Capítulo 9 E quanto a Talia

Ponto de vista da Aria — Dias atuais

Nia enrola o fettuccine Alfredo no garfo e diz entre uma garfada e outra: “Tá, amiga, então aquele foi o primeiro e único beijo antes de...”, Nia abaixa a voz. “...aquela trepada? Ou teve mais?”

Eu suspiro, comendo um camarão do meu scampi, e murmuro: “Ah, teve muito mais.”

Ela deixa o garfo cair, os olhos arregalados. “Sua filha da puta, como você escondeu isso de mim por tanto tempo?!”

Dou de ombros, mastigando devagar. “Eu nem sei. Foi difícil pra caralho não contar pra ninguém. Mas eu sei que deixou de ser uma coisa de uma vez só bem rápido.”

Flashback

Terça-feira, terceira semana de outubro — Biblioteca, 21h36

“Então o que seu pai disse depois que você apresentou a ideia da Royal Cruise Line, tentando vender pra um público mais jovem e mais diverso?”, pergunto, mastigando Cheetos enquanto ainda rabisco ideias pra nossa campanha.

“Ele me dispensou como se eu fosse um estagiário”, Jalen resmunga, com frustração pesada na voz. “Nem considerou.”

Eu olho pra ele. “Tem gente que trata o próprio negócio como se fosse um bebê. E ninguém gosta de ouvir como tem que criar o próprio bebê.”

“É... talvez você tenha razão. Mas se eu vou comandar essa porra um dia, ele tem que começar a confiar em mim em algum momento.”

Eu enfio a mão na bolsa e puxo uma garrafa de água extra, estendendo pra ele. “Toma. Se hidrata, futuro CEO.”

“Obrigado, amor”, ele diz, pegando a garrafa.

Essa palavra. Amor. Ele vem me chamando assim desde o beijo na cozinha na semana passada. Eu tento ignorar o jeito como isso faz meu estômago revirar.

Voltamos a pensar em mock-ups, slogans, ideias de embalagem. A gente entra no ritmo até Mark, o gerente assistente, se aproximar.

“Ei, Aria. Eu sei que você tá de folga, mas você pode fechar hoje? Meu colega de quarto tá tendo outro surto. A polícia já tá lá em casa.”

Eu suspiro, mas concordo com a cabeça. “Sim, claro.”

“Valeu. Só anota mais três horas no seu cartão e deixa os livros na prateleira de reposição; eu cuido deles amanhã. Você tá com suas chaves, né?”

“Uhum.”

Mark sai correndo. Eu olho pro relógio. “Quase dez. Vou começar a recolher os livros fora do lugar e dar uma arrumada.”

Jalen se levanta. “Eu ajudo. Nem ferrando que vou te deixar aqui sozinha.”

Eu sorrio de canto. “A cavalheirice não morreu, né?”

22h50

Última chamada, anuncio no alto-falante. A biblioteca vai fechar em dez minutos. Por favor, dirijam-se ao balcão da frente se precisarem de assistência.

Às 23h, o prédio está vazio, exceto por nós. Eu termino a ronda e confiro as câmeras: tudo limpo. Só eu e Jalen.

Quando caminho em direção à frente, a duas estantes da porta, sinto uma mão agarrar meu pulso e me puxar para dentro, entre os corredores.

“Ei, o que você tá fazendo?”, digo, sem fôlego, enquanto Jalen me puxa contra ele.

Os braços dele me envolvem. A voz sai baixa, intensa. “Eu senti sua falta. Senti falta da sua boca. Senti falta do seu gosto.”

Eu passo a língua nos lábios por instinto. “E a Talia? Você transou com ela ontem à noite. Eu literalmente ouvi vocês dois.”

Ele solta o ar. “Aquilo foi só sexo. Mas isso...”, ele se inclina, a mão roçando minha bochecha, “...isso é diferente. Isso é a gente.”

Os lábios dele sobem do meu pescoço até a minha boca. Uma mão agarra minha cintura; a outra desliza pra cima e segura de leve minha garganta enquanto ele me beija com mais força.

“Jalen...”, eu solto, quase inaudível.

Ele se aperta mais contra mim. Eu sinto o quanto ele está duro, grosso e pulsando por dentro do jeans. Minha respiração falha. Meu Deus, ele é tão grande assim?

Eu interrompo o beijo, o coração disparado. Ele sorri de lado, os olhos escuros. “Shhh... Não se preocupa. Vai caber, sempre cabe.”

“O quê?”, eu consigo dizer, de olhos arregalados.

Antes que eu diga outra coisa, a boca dele volta pra minha, faminta, desesperada. As mãos dele sobem pro meu peito, me apertando por cima da blusa.

“Posso ver?”, ele pergunta entre beijos. “Só uma olhadinha.”

“Aqui? Agora?”

“Sim. Só desabotoa a blusa. Até a metade.”

Minhas mãos tremem, mas eu desabotoo, parando logo abaixo do meu sutiã balconette preto. O olhar dele fica incandescente quando ele passa os polegares pela renda. “Porra, amor... seus peitos são perfeitos.”

“Jalen...”

Ele engole o resto do meu protesto com outro beijo forte. A gente perde a noção do tempo, enroscados em calor e tentação.

Mas, por fim, eu me afasto. “Eu não posso. Você tem namorada. E ela é, de fato, minha colega de quarto.”

Ele fecha os olhos e concorda. “Você tem razão. Eu preciso parar.”

Eu abotoo a blusa depressa enquanto ele continua esfregando o pau por cima da calça, mordendo o lábio, claramente lutando pra se acalmar.

Então ele pega minha mão e coloca sobre ele. “É isso que você faz comigo, amor.”

