Capítulo 1 O retorno
Ponto de vista de Aria
Terminal 2 do Aeroporto de Madison
— Cheguei, gata — digo, arrastando minha mala atrás de mim, enquanto Nia dá um gritinho, ladeada pela filha Maya, de cinco anos, e pelo filho Cameron, de três.
— Você veio! Eu não acredito que você veio mesmo! — ela guincha, me envolvendo num abraço apertado que me ergue um pouquinho do chão.
Maya pega minha mão com aquele sorrisão de que eu senti tanta falta. — Anda, Tete! O papai tá no carro esperando a gente!
E, assim, num piscar de olhos, eu voltei.
De volta a Madison, Wisconsin.
O último lugar em que eu queria pôr os pés de novo.
O lugar onde minha vida virou de cabeça pra baixo. Onde tudo o que eu achava que sabia sobre mim, sobre amor, sobre confiança, foi destruído.
Faz mais de dez anos que eu fui embora. Desde que virei as costas para a Creighton Elite Business University, o tal “futuro da inovação nos negócios” e a maldição da minha existência.
Quando chegamos ao Tahoe preto parado na guia, com o motor ligado, Matt salta pra fora e abre um sorriso. — Tia! Você veio!
Eu bufo. — Oi, Matt — murmuro, dando nele um abraço rápido de lado.
Matt e Nia continuam enjoativamente fofos juntos. Os dois agora são professores na universidade. E Nia, grávida do bebê número três, ainda teve que planejar uma reunião de ex-alunos da nossa turma. Uma década inteira desde que a gente se formou. Como o tempo voa quando você está ativamente evitando o seu passado.
Eu entro no banco de trás com as crianças enquanto saímos. — Então… quem é que vai? — pergunto, tentando soar casual.
Nia se vira pra mim com um sorriso malandro. — Amiga, todo mundo. Tipo, aquela bruxa de colega de quarto que você teve por três anos, lembra? E a minha antiga colega de quarto viciada em drogas, a Sam? Ela é conselheira agora. Dá pra acreditar nessa porra?
— Porra! Porra! Porra! — Cameron canta do assento infantil.
Maya arregala os olhos. — Mamãe, o Cameron falou porra!
Eu caio na risada. Não deu pra evitar. Aquele menino tinha um timing perfeito.
Matt geme. — Tá vendo? É por isso que a gente não pode xingar perto deles.
— Papai, por favor — Maya diz, toda convencida. — Você chamou a Ms. Rider de vadia ontem e falou pra eu não contar pra mamãe.
Matt coça a nuca. Pegou.
Eu rio ainda mais quando entramos no drive-thru do Portillo’s. As crianças agora discutem se “bruxa” é palavrão.
— Eu só vou pegar uma salada Caesar com frango — digo, rolando o cardápio no meu celular.
Nia revira os olhos. — Aham. Tô vendo você firme na dieta. Esse corpo é o que as mulheres estão pagando hoje em dia, principalmente essa bunda.
Cameron começa a cantar, — Bunda! Bunda! Bunda! — e Maya entra junto.
Eu sorrio de canto. — Relaxa, eu exagero às vezes… e queimo depois.
Quando finalmente estacionamos em frente à casa grande deles, em estilo colonial, eu prendo a respiração. É linda, acolhedora, familiar e segura. O exato oposto de como eu me sinto por dentro.
Porque, não importa quanto tempo tenha passado…
Não importa o quanto eu esteja bem agora…
Eu não consigo impedir as lembranças de se infiltrarem.
O que aconteceu no meu último ano…
Como ele destruiu a minha vida…
Como aquela vadia terminou o serviço.
E agora?
Agora eu voltei.
E nenhum deles faz ideia do que vem por aí.
Matt ergueu minha mala do porta-malas enquanto eu pegava minha bolsa e me abaixava para segurar a mãozinha da Maya. Nia carregava Cameron apoiado no quadril, bufando de esforço enquanto ajeitava a barriga sob o moletom de gestante soltinho.
— Vamos, amiga — ela disse com um sorriso provocador, me cutucando de leve com o cotovelo. — Deixa eu te levar até o seu quarto, já que você nunca ficou nesta casa antes. Porque alguém se recusou a vir me visitar aqui.
Revirei os olhos e bufei.
— Eu te vejo em Chicago o tempo todo, Nia.
— Eu sei — ela disse, fazendo bico pela metade. — Mas às vezes eu também quero que você venha na minha casa, porra.
Entramos, e o cheiro familiar de canela e baunilha quente me atingiu como um abraço macio. As crianças correram para a sala de jantar, e nós as acomodamos à mesa com suas caixinhas e copinhos. Matt se sentou com elas, já desembrulhando o sanduíche de carne como se fosse um ritual sagrado.
— Não encosta nas minhas batatas — ele avisou Cameron, brincando.
Cameron imediatamente esticou a mão para pegar uma.
— Minha agora.
Eu ri, balançando a cabeça, enquanto Nia e eu subíamos.
O quarto de hóspedes era lindo. Simples e acolhedor, com tons de cinza suave e detalhes em rosé gold. Uma cama queen, um espelho de corpo inteiro e, sim, um banheiro privativo.
— Amiga, isso aqui é chique — eu disse, girando no lugar com um assobio baixinho de aprovação.
Nia abriu um sorriso.
— Só o melhor pra você, senhora CEO.
Parei perto da janela, as mãos apertando a alça da bolsa.
— Você acha que eles vão estar lá? — perguntei baixinho.
O sorriso de Nia sumiu. Ela encontrou meu olhar com uma preocupação suave.
— Sim. Os dois confirmaram presença. Eles vêm.
Eu me joguei na cama como se alguém tivesse arrancado o ar dos meus pulmões.
— Porra… eu não sei se eu consigo fazer isso, Nia.
Nia parou na minha frente, braços cruzados.
— Aria. Você não é mais aquela garota de 21 anos, gordinha e tímida pra caralho. Você é uma chefe gostosa, cheia de curvas, com a própria empresa bombando. Que se fodam aqueles valentões.
Soltei o ar devagar, meus dedos mexendo sem perceber no zíper da bolsa.
— Tem uma coisa que eu nunca te contei — eu disse, com a voz baixa.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ai, meu Deus… o quê?
— Na verdade, eu nunca contei pra ninguém.
Nia sentou ao meu lado, agora com toda a atenção presa em mim.
Eu me levantei e fui até o armário, pendurei a capa de roupa, abri o zíper e fingi alisar o tecido só pra ganhar um segundo.
— Eu transei com o Jalen… naquela época.
Um segundo de silêncio.
Aí…
— VADIA, O QUÊ?! — ela gritou tão alto que eu juro que as paredes tremeram.
— Shhh! As crianças! — eu sussurrei-gritei, caindo na risada apesar de mim.
Nia tapou a boca com uma mão.
— Ai, garota. Você vai ter que sentar e contar tudo. Agora.
Eu me virei para ela, o coração disparado.
— Foi complicado. E confuso. E aí tudo desmoronou.
— Então não é à toa que você sumiu no último ano! Caralho. Você largou todo mundo no vácuo sem explicação nenhuma!
— É — eu murmurei. — Porque eu estava destruída. Porque… ele não foi só uma transa. Pelo menos, não pra mim.
O sorriso de Nia se desfez em algo mais suave, mais sério.
— Ai, Ari…
— Ver eles de novo vai reabrir tudo — eu disse.
Ela pegou minha mão e apertou.
— Então vamos começar dizendo mentalmente: que se fodam.
