Capítulo 2

A sala de espera da clínica estava cheia de casais.

Renata reparou nisso do jeito que a gente repara num dente quebrado com a língua — sem querer, de novo e de novo. À esquerda, um homem segurava a bolsa da esposa. À direita, um casal jovem discutia baixinho sobre nomes. No meio deles, ela, sozinha, com a ficha no colo e a bolsa nos pés.

— Vidal? Renata Vidal? — chamou a enfermeira.

Lá dentro, a médica passou o gel frio na barriga dela e mexeu o aparelho até a tela acender com aquele chuviscado cinza.

— Aqui está. Coração batendo forte. — A médica sorriu, e então, sem maldade nenhuma, do jeito automático de quem pergunta isso vinte vezes por dia: — E o pai, não veio?

Renata olhou para o teto branco por um segundo.

— Ele tinha um compromisso — disse.

Não era mentira. Mateus tinha mesmo um compromisso. Chamava-se Karoline e morava em Pinheiros. Mas Renata aprendeu naquele instante uma coisa útil: que algumas frases servem só para fechar uma porta de conversa sem precisar contar a vida inteira para uma estranha de jaleco. Ele tinha um compromisso. Funcionava. Encerrava o assunto. E não doía dizer, porque ela escolheu não deixar doer ali, naquela sala, na frente daquela tela.

No caminho de volta, desceu do ônibus duas paradas antes de casa, de propósito, e entrou numa papelaria.

Comprou um caderno. Não o de receitas — esse já tinha a lista. Um caderno novo, de capa dura, do tipo que se usa para contabilidade. Pagou em dinheiro, contou as moedas, e percebeu, contando, exatamente quanto tinha. Não era muito. Era o suficiente para algumas semanas, se ela fosse cuidadosa. E Renata ia ser muito cuidadosa.

Sentada num banco da praça, antes de subir para casa, ela abriu o caderno novo na primeira página e dividiu uma folha em duas colunas. De um lado, escreveu o que sai: aluguel, que Mateus pagava até o fim do contrato — três meses. Luz, água, comida, o ônibus. As consultas. As coisas do bebê, que ela ainda nem sabia direito quais eram. Do outro lado, escreveu o que entra, e a coluna ficou vazia, branca, olhando de volta para ela.

Uma coluna vazia é uma pergunta. Renata olhou para aquela coluna por um tempo, e a pergunta era simples e enorme ao mesmo tempo: e quando os três meses de aluguel acabarem?

Ela não tinha a resposta ainda. Mas tinha a pergunta escrita, com data, em tinta. E era diferente de ter medo no escuro. Medo no escuro não tem prazo. Aquilo tinha. Três meses. Ela podia trabalhar com três meses.

Quando chegou em casa, a campainha tocou às sete da noite.

Era Tia Sônia, com duas sacolas de feira e a cara de quem não aceita ser mandada embora.

— Não me liga avisando que vem — disse Renata, mas já abria a porta.

— Se eu ligasse, você dizia que tá tudo bem e que não precisa de nada. — Tia Sônia entrou, pôs as sacolas na pia e começou a guardar as coisas como se aquela cozinha fosse dela. — E você não tá bem, e você precisa. As duas coisas.

Tia Sônia tinha cinquenta e cinco anos e criou três filhos sozinha depois que o marido sumiu numa madrugada e nunca mais voltou. Não falava disso com pena. Falava como quem comenta o tempo.

— Sabe o que eu mais lembro daquela época? — disse a tia, guardando os mantimentos. — Não é