
Filhos da Marinha: Intimidada pelos Quádruplos Meio-Irmãos Postiços
Lino Genge · Concluído · 281.8k Palavras
Introdução
“Pare de agir como se fosse uma de nós. Você me dá nojo!”
***No ensino médio, Tabitha era gorda e o alvo constante das piadas cruéis e do bullying dos irmãos quadrigêmeos. Eles eram o seu pesadelo em vida. Após abandonar os estudos, ela deixou a escola para lobisomens para trás e se matriculou em uma universidade de humanos, onde emagreceu. Os quadrigêmeos foram criados pelo pai com uma rígida disciplina militar, o que os transformou em jovens alfas rebeldes e indisciplinados. Cinco anos depois, Tabitha e os irmãos quadrigêmeos se reencontraram, porque a mãe dela se casou com o pai deles.
Agora, Tabitha é forçada a morar sob o mesmo teto que os quatro alfas valentões da Marinha. Eles a reconhecem rapidamente e ficam impressionados com o quanto ela ficou linda.
Capítulo 1
POV da Tabitha
Uma bola de futebol vem disparada na minha direção bem quando estou no meio de um trecho, largada de pernas cruzadas no meio do gramado aberto, com o livro apoiado confortavelmente nas minhas coxas. Eu ergo o olhar e vejo a bola vindo em linha reta, direto na minha cara.
Merda!
Meu coração falha uma batida e eu bato o livro, fechando com força. Me jogo pro lado, fincando as mãos na grama enquanto torço o corpo pra sair da trajetória.
— Cuidado!
Antes que a bola me alcance, Andrew surge num borrão de movimento. Ele avança e se joga na minha frente, inclinando a cabeça do jeito certo pra interceptar a bola. Ela bate com um baque surdo e sai rolando pelo gramado.
— Você tá bem? — ele pergunta, recuperando o fôlego enquanto se endireita ao meu lado.
Eu aperto a palma da mão no peito, sentindo o pulso disparado sob as pontas dos dedos. Essa foi por pouco.
— Tô. Mas aquela bola quase quebrou meus óculos. — Empurro a armação torta de volta pra cima, no nariz. — Eu ia pedir pra você pagar outro, mas hoje é seu dia de sorte, Kingston.
Andrew solta uma risadinha baixa.
— Foi mal por isso. Eles deixaram o Ray todo pilhado. — Ele faz um gesto com a cabeça na direção do Ray, que está correndo pelo campo. — Você sabe como ele fica quando entra no jogo.
Ray, o capitão do time de futebol da universidade, acena pra mim, pedindo desculpas, e grita com o Andrew pra devolver a bola.
— Talvez você queira dizer pros seus amigos treinarem a mira da próxima vez. Tentem não dar um olho roxo na gente, pobres coitados nas arquibancadas, antes das férias de verão.
Ele ri de novo e chuta a bola de volta pros colegas com um chute seco, antes de se afastar do campo pra vir até mim. Andrew faz um sinal de que entra no próximo jogo. Ray e os outros assentem com a cabeça e voltam ao treino.
— Por que vocês estão treinando hoje? — eu pergunto, me ajeitando pra sentar direito de novo e pegando meu livro. — As férias de verão começam em três dias. A temporada do time já acabou.
Andrew dá de ombros.
— Nem tudo é competição. Futebol é só um jogo divertido. Mas o Ray ficou obcecado por treino desde que a gente perdeu a final… então tem isso também.
Andrew pega o copo térmico e dá um gole longo. O olhar dele desce, e eu pego ele encarando o meu joelho. Ele inclina levemente a cabeça.
— Eu queria te perguntar faz tempo daquela cicatriz. Como você conseguiu? — ele pergunta.
Eu olho pra baixo, meus dedos passando pela linha fina e irregular logo abaixo da patela. É antiga, mas ainda se destaca na minha pele.
— Eu caí de um penhasco cinco anos atrás. Um bando de idiotas do ensino médio tava me perseguindo. Eu tropecei, rolei, ralei os joelhos e bati a cabeça bem feio — eu digo, virando uma página do livro.
Andrew faz uma careta.
