Capítulo 3 3. Meio-irmãos

Ponto de vista da Tabitha

“Está um calorão. Eles provavelmente estão se refrescando na piscina. Vem comigo.”

E a gente vai. O sol cintila na água enquanto seguimos Emery até o pátio dos fundos. Ouço uma música baixinha vindo de uma caixinha de som em algum lugar e algumas vozes ecoando na água e na pedra.

Tento controlar a respiração. Minhas mãos estão úmidas. Meu coração dispara como se estivesse pronto pra correr uma maratona. Mas eu continuo andando. Mantenho o queixo erguido. Digo a mim mesma que está tudo bem. Eu não sou mais aquela garota. Não a que se escondia na cabine do banheiro durante o intervalo do almoço. Não a que chorava atrás da arquibancada. Não a que tropeçava, caía e virava motivo de risada da escola inteira porque não era tão forte quanto eles.

Eu mudei. E eles vão ver isso também.

Então eu endireito os ombros e sigo Emery, passando pelas portas de correr, me preparando para o que tem do outro lado.

Assim que meu olhar cai na piscina, eu reconheço na hora quatro figuras familiares.

Eles estão aqui.

Jace está sentado na beira da piscina, com os pés dentro d’água. Reed está em pé, com a água na altura da cintura, jogando uma bola pra cima e pegando de volta como se estivesse entediado. Luca está largado numa espreguiçadeira, de óculos escuros. E Evren está debaixo do guarda-sol, com um livro na mão.

E eu achando que só eu tinha mudado nesses últimos cinco anos. Eles também mudaram. Não são mais garotos… são homens. Os braços são magros e definidos. O peito, largo e marcado por anos de treino. Até o jeito de se mover deles parece mais pesado agora, como se tivessem crescido dentro da própria força.

Não sei se eu deveria ficar impressionada ou apavorada.

Emery se aproxima e para perto da piscina. Os irmãos continuam fazendo o que estavam fazendo até ele pigarrear.

“Meninos”, ele diz. “Quero que vocês conheçam alguém.”

Isso chama a atenção deles. Um por um, eles olham na nossa direção.

“Esta é a Tabitha. Ela é filha da Isla.”

O silêncio se instala. Os rostos deles se contorcem em reconhecimento, como se estivessem tentando colocar um nome num fantasma. Eu não desvio o olhar. Por um instante, parece que a gente ficou preso num tipo estranho de concurso de encaradas, ninguém disposto a falar primeiro. A mudança no olhar deles me diz tudo. Eles sabem exatamente quem eu sou.

“Nem fodendo”, Reed solta, ofegante. Ele levanta um dedo e aponta pra mim sem a menor vergonha. “Você tá me dizendo que essa é a Tabby Gordinha?”

Minhas bochechas pegam fogo de tanta vergonha. Não acredito que ele falou isso em voz alta. Aquele apelido idiota. A lembrança humilhante de tudo que eu tentei deixar pra trás.

Jace estreita os olhos, como se quisesse ter certeza de que eu sou real. “Pera… Tabitha Huxley? Do colégio Silver Hill?” Os olhos dele me percorrem devagar, da cabeça aos pés. “A garota gordinha que chorava atrás da arquibancada?”

“Ela não parece tão gorda agora. Na verdade… deu uma boa melhorada”, Reed comenta, me varrendo sem cerimônia da cabeça aos pés.

“Isso é… inesperado.” Luca baixa os óculos escuros pelo nariz. “Quase não reconheci.”

É, eu emagreci bastante nesses últimos cinco anos. Ou porque eu ficava doente com frequência, ou por causa de um estilo de vida mais ativo. Mas com certeza estou longe de ser a loser gorda que eles conheciam. E, ainda assim, eu queria que eles simplesmente tivessem me esquecido. Não isso. Agora, eu sinto que eles só vão ter ainda mais motivos pra pegar no meu pé.

Evren não diz uma palavra. Ele fecha o livro, deixa-o de lado e me encara com aquela mesma expressão indecifrável. Os olhos dele descem até o meu joelho, só por um instante — tão rápido que quase não percebo. Depois voltam para o meu rosto.

— Vou me casar com a Isla. Então é melhor você se acostumar a ver elas por aqui — declara Emery.

— Oi, meninos. Que bom finalmente conhecer vocês. — Mamãe abre um sorriso radiante e acena com a mão, toda animada.

— Só pode ser brincadeira — resmunga Reed.

O olhar de Evren sai da mamãe e volta para Emery. O maxilar dele trava, visivelmente irritado.

— O que significa isso?

— Eu já avisei que pretendo me casar de novo. A Isla vai ser minha nova esposa, e isso faz da Tabitha a nova meia-irmã de vocês. A partir de agora, elas vão morar aqui, na propriedade.

— Só pode ser brincadeira… — Reed cospe, num claro tom de frustração.

