Capítulo 6

Ponto de vista da Christina

O quê?!

— Você não está falando sério — minha voz finalmente saiu.

— Estou completamente sério — ele respondeu, como se estivesse anunciando um relatório financeiro trimestral. — Acabei de voltar da Europa. Sou Alfa da minha matilha já faz um tempo, mas ainda não tenho uma Luna.

Ele deu um passo à frente, a energia do lobo irradiando uma força que fez Akira ganir dentro de mim.

— Alfas sem parceira são considerados voláteis, agressivos. Mas com uma companheira e filhotes? — um sorriso frio tocou seus lábios. — As pessoas nos veem como centrados. Cautelosos. O conselho prefere que os líderes de matilha sejam... domesticados.

Fiquei em silêncio.

Dois dias atrás, eu tinha jurado que voltaria pra casa com alguém melhor do que o Niall.

Alguém impressionante o suficiente pra calar a boca dos meus pais.

Agora, o universo tinha mandado uma resposta — só que embrulhada numa camada grossa de ironia.

Mas eu sabia.

Casamento não devia ser assim.

Eu já tinha passado por um noivado sem amor uma vez.

Tudo o que ele deixou foi uma casa cheia de silêncio, intimidade oca e uma lenta, brutal erosão do meu amor-próprio.

Abri a boca pra dizer não.

Mas, nesse momento, meu celular tocou.

O toque agudo cortou o silêncio como uma faca.

Olhei pra tela e senti como se uma bomba tivesse explodido dentro do meu peito.

Franklin Vance.

Meu pai.

O Alfa da matilha Crescent, cuja palavra era absoluta dentro da nossa casa.

Olhei para o rosto dele, tão familiar e, ao mesmo tempo, distante, depois baixei os olhos de novo pro celular.

E, por fim, falei as palavras:

— Eu não posso aceitar.

Saí da suíte do hotel, com o toque ainda gritando.

Atendi, não porque eu queria, mas porque eu precisava.

— Onde diabos você está? — a voz do meu pai vinha carregada de raiva. — As suas ações refletem sobre toda esta matilha. Você tem ideia do passivo estratégico que criou?

Ah, aí estava. Nada de “você está bem?”, e sim “até que ponto você prejudicou nossa carteira de investimentos?”.

— Vou chegar aí logo — respondi, fria, desligando antes que ele pudesse começar a calcular meu valor de filha depreciada.

Passei pro motorista o endereço dos meus pais e desabei no banco de trás, como alguém se preparando para uma execução pública.

Tá. Vamos acabar logo com isso.

Meu vizinho, também conhecido como meu caso de uma noite, provavelmente era louco.

Mas eu ainda tinha uma gota de coragem etílica correndo nas veias. A velha Christina, desesperada por aprovação da matilha, ainda não tinha voltado à tona. Eu precisava agir rápido.

A casa da matilha ficava no centro do território Crescent, naquele tipo de condomínio de subúrbio que não recebia bem quem não conseguisse provar a linhagem por três gerações.

Nada de humanos. Nada de renegados. Só uma elegante política de “sangue puro apenas”, bem escrita pra ficar bonita no papel.

Diante do portão de ferro batido, respirei fundo. Eu me sentia como uma boxeadora entrando no ringue. Ombros alinhados, queixo erguido e a armadura emocional trancada no lugar.

No momento em que entrei na sala de estar, senti a emboscada.

Meu pai, o todo-poderoso Alfa Franklin, estava sentado sozinho na poltrona de couro, usando a mesma expressão que provavelmente usava ao comandar lobos subordinados.

Ao lado dele, minha mãe, Caroline, com o cabelo impecável e o colar de pérolas perfeitamente alinhado.

À esquerda deles, Niall, sentado no sofá, todo sério e pensativo, como se estivesse esperando um tribunal da matilha instruí-lo sobre qual deveria ser a próxima pose.

E à direita?

A Beatrice, obviamente.

Só faltavam uma estaca de prata e um carrasco.

Isso era um julgamento.

Eu era a ré.

E a sentença já estava escrita.

Meu pai atacou primeiro.

— Por que demorou tanto? Esta matilha não funciona no seu horário — a voz dele era gelada.

— Trânsito — menti.

Se eu contasse que tinha acabado de fugir de um Alfa enrolado numa toalha, me pedindo em casamento, eles iam me acorrentar em prata.