— Caramba. Eu sei que adolescente pode ser babaca, mas isso é pesado. Eu não achava que o pessoal do ensino médio fosse tão cruel.
Eu solto uma risada seca.
— É… você não faz ideia.
Se ele soubesse. Principalmente se você cresce perto de lobisomens que se transformam só pra aterrorizar humanos como eu. Ainda bem que eu tô a quilômetros daquele inferno agora. Não vou mais ter que ver as caras debochadas dos meus agressores… especialmente daqueles quatro irmãos, em particular, que costumavam fazer da minha vida um inferno.
Percebendo a mudança no meu humor, ele troca de assunto rápido.
— Enfim, quais são seus planos pro verão? — ele pergunta enquanto limpa os lábios.
Eu fecho o livro prendendo o polegar e o apoio no joelho. Planos pro verão, é?
— Provavelmente vou pegar uns turnos extras no café. Como sempre — eu digo, dando de ombros.
Ele concorda com a cabeça.
— Caramba, você tá sempre ralando. Se você quiser algo diferente, a empresa do meu pai tá contratando. Eu posso dar uma força, falar com ele.
Eu sorrio e nego de leve com a cabeça.
— Valeu, mas eu gosto do meu trabalho no café. Mesmo que o salário não seja lá essas coisas, pelo menos eu fico sentindo o cheiro delicioso de café o dia inteiro. E, além disso, o chefe é gente boa e me dá os salgados e doces que sobram em todo turno.
É gentil da parte dele oferecer, mas eu prefiro continuar no meu emprego de meio período. E nem é por orgulho; é mais por querer construir algo por conta própria. Talvez eu aceite a oferta dele quando eu estiver confiante o bastante pra fazer um bom trabalho... quando eu me formar. Tomara.
— Bom, se você diz... — Andrew joga o copo térmico de volta na mochila e se acomoda na arquibancada ao meu lado. — Sabe de uma coisa? Você é a pessoa mais trabalhadora que eu conheço. Não acredito que você vai passar as férias de verão inteiras só... trabalhando. Você nem tem um plano pra viajar? Pegar um sol? Fazer trilha? Passear? Praia?
Praia. Uma lembrança repentina faz cócegas no fundo da minha mente. O cheiro de maresia, a sensação da areia branca e granulada na pele... e a água azul-cristalina que me recebia todas as manhãs. É, eu já morei numa praia, sim. E já tive praia o suficiente pra uma vida inteira. Agora, eu não fico nem um pouco animada de voltar.
— Não. Tô de boa. Trabalhar no café também é uma escapada divertida. — Eu puxo o ar fundo e deslizo o marcador de página até a folha antes de guardar o livro de volta na mochila. Eu não tenho concentração nenhuma pra ler agora.
— Não foi isso que você disse mês passado, quando aquele cara pediu pra você refazer o latte porque o coraçãozinho da espuma ficou torto.
Eu solto uma risadinha pelo nariz, lembrando do incidente.
— É. No fim, ele tava pedindo pra namorada, só que ela terminou com ele no mesmo dia. Fizeram um barraco no café naquele dia. Coitado, teve que pedir outra bebida. Mas tenho que admitir: ele mandou bem. Pediu um chá de camomila só pra acalmar os ânimos.
Andrew dá uma risada.
— É, e— — ele para no meio da frase, os olhos passando por mim e se estreitando um pouco.
— O quê?
Eu acompanho o olhar dele e vejo um homem de terno preto impecável vindo na nossa direção. Ele parece totalmente deslocado numa universidade cheia de estudantes correndo pra terminar os últimos trabalhos e de jogadores de futebol zoando no campo. Ele não tem cara de professor nem de ninguém minimamente ligado à faculdade, e o que me incomoda é o jeito como os olhos dele ficam grudados em mim, como se ele não estivesse só passando, mas vindo pra cá por um motivo específico.
Deve ser só um pai de aluno... ou talvez algum patrocinador da universidade. Ele não pode estar vindo atrás de mim. Né?
Não. O homem está, sim, vindo na nossa direção — e continua olhando pra mim.
— Você conhece esse cara? — Andrew sussurra, franzindo a testa.
