Capítulo 6 Reuniões e horários
Ponto de vista de Aria
Dias atuais
Enquanto eu pegava no sono, odiei que meus últimos pensamentos fossem nele. Jalen. Aquele maldito momento na cozinha não parava de se repetir na minha cabeça.
Ele estava mesmo me olhando daquele jeito?
Ele se interessava por mim naquela época?
O mesmo homem que ficou sentado em silêncio enquanto a vadia da namorada dele me humilhava?
Meu Deus, a confusão fazia minha pele coçar. Por tanto tempo, eu fiquei furiosa com ele — por ficar ali, por nunca dizer uma palavra, por deixar que ela me chamasse de nomes como se eu nem fosse humana. Mas agora? Agora eu estou questionando tudo, e eu odeio isso.
Quando acordei, me arrastei pela rotina da manhã, ainda perdida nos pensamentos. Depois de vestir um conjunto preto de moletom e prender meus cachos num coque frouxo, fui até a cozinha, de pantufas.
Maya já estava lá, com o cabelo envolto num lenço de seda, sentada no banquinho como uma rainha no próprio castelo.
— Oi, Tete — ela sorriu. — Tá com fome?
Sorri de leve.
— Não, só café pra mim. Daqui a pouco tenho uma reunião.
Ela ergueu o copo de suco.
— Bom, tem um monte de cereal aí, tia Aria. A mamãe sempre diz que essa casa vive de cereal com leite.
Eu ri baixinho enquanto servia o café, grata pela normalidade na voz dela, pela calma do momento. Eu precisava disso, precisava de algo simples. Dei um beijo na bochecha dela e voltei para o quarto de hóspedes, onde meu notebook piscou ao ganhar vida.
Reunião no Teams — Aria e Kim
— Bom dia, Kim — eu disse, ajustando a câmera e tomando um gole do café.
— Bom dia, chefe! — ela respondeu, animada e com aquela cara descansada de sempre.
— Certo, me atualiza. O que tem de novo?
— Bem — disse Kim, folheando as anotações —, dois clientes grandes entraram em contato. Um é da Royal Luxury Cruise Lines, e o outro é da Freight & World Luxury Items.
Quase engasguei com o café.
— Pera. Quem entrou em contato com a gente pela companhia de cruzeiros?
— Uma mulher chamada Teresa Chimes — respondeu Kim, apertando os olhos para ler as notas.
Merda.
Eu conhecia aquele nome. E conhecia a empresa. A Royal Luxury Cruise Lines era da família Todd. A família do Jalen. O que significava que, se esse negócio avançasse… eu teria que encarar ele. De novo. Profissionalmente. Pessoalmente. Tudo o que eu passei anos tentando esquecer? Voltando pra cobrar a conta.
Engoli a onda de pavor.
— Tá. Marca a reunião do cruzeiro pra quarta-feira que vem, às dez da manhã. No meu escritório. Não abro mão disso. Libera sua agenda, e eu quero o Alan, a Reese e o Vlade presentes.
— Entendido.
— E com a Freight & World, a gente vai até eles. Quinta, onze da manhã. Só você, eu e o Vlade.
— Anotado. E se eles não derem comida pra gente, vou cobrar aquela promessa dos lanchinhos.
Forcei uma risada, mas minha mente estava em parafuso. Enquanto fechávamos a logística e revisávamos as campanhas que vinham por aí, meus pensamentos voltaram a ele. Àquela segunda aula que tivemos, a que foi depois de ele descobrir que eu morava com a Talia.
Flashback —
Terça-feira, 10h: Recursos Humanos para a Era Moderna
Eu estava atrasada. De novo.
Mas hoje era diferente. Eu fui sem pressa. Vesti uma das peças novas da Lucy: um vestido-moletom azul-bebê, com uma jaqueta jeans sem mangas por cima e meu Converse Chuck Taylor. Eu até arrumei o cabelo, alisei e deixei em cachos que emolduravam meu rosto, e passei um gloss que fazia meus lábios se destacarem.
Eu me senti… bem. Pela primeira vez em muito tempo.