É, eu também não tô feliz com isso, seu babaca.

Evren sai da piscina num pulo e marcha, furioso, na direção do pai. Quase dá pra ouvir os dentes dele rangendo de raiva enquanto ele encara Emery de frente.

— Você vai trazer uma humana pra dentro desta casa? Pra dentro da nossa linhagem? — ele rosna.

— Cuidado com o tom, garoto. Eu posso ser seu pai, mas ainda sou o seu Alfa. — O maxilar de Emery se retesa, com uma raiva mal contida.

— Isso é uma idiotice e você sabe! — Evren berra.

Minha mãe se assusta e dá um pulo. Eu seguro o braço dela e nós nos afastamos alguns passos dos Aldair, mas não é o suficiente pra escapar da pressão assustadora que irradia deles. O ar fica pesado, quase sufocante. Os olhos deles mudam para um dourado líquido, brilhando com fúria e poder. Aqueles são os olhos de um Alfa — a linhagem superior de lobisomens pela qual os Aldair são celebrados há muito tempo.

— Você não questiona a minha decisão, Evren. Você obedece — Emery rosna, com uma voz afiada o bastante pra cortar aço. — Isso não está em discussão. Isla será minha esposa, e Tabitha vai viver sob este teto. Isso faz dela parte desta família.

Jace solta uma risada curta e sarcástica, ali na piscina.

— Isso só pode ser piada. Você tá me dizendo que a Tabby Gordinha vai ser a nossa nova meia-irmã?

Antes que eu consiga reagir, ele pega um punhado de água e joga direto em mim.

— Ah! — eu grito, cambaleando para trás enquanto a água gelada me encharca inteira.

— Chega! — a voz de Emery ecoa pelo pátio.

A voz de Emery racha como um trovão, mais alta do que qualquer coisa que eu já ouvi. Ela bate no peito e faz os ossos tremerem. É o Alfa dentro dele, o comando bruto enterrado em cada palavra. Do tipo que faz lobos caírem de joelhos sem pensar.

Os filhos dele baixam a cabeça, mesmo que um restinho de raiva ainda ferva por baixo da obediência forçada.

Os olhos de Emery percorrem os filhos como uma lâmina.

— Vocês não precisam gostar. Mas vão respeitar. Desrespeitem qualquer uma das duas de novo, e vocês vão se ver comigo.

Emery nos conduz de volta para a mansão. Eu olho por cima do ombro e vejo o jeito como eles encaram a gente. As expressões deles não são só de ódio. Há confusão nos olhos, algo indecifrável que fica ali por tempo demais.

Meu coração dispara enquanto sigo a mamãe e o Emery para dentro. A casa já é enorme por fora, mas por dentro é um nível de grandiosidade completamente diferente. Os tetos se erguem lá no alto, e tudo tem cheiro de lustra-móveis e dinheiro. Emery para diante de uma porta e me avisa que aquele vai ser o meu quarto a partir de agora.

Entro. O quarto é gigantesco, quase o dobro do tamanho do nosso antigo apartamento. A cama de casal queen também parece intocada. Tem um lustre no teto e, ao lado, um closet enorme. Porra, acho que nunca vou me acostumar com esse tipo de luxo.

Mas, ao mesmo tempo, este lugar é tudo o que a minha mãe sempre sonhou. A vida que ela e o meu pai queriam me dar.

Talvez a mamãe estivesse certa. Talvez esta seja a nossa chance de dar a volta por cima. Os Aldair são poderosos e ricos. A vida aqui poderia ser mais fácil. Chega de se preocupar com aluguel, de pular refeições, de ficar pensando em como a gente ia pagar as dívidas.

Só que, quando lembro do jeito que os quádruplos me olharam, eu me pergunto se alguma coisa vai ser fácil aqui.

**

Naquela noite, a gente é jogada no que provavelmente é o jantar mais constrangedor da minha vida.

Os cinco irmãos já estão à mesa quando eu e a mamãe entramos. Emery se senta na cabeceira. Mamãe pega a cadeira à direita dele. Eu me sento ao lado dela. Do outro lado, os irmãos ficam juntos na outra ponta — mas nenhum deles olha na nossa direção. Se bobear, parecem obrigados a dividir a mesa comigo e com a minha mãe.

Quisera eu poder dizer que eu me sinto do mesmo jeito.

Os pratos já estão postos. A comida tem um cheiro maravilhoso. É cordeiro assado, batatas com alho, folhas na manteiga, mas eu mal consigo encostar.

Mamãe, tentando preencher o silêncio, sorri enquanto corta o cordeiro. — Isso está uma delícia. A propriedade sempre teve um chef particular?

— Ele está com a família há anos. Foi treinado em Milão. — Emery concorda com a cabeça.

— Eu teria gostado se alguém tivesse avisado que a gente ia receber estranhos pro jantar — Reed dispara, sem nem se dar ao trabalho de levantar os olhos do prato.