Eu suspiro, ofegante. A dureza dele pulsa sob a minha palma. Sinto uma tontura. Ele me beija de novo, os lábios machucando os meus.

Dessa vez, eu me afasto com firmeza. “Não, Jalen. Eu estou falando sério.”

“Tá bom”, ele sussurra, recuando.

Pegamos nossas bolsas. Eu tranco tudo, e caminhamos em silêncio. Antes de chegarmos ao meu prédio, ele para, então se vira e vai embora sem dizer uma palavra.

Simples assim.

Fim do flashback

Nia se abana de um jeito dramático quando o garçom deixa nossas embalagens para viagem. “Porra, amiga. Isso foi quente.”

Eu rio, balançando a cabeça. “Você nem imagina metade.”

Dias atuais

Ponto de vista de Jalen

“E aí, mano, que horas você vai sair?” Patrick pergunta da porta, casual demais para alguém que mal fala com qualquer pessoa desta família, tirando a Mamãe.

Ergo os olhos da tela. “Daqui a mais ou menos uma hora. Por quê?”

Ele se ajeita encostado na parede. “Tava pensando se eu podia pegar carona com você até a casa do Parker.”

“Claro”, respondo. “Mas só pra você saber, a Talia vai comigo. Por isso ela está no escritório hoje.”

Na hora, ele faz uma careta. “Deixa pra lá. Eu vou com o Pai… e isso diz muita coisa.” Ele dá uma risadinha, mas tem um tom cortante ali.

Eu sorrio de canto. “Fico pensando do que é esse ‘grande anúncio’, afinal.”

“Provavelmente que ele e a Sybil vão se casar ou talvez ter um bebê”, Patrick suspira.

“Sinceramente? Já estava na hora. Eles estão namorando há, tipo, quatro anos.”

“E morando juntos há dois”, ele acrescenta, num tom um pouco mais amargo do que eu esperava.

Eu olho para ele. “Que energia é essa?”

Ele dá de ombros e resmunga: “Eles adoram fazer um espetáculo de tudo. Você não ouve porra nenhuma sobre mim e a minha garota, e a gente está junto há dois anos.”

Minhas sobrancelhas se erguem. “Pera… você tem uma namorada?”

Patrick revira os olhos. “Sim, Jalen. O nome dela é Amara Childs. Educadora infantil. Eu apresentei ela pra você no último Natal.”

Eu pisco. “Merda… Foi mal. Eu não lembro. Talvez tenha sido naquela noite em que a Talia surtou com a garçonete que ela achou que estava dando em cima de mim, mas a coitada só estava nervosa no primeiro dia e derramou vinho em mim. Ela estava tentando ajudar.”

Patrick solta um bufado. “É. Aquela noite foi um desastre do caralho.”

Eu balanço a cabeça. “Inesquecível pelos piores motivos.”

“Enfim”, ele continua, “a Amara já está lá na casa do Parker, ajudando a Sybil com os preparativos. Então você vai ter outra chance de ser um irmão mais velho decente.”

Eu sorrio de leve. “Beleza, mano.” Faço uma pausa e acrescento: “Tenho uma reunião na semana que vem com o Bright Initiative Group.”

A cabeça de Patrick se ergue. “Tá de sacanagem? A Sybil tem falado muito deles ultimamente. E sabe o que é doido? Foi a Amara que contou pra ela sobre eles.”

Ergo uma sobrancelha. “Sério?”

“Sim. Ela é super ligada no trabalho que eles fazem.”

Bem na hora em que eu ia responder, o ar muda, e ela—cujo nome não deve ser pronunciado—entra no meu escritório como se fosse dona do lugar.

Patrick olha uma vez pra ela, depois pra mim. “Bom, essa é a minha deixa. Te vejo hoje à noite, mano.”

“Talia”, ele diz com um suspiro.

Ela joga o cabelo para trás. “Irmãozinho bebê”, ela rosna, enquanto Patrick sai, nem um pouco abalado.

“Entããão… que carro você trouxe hoje?” ela pergunta, andando pelo meu escritório como se estivesse procurando alguma coisa pra criticar.

“O X6”, digo, sem levantar os olhos.

Ela dá uma risada de desprezo. “Por que você nunca consegue agir como alguém rico? Você anda por aí como se fosse um camponês de classe média. Um BMW X6, Jalen? Você acha mesmo que isso é um carro de luxo?”

Eu seguro um suspiro e respondo, calmo: “Você pode pegar um carro por aplicativo com motorista, se isso for mais a sua cara.”

Ela dispensa com um gesto. “Não, eu vou com você. Já aproveito e gravo umas demonstrações públicas de afeto pro meu blog, pra mostrar pro mundo que eu ainda tenho marido. Preciso aumentar o engajamento.”

Ignoro a alfinetada e volto para o meu notebook. “Deixa eu terminar esta preparação pra minha reunião com o Bright Group.”

Os olhos dela se estreitam. “Espera, você conseguiu uma reunião com eles?”

“Na próxima quarta-feira. Dez da manhã.”

Ela solta um resmungo irritado. “Como diabos você conseguiu isso? O Vlade não marca reunião com ninguém—eu estou tentando apresentar proposta pra eles há meses. Dá pra me enfiar junto?”

Eu levanto o olhar e encaro os olhos dela. “Não. Talvez na próxima.”

As narinas dela se abrem. “Você é um marido de merda!”, ela grita, estridente.

Eu mal pisco. “Tá. Só me encontra perto do carro.”

A essa altura, as palavras dela são só ruído de fundo. Eu já estou de volta dentro da minha cabeça… pensando na Aria. Naquele primeiro beijo de verdade na biblioteca. O gosto dela ainda fica em mim, mesmo depois de todo esse tempo.

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