— Não.
O homem finalmente para bem na nossa frente. Ele lança um olhar rápido para Andrew e, em seguida, fixa os olhos de novo em mim.
— Você é Tabitha Huxley? — pergunta o homem de terno.
— Ah... s—
— Quem é você? — Andrew se levanta, bloqueando a visão do homem em relação a mim.
O homem ignora Andrew completamente e dá um passo de lado, inclinando a cabeça o suficiente para enxergar por trás daquele corpanzil e encontrar meus olhos de novo.
— A madame Isla está esperando no estacionamento do campus. Ela pediu que eu viesse encontrar você, Tabitha — ele diz, num tom calmo, treinado.
Minha mãe fez o quê, agora? Ficando de tocaia no estacionamento do campus? A gente nem tem carro!
Dou mais uma boa olhada no homem. Ele tem uma expressão permanentemente séria no rosto. Parece estar ali pelos quarenta e tantos, com certeza alguns anos mais velho que a minha mãe. E, por mais que eu encare, sei que é a primeira vez que vejo esse sujeito. Então, ele não pode ser amigo da minha mãe.
O Andrew se inclina pra perto de mim e sussurra, sem tirar os olhos atentos do homem. “Você acha que isso é algum tipo novo de golpe?”
Bom, se for... escolheram a pior pessoa possível, porque a gente tá duro pra caramba. A única coisa que dá pra tirar da gente é a frigideira de segunda mão que eu comprei numa feirinha de usados duas semanas atrás. Eu e minha mãe mal estamos conseguindo sobreviver, principalmente com os gastos incontroláveis dela, que de vez em quando fazem a gente meter a mão naquele pouquinho de economia que conseguimos juntar nos últimos cinco anos.
“Acredito que sua mãe tenha mandado uma mensagem sobre isso mais cedo”, diz o homem, lançando um olhar de lado pro Andrew como se o garoto já estivesse no limite da paciência dele.
Eu hesito, levando a mão ao celular devagar, como se ele fosse me morder. A tela acende com uma única mensagem não lida de quinze minutos atrás.
Mãe:
Oi, meu amor. Não surta, mas você pode vir pro estacionamento? Preciso de você pra uma coisa. É... meio que uma surpresa. Confia em mim, tá? :))
Mas que… Ela tá falando sério?
Franzo a testa, encarando a tela, tentando entender aquela mensagem. Levanto os olhos de novo pro homem, que ainda está ali parado como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, como se eu só tivesse que ir com ele sem fazer perguntas.
Eu não faço ideia do que está acontecendo. Mas meu instinto manda eu só ir e acabar logo com isso. Tenho spray de pimenta na bolsa caso dê ruim — não que isso vá ajudar a derrubar esse homem enorme. Mas, enfim, minha mãe me mandou mensagem e, por mais sem noção que ela seja às vezes, ela não mandaria um estranho me arrancar do meio do campus se não fosse algo sério. Provavelmente. Tomara. De qualquer jeito, eu endireito os ombros, jogo a bolsa num braço e começo a andar na direção dele, fingindo que faço esse tipo de coisa o tempo todo.
A mão do Andrew segura de leve meu cotovelo. “Espera. Você tem certeza disso?”
“Tenho. Depois eu te mando mensagem.” Dou um sorriso curto pra ele.
A mão dele se afasta e eu sigo em direção ao homem de terno.
Enquanto caminhamos pro estacionamento do campus, meus olhos descem até o pulso do homem e param em algo familiar. As abotoaduras dele são ovais, com uma cadeia de montanhas minimalista gravada em prata. Isso parece… familiar.
Faz cinco anos desde a última vez que vi aquele símbolo. E só existe uma família que eu conheço cujo pessoal usa isso.
Não. Impossível. Deve ser só um desenho parecido.
Ainda estou encarando as abotoaduras quando percebo que já chegamos. O homem dá um passo à frente e abre a porta de um carro preto, elegante. Lá dentro, vejo minha mãe sentada confortavelmente no banco de trás, completamente à vontade, acenando e fazendo sinal pra eu entrar. Ainda bem. Então eu não estava caindo num golpe. Ela está aqui mesmo.