— Reed! — Emery repreende, a mão apertando a faca com força demais.

— Eu não me acostumaria, não. De qualquer jeito, nem todo mundo aguenta ficar aqui. — Jace dá um gole na bebida e me lança um olhar que diz que ele sabe muito bem o que está fazendo. — Uns quebram mais rápido do que outros.

— Cuidem da boca! Eu não vou tolerar insolência na minha casa — Emery rosna e soca a mesa.

Reed solta uma risada de deboche e joga o guardanapo sobre a mesa.

— Pra mim deu. — Ele empurra a cadeira para trás e sai andando sem olhar para ninguém.

Jace se recosta, pega a taça de vinho e gira, preguiçosamente, o restinho lá dentro. — Bom, lá se foi o meu apetite. — Ele larga a taça, afasta o prato e se levanta com um suspiro, saindo num passo tranquilo, sem nem fingir que está arrependido.

Olho para os irmãos que ainda ficaram — Evren e Luca —, esperando completamente que eles também se levantem e saiam. Mas eles não saem. Só continuam comendo em silêncio, indiferentes à grosseria descarada dos irmãos. Eles não olham para mim nem para a mamãe. É como se a gente não existisse.

Me dá nos nervos como eles nem tentam esconder o desprezo por nós. Implicar comigo é uma coisa; desrespeitar a minha mãe é outra. Isso é algo que eu não consigo tolerar.

Surpreendentemente, os dois conseguem terminar a refeição antes de se levantarem e saírem da mesa em silêncio, depois de um aceno seco para o pai, me ignorando completamente — a mim e à minha mãe.

Babacas.

Minha mãe fica visivelmente abatida com isso, mesmo forçando um sorriso enquanto remexe a comida no prato. Ele não comenta nada sobre o comportamento deles, mas dá pra ver que aquilo pesa nela.

Eu encaro o meu prato, sem apetite. A comida está perfeita, mas eu não consigo aproveitar nada. Não quando o ambiente ainda está carregado daquele julgamento silencioso. É como estar sentada à mesa com um monte de fantasmas — só que os fantasmas estão vivos e ainda são capazes de crueldade.

Eu odeio eles.

Talvez a minha mãe tenha se enganado. Talvez eles não tenham mudado nem um pouco. Continuam sendo os mesmos valentões de cinco anos atrás. Só que piores. Mais velhos. Mais fortes. E agora eu estou presa na casa deles.


Naquela noite, eu não consigo dormir, mesmo deitada na cama mais macia em que já estive. Os lençóis estão quentinhos. O quarto está silencioso. Mas a minha cabeça não desliga. Eu continuo revivendo o jantar. Tenho medo de o Reed estar certo. Eu não acho que a gente vá aguentar aqui.

Eu me mexo na cama, tentando achar uma posição mais confortável, no meu último esforço desesperado pra dormir. Mas, por mais que eu tente, a minha mente simplesmente não deixa. Por fim, eu suspiro e me sento, olhando para as sombras que se arrastam pelo teto.

Que se dane.

Eu saio da cama, visto um moletom e piso no corredor em silêncio.

Os corredores estão quietos enquanto eu caminho de leve por eles. Imagino que todo mundo já esteja dormindo, o que torna esse o momento perfeito pra explorar sem topar com ninguém. Tomara.

A mansão é maior do que eu pensei. Sinceramente, eu não estou acostumada com tanto espaço numa casa. Cada corredor parece se dobrar e levar a outro. As paredes são revestidas de madeira escura e fotos antigas da família, mas o que chama a minha atenção são os prêmios emoldurados perto da escada — placas da Marinha, condecorações, medalhas. Todas trazem o nome do Capitão Emery Aldair, Oficial Comandante da Estação Naval de Kaelara. Claro que ele é condecorado. Era de se esperar.

Ele é uma verdadeira lenda na ilha e no mundo dos lobisomens. Que homem assustador. Eu não acredito que ele está noivo da minha mãe.

Eu continuo andando até o corredor fazer uma curva, me levando a uma grande reentrância no final. Reparo num único retrato pendurado na parede do fundo. Eu me aproximo pra ver melhor.

É uma fotografia de uma mulher de aparência elegante. Ela parece tão imponente, com o cabelo loiro comprido caindo pelos ombros. Os olhos são de um azul caribenho marcante, que me lembra o Evren e o Reed.

Essa deve ser a mãe dos quádruplos, Corinne Aldair. A falecida esposa de Emery Aldair e a antiga Luna da matilha Crystal Ridge.

Ela é deslumbrante.

Eu olho ao redor e percebo que não há nenhum outro retrato dela em lugar nenhum. Só esse antigo. Uma única lembrança preservada na moldura.

— O que você está fazendo aqui?

Merda.

Eu me viro e vejo o Evren atrás de mim, sem camisa, me encarando com dureza.

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