Quando eu escorreguei para um dos últimos lugares lá no fundo, o professor já estava no meio de uma frase. O cara ao meu lado virou e sorriu.
— Ei. Você é nova aqui? — ele perguntou.
— Não — respondi, abrindo o notebook e fingindo que estava acompanhando as anotações.
— Você cheira muito bem — ele disse, num sussurro, se inclinando perto demais. — E você é muito gata.
Eu pisquei, surpresa.
— Você devia prestar atenção — sussurrei.
— Não dá, com você sentada aqui — ele abriu um sorriso.
Ele continuou falando, todo charmoso, confiante demais, mas bonitinho. Então eu dei meu número. Mais pra ele calar a boca e eu conseguir me concentrar. Ele riu e disse:
— Vou usar direitinho.
Eu dei uma risadinha. Talvez eu precisasse usar vestidos com mais frequência.
Quando voltei a focar na aula, senti um toque no ombro.
Virei — e lá estava ele.
Jalen.
Ele se inclinou, e o perfume dele me atingiu antes mesmo do sussurro.
— Te encontro na biblioteca. Mesa de sempre. Trabalho do projeto.
— Tá — sussurrei de volta, meu coração fazendo aquela coisa irritante de disparar. Mas por que ele tinha que dizer isso agora, no meio da aula?
Talvez ele achasse que eu tinha esquecido. Talvez ele só quisesse falar comigo. Talvez ele só quisesse olhar pra mim de novo.
A aula acabou, e Michael — o cara de antes — me acompanhou até a saída, ainda fazendo piadas e dizendo que eu era melhor mandar mensagem pra ele mais tarde.
Eu ri.
— A gente vê.
Aí fui pra biblioteca. Trabalho-estudo por duas horas, um lanche rápido, e depois trabalho do projeto com o senhor “não faz nada”. Depois disso? Mais um turno de quatro horas na recepção, porque, ao contrário da Talia, eu realmente tinha que trabalhar.
De volta ao presente
Ao encerrar a reunião com Kim, fiquei encarando meu reflexo na tela preta. Tudo estava acontecendo de novo. Ele. O mundo dele. O nome dele.
Jalen Todd.
Deus me ajude.
Porque, desta vez, eu não era mais aquela garota gordinha, tímida, bolsista.
Desta vez… se ele entrasse no meu mundo de novo, eu estaria pronta.
Ponto de vista de Jalen
Dias atuais
O lado direito da cama estava intocado.
Ótimo.
Era assim que eu gostava.
Eu não precisava ver Talia esta manhã — nem a voz dela, nem o rosto, nem a presença. O silêncio era uma bênção ultimamente. A tensão entre nós era um veneno lento, mas eu não ia engolir aquilo de novo. Não hoje.
Saí da cama e fui direto para o banheiro. Minha rotina matinal era automática: banho, escovar os dentes, cuidar do rosto, hidratar, colônia, pronto. Sequei o cabelo com o secador só o suficiente para dar forma e, em seguida, entrei no meu closet.
Tudo por cores. Linhas limpas. Ordem.
À esquerda: ternos sob medida. À direita: roupas casuais.
Peguei meu terno azul‑royal, feito sob medida, impecável pra caralho. Combinei com camisa e gravata no mesmo tom. No chão, mocassins Giuseppe brilhavam sob a iluminação suave do closet. Calcei-os, peguei minha pasta e o laptop e saí com propósito.
Lá embaixo, Leah já estava montando meu café da manhã.
— Bom dia, senhor — disse ela, colocando um sanduíche de café da manhã bem embrulhado ao lado de uma garrafa térmica de café.
— Obrigado, Leah — respondi, pegando os dois.
— Se acontecer alguma coisa, ou se ela… — deixei a frase no ar, mas Leah assentiu com um olhar de quem entendia.
— Eu entendo, senhor. Eu ligo se for necessário.
Dei a ela um sorriso agradecido e saí, entrando no banco do motorista do meu BMW X6. O motor ronronou. Música baixa. Mente afiada. Só mais um dia no escritório.