— Então? Por que eu tô aqui? — minha voz saiu gelada.

Ninguém respondeu.

Não até o Niall se levantar, ainda com um curativo atravessado na testa.

Ver ele ali, com aquela cara de levemente machucado, me deu uma pequena e sombria satisfação.

— Mandei tirarem suas coisas da minha casa de matilha — ele disse devagar, empurrando uma malinha com o pé. — Tá tudo aí.

Eu encarei a mala.

Uma única mala de mão. Quatro anos de noivado, e tudo que eu tinha pra mostrar era uma bagagem pequena o bastante pra caber no bagageiro de avião low cost.

Metáfora perfeita da minha importância na vida dele.

A raiva subiu queimando na garganta, mas eu engoli.

— Valeu — falei, sem expressão. — Que... consideração.

Peguei a ridícula malinha e me virei pra ir embora.

Ah, qual é. Ninguém convoca reunião de família completa só pra devolver uma mala. Eu sabia bem. Aquilo era sobre humilhação. Sobre me colocar no meu devido lugar.

Eles eram a família de verdade.

Eu sempre fui a de fora, tolerada só quando precisavam de alguém pra culpar.

— Espera — disse meu pai.

Eu parei. Não me virei.

Ele cruzou os braços e sorriu.

— Agora que a Beatrice está de volta — ele disse — e já que você e o Niall terminaram, precisamos definir a posição pública da matilha.

Soltei uma risada curta, sem humor. Virei devagar, deixando o sarcasmo escorrer de cada palavra.

— Fiquem à vontade. Planejem o que quiserem. Não é como se vocês já tivessem pedido a minha opinião antes.

— A gente pedia — ele retrucou — lá atrás, quando você ainda era a filha sensata. A que tinha potencial.

Ele se aproximou.

— Você é emocional demais, Christina. Sua insegurança te levou à paranoia — acusando o Niall, tentando controlar ele. Você rejeitou o seu par predestinado, e foi isso que destruiu o relacionamento.

As palavras dele eram lâminas.

Tom leve. Efeito implacável.

— Então isso é culpa sua. E você mesma vai anunciar isso pras outras matilhas. Vai dizer que se apaixonou por outro. Que foi por isso que rejeitou o laço de par.

Eu congelei.

Algo se rasgou dentro do meu peito, como se tivessem arrancado tudo com as próprias mãos.

Olhei pra eles, pra todos eles — meus pais, Niall, Beatrice.

Tão calmos e calculados.

Como um roteiro que tinham ensaiado por semanas.

O que foi que eu fiz pra merecer isso?

Em que momento eu errei tanto?

Olhei pro Niall, buscando alguma coisa. Eu nem sabia exatamente o quê. Um resquício de decência? Um instante de coragem? Mas não tinha nada. Só aquele olhar de filho mimado me encarando de volta, sem um pingo de culpa, satisfeito consigo mesmo.

Isso era absolutamente insano.

— Não, eu me recuso a fazer essa declaração! — explodi. — O caso do Niall com a Beatrice me causou uma dor insuportável, enfraqueceu a minha loba. A Akira e eu mal conseguimos sentir cheiro de nada agora. Vocês dois sabem muito bem que isso significa que eu vou ter dificuldade pra criar laço com qualquer novo par.

Eu já estava pronta pra sair batendo porta.

Foi aí que meu pai finalmente se levantou.

Como um juiz se preparando pra ler a sentença.

— Você não precisa se preocupar em encontrar alguém novo — ele disse, com absoluta certeza.

— A gente já fez os arranjos. Enquanto você ainda fizer parte desta matilha, você tem valor, não tem?

Eu encarei o Franklin, tomada de ódio.

Na cabeça dele, meu valor era casar com algum Alfa pra trazer recursos pra matilha.

Que se dane! Eu tinha a minha própria carreira pra provar o meu valor.

— O senhor tá absolutamente certo, Alfa Franklin. Enquanto eu estiver nesta matilha, eu sou valiosa — como sua mercadoria de luxo pra leilão. — Minha voz estava doce como veneno. — Que empresário brilhante o senhor é, vendendo a própria filha. Pena que a sua melhor mercadoria acabou de pedir demissão.

E, dito isso, eu saí pisando duro.

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