“Obrigada por trazer minha filha inteira, Gerald.” Ela oferece um sorriso encantador ao homem.
Gerald inclina a cabeça de leve. “À disposição, madame.”
Então ele dá a volta no carro e vai até o banco do motorista. Gerald liga o motor e, antes que eu me dê conta, já estamos saindo do campus da universidade. Tá, eu ainda tô confusa.
“Por favor, me diz o que tá acontecendo, mãe. De onde saiu esse carro? E quem é ele, afinal?”
“Eu já estava querendo te contar”, ela diz, radiante, e segura minha mão. “Agora eu finalmente posso.”
“Você tá me deixando nervosa…”
“Ah, não fica, meu bem. Isso é uma ótima notícia!”
Ela ergue a outra mão e, toda orgulhosa, exibe um anel de diamante enorme, numa aliança de platina cravejada de pedrinhas.
“Filha, eu vou me casar”, ela grita, toda eufórica.
Meu queixo cai. Ela vai o quê?
O rosto da minha mãe está corado, como o de uma adolescente apaixonada. Ela parece tão empolgada que eu preciso fechar a boca para impedir que qualquer coisa escape e estrague o clima. Minha mãe vai se casar? Quer dizer, claro, ela ainda é deslumbrante mesmo com quarenta e tantos. Ainda tem muito homem que admira, que suspira por ela. Mas eu nunca pensei de verdade que ela fosse mesmo se acertar com outra pessoa depois que o meu pai morreu.
“O que você acha? É um anel lindo, não é?” Ela acaricia a pedra enorme do anel de noivado, e eu balanço a cabeça, no automático.
Parece caro pra caramba. Quem quer que seja o noivo dela deve ser podre de rico.
“É… isso é… incrível. Mas, mãe, você nunca me disse que estava saindo com alguém.”
“Ai, filha. Eu tentei manter em segredo por um tempo. Você já estava com tanta coisa na cabeça ultimamente, com faculdade e trabalho, e eu não queria te distrair. E, além disso… bem… aconteceu tudo meio rápido. No começo, a gente não sabia o quão sério era, e eu não queria dar azar falando demais.” Ela solta uma risadinha e olha para o anel. “Mas agora é oficial. Ele me pediu em casamento ontem à noite, e eu não consegui esperar mais. Eu precisava te contar.”
“Então… quem é o cara?”
“Você vai ver”, minha mãe diz com um sorriso, dando um tapinha no meu joelho. “A gente vai encontrar com ele hoje. Ele fez questão de almoçar direitinho com nós duas. Disse que já estava na hora de oficializar as coisas.”
“Eu ainda não consigo assimilar isso tudo…”
“Ele é um homem maravilhoso, Tabitha. Do tipo que a gente não encontra duas vezes. Eu realmente acho que você e eu… a gente vai ter uma vida boa daqui pra frente.”
Como se fosse combinado, o carro para. Gerald desce e abre a porta para nós. Eu saio, e meus lábios se abrem de surpresa.
Estamos em frente a um dos restaurantes mais caros da cidade. Daqueles com manobrista, elevadores privativos e cardápios com letras douradas. Daqueles em que o Andrew Kingston poderia aparecer do nada pra jantar um bife, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não um lugar onde alguém como eu sequer sonha em entrar.
Afinal… quem é o noivo da minha mãe?
Eu tenho mil perguntas, mas não digo nada enquanto sigo minha mãe pela entrada imponente. Na mesma hora, nos conduzem a uma mesa VIP reservada, mais ao fundo do restaurante. Lá, sentado com postura de rei e uma expressão indecifrável, está um homem já nos esperando. Minha mãe não hesita. Ela vai direto até ele e dá um beijo na bochecha dele, como se já tivessem feito aquilo cem vezes.
O homem se vira para mim e oferece um sorriso gentil. Mas meus lábios travam de choque antes que eu sequer consiga retribuir a cordialidade.
“Filha, quero que você conheça meu noivo, Emery Aldair”, minha mãe anuncia, sorrindo.
Não é possível.
O noivo da minha mãe é o Emery Aldair… o pai dos meus valentões do ensino médio?!
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