu fui rejeitada e a sua solução é... balada?”
Ela jogou roupas na minha cara. “A minha solução é te lembrar que você é a Christina porra da Vance, e a rejeição de um Alfa não vai te quebrar.”
Fiquei olhando pra ela. Cada parte de mim queria voltar pra cama e desaparecer. Mas ficar aqui me afundando enquanto o Niall provavelmente estava comemorando com outra?
Foda-se isso!
“Tá bom,” falei, me arrastando pra levantar. “Mas se eu desmaiar na pista, você vai me carregar pra casa.”
Ysolde abriu um sorriso malicioso. “Confia em mim, hoje à noite você não vai precisar de resgate.”