Sede da Todd Enterprises — Escritório de Jalen
Larguei a pasta e o laptop sobre a mesa, afrouxei um pouco a gravata e me recostei.
Não tinham se passado nem cinco minutos quando Teresa entrou, eficiente como sempre.
— Bom dia, chefe.
— Bom dia — respondi, esfregando a tensão do pescoço. — Quais são as novidades?
Ela abriu o tablet. — Entrei em contato com a Bright Initiative Group. A dona está fora da cidade, de férias, mas o secretário dela, Alan, disse que repassaria a mensagem e voltaria para nós com um horário de reunião.
Pisquei. — Espera… você disse “dona”?
Teresa assentiu. — Aham. Eu também achei que o dono se chamasse Vlade Nowzki, mas o Alan disse que ela entraria em contato. Talvez sejam co-proprietários?
Recostei na cadeira, estreitando os olhos. Tem cara de coisa estranha.
“Certo. Me avise quando eles confirmarem. Quero isso fechado.”
“Claro”, ela disse antes de sair.
Fiquei ali, encarando a tela, batucando a caneta na mesa.
Dois dias até voltarmos para Madison, Wisconsin. A reunião. O inevitável.
Será que ela vai estar lá?
Aria.
Eu não dizia o nome dela em voz alta havia anos, mas o rosto dela me assombrava em todos os espaços silenciosos da minha vida. E agora, de repente, ela podia voltar a entrar em órbita. Voltar a ficar perto de mim.
E então eu me lembrei da primeira vez em que eu vi vermelho por causa dela.
Flashback
Aula de Recursos Humanos
Sentei no fundo da sala, de propósito. Eu precisava pegá-la antes ou depois da aula para pedir desculpas pelo que tinha acontecido no dia anterior com a Lucia. Aquela discussão não era para ter acontecido daquele jeito, e eu devia ter interferido.
Mas Aria não ficava esperando por desculpas.
E hoje, ela estava atrasada.
As cadeiras ao meu redor foram se ocupando rápido. Nenhuma delas era a dela. Meu peito apertou.
Talvez ela esteja me evitando.
Então a porta se abriu. Eu levantei o olhar e, porra.
Lá estava ela.
Cabelo impecável. Brilho nos lábios. Aquele vestido de moletom azul-claro abraçando as curvas dela como um maldito sonho.
Ela varreu a sala com os olhos e sentou no canto oposto, ainda no fundo, mas longe de mim. Meu estômago afundou… até eu ver do lado de quem ela estava sentando.
Mike.
Irmão de fraternidade. Pegador. Um cafajeste crônico.
E esse cara estava forçando a barra, se enfiando no espaço dela, fazendo-a rir, anotando alguma coisa — provavelmente o número dele. Eu cerrei a mandíbula.
Aí eu vi.
Ela deu para ele. O número dela.
O sangue subiu para os meus ouvidos. Meu coração martelava, os dentes travados. Eu já nem conseguia ouvir o professor. Eu só via vermelho.
Eu nem percebi que tinha saído do meu lugar até estar atrás dela, me impondo sobre os dois. Merda.
O que eu estava fazendo?
Me inclinei, a voz baixa. “Biblioteca. Mesma mesa. Depois da aula.”
Ela me olhou, surpresa, mas assentiu.
Eu não precisava dizer mais nada. Eu só precisava acabar com aquela comédia romântica acontecendo do meu lado.
Mas depois da aula?
Eles saíram juntos.
Eu fechei os punhos com tanta força que as unhas cravaram na palma. Eu estava pegando fogo.
Mais tarde naquele dia......
Entrei no quarto como uma tempestade e larguei a mochila. Kendall, meu colega de quarto, ergueu os olhos do jogo.
“E aí, mano. O que você tá fazendo aqui? Achei que você tinha aula em cima de aula.”
Me joguei no sofá, os olhos no teto.
“Eu só precisava… respirar um pouco.”
Porque ver ela sorrindo pra outro cara me dava vontade de socar alguma coisa.
