Capítulo 3

Ficamos ali, nos encarando. Do mesmo jeito que eu o analisava, ele me analisava.

— Não tenho interesse em relacionamentos — disse ele, com a voz fria e sem emoção.

— Nem eu.

— Não me importa o que você faça, só não vá aprontar nem trazer ninguém para dentro da minha casa, ou você vai acabar numa situação ruim. E, pro seu próprio bem, não tente me seduzir; meu quarto e meu escritório estão fora de questão — disse, naquele mesmo tom.

Não consegui evitar uma risada, e vi o choque no rosto dele.

— Deixe-me deixar uma coisa bem clara para o senhor, Sr. Thorne. Seduzir o senhor ou qualquer outro homem no mundo não está na minha lista. Não tenho interesse em ver o seu quarto nem o seu escritório. Agora, onde fica o meu quarto?

— Gina? — Ao chamar, vi uma mulher de aparência mais velha entrar.

— Leve a Sra. Thorne até o quarto dela — disse ele, afastando-se.

— Por favor, me acompanhe por aqui — disse a mulher, e eu a segui escada acima. Andamos pelo corredor, e ela parou em frente à primeira porta à esquerda.

— Seu quarto, Sra. Thorne — disse ela.

— Obrigada.

Abri a porta e entrei; minha mala já estava lá. Olhei ao redor; o quarto era grande e espaçoso, com um closet enorme e um banheiro e toalete amplos. Sentei na cama e soltei o ar. Eu estava casada pra caralho com Xander Thorne, da família Thorne. Em que diabos meu pai me meteu? Os Thornes eram conhecidos por serem impiedosos, manipuladores, perigosos e malignos.

Fui até a porta e a tranquei, garantindo que ninguém pudesse entrar. Abri minha mala e tirei meu laptop. Liguei e abri o aplicativo. Eu tinha certeza absoluta de que havia câmeras por esta casa.

Comecei a rastrear, e encontrei quinze câmeras. Abri a primeira, a da cozinha. Não havia nada. Verifiquei as outras, checando o lado de fora, e então encontrei a do escritório dele, e não consegui evitar um sorriso de canto. Ele precisava de uma segurança melhor. Ele estava sentado com um homem. Depois de alguns minutos, eu já tinha acesso à câmera. Então fiquei ali, observando e ouvindo.

Xander: Não me importa. Eu preciso de tudo.

Homem: Sim, chefe.

Eu o vi digitando sem parar no laptop.

Homem: O nome dela é Zia Ryan, 24 anos.

Xander: Não quero informação básica; vá mais fundo.

Merda. Peguei o outro laptop e o abri. Assim que ligou, fiz login e comecei a esconder tudo. Havia uma coisa sobre mim que ninguém sabia; nem minha família. Do meu quarto minúsculo, eu criei a Quantum Cybersecurity Solutions. Para os outros, eu era uma nerd, mas eu era um gênio com um laptop. A única pessoa que sabia disso era Angie.

Comecei a esconder minhas informações. Eu só mostrava a eles o que eu queria que vissem. Eu nem precisava olhar para eles; eu conseguia ouvi-los com clareza.

Xander: Por que isso está demorando tanto, Paul?

Paul: Desculpe, chefe.

Ouvi ele dizer. Eu sabia exatamente onde ele estava olhando, então, usando uma sequência de códigos únicos, acessei o laptop dele.

Paul: Ela é uma pessoa normal.

Xander: O quê?

Paul: Formou-se com honras em administração e teve vários empregos. É isso, chefe. No momento, ela faz escrita freelancer. Sem prisões, passadas ou anteriores. Uma conta bancária, dez mil dólares. Não tem redes sociais. Basicamente, ela é uma mulher normal.

Comecei a rir; dei a eles o que estavam procurando. Eu não duvidaria que Xander Thorne nem conferisse minhas informações. Eu precisava ter cautela com esse tipo de gente.

Paul: É isso, chefe.

Xander: E o rastro digital dela?

Paul: Bem, no minuto em que ela entrou, o celular dela ficou sob meu controle. Mostra as pesquisas no Google; ela tinha uma conta em rede social, mas não com o nome dela; ela só usava pra assistir às notícias e a vídeos. As pesquisas dela são todas sobre comida e música.

Xander: Ela já pesquisou nossa família?

Paul: Não, chefe; na verdade, parece que ela nem sabia da família Thorne.

Xander: Isso é bom. Investigue a família dela e essa situação do empréstimo.

Paul: Sim, chefe.

Observei o homem chamado Paul se levantar e sair.

Ele não ia encontrar nada que eu não quisesse que encontrasse. Fechei meus laptops e os empurrei para debaixo da cama. Destranquei a porta e tomei um banho. Desci as escadas de novo. Quando cheguei lá embaixo, ele estava virando o corredor. Parou e olhou para mim.

— Cozinha?

Ele apontou para a outra direção.

— Obrigada — eu disse, indo em direção à cozinha.

Quando entrei, parei. Claro que era enorme. Vi Gina.

— Olá, Sra. Thorne. O que posso fazer pela senhora? — ela perguntou.

— Ah, eu só preciso de um pouco de água.

— Claro — disse ela, indo até a geladeira e me entregando duas garrafas de água.

— Obrigada. — Peguei as garrafas e saí. Subi as escadas justamente quando ele saía do quarto.

— Não vou voltar hoje à noite — ele disse.

— Olha, por mais desconfortável que isso seja, entenda que eu não tenho nenhum interesse em você nem nos assuntos da sua família. Aonde você vai e o que você faz não é da minha conta — eu disse, abrindo a porta e entrando.

De repente, lembrei que eu teria que visitar Angie amanhã e dar início às coisas. Voltei a sair e fui em direção às escadas. Ele já estava quase chegando ao térreo.

— Xander?

Ele parou e se virou.

— Eu tenho permissão pra sair daqui?

Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas. Eu fiquei encarando.

— Jason! — ele gritou.

— Sim, chefe? — o homem respondeu, entrando.

— Você vai ser o motorista e a segurança dela — ele disse, lançando um olhar para mim e depois voltando para Jason.

— Sim, chefe.

Olhei para Jason.

— Não preciso ir a lugar nenhum no momento, mas amanhã.

— Claro, senhora — Jason disse, e então saiu da sala de estar.

Xander ficou ali me encarando.

— Boa noite — eu disse, me virando e voltando para o meu quarto.

Tranquei a porta e me deitei. Mandei mensagem para Angie.

MENSAGENS

ZIA: Amanhã às 9, Meridian.

ANGIE: Casual ou sério?

ZIA: Sério, Angie?

ANGIE: Tá, te vejo lá, boo.

ZIA: Valeu, boo.

Desliguei o celular e fiquei ali, encarando o teto. Havia um milhão de perguntas na minha cabeça: o que aconteceu com o empréstimo? Por que esperaram tanto para me contar? Tinham usado todos os cinquenta milhões? Fiquei olhando para o teto, torcendo para o sono me engolir e eu conseguir escapar desse pesadelo por um tempo.

Quando abri os olhos, o alarme estava tocando. Peguei o celular e desliguei. Virei de lado, abri os olhos e me sentei num pulo. Então lembrei onde eu estava e do que tinha acontecido na noite anterior. Eu precisava colocar essa situação sob controle. Precisava entender exatamente o que estava acontecendo e como sair dessa enrascada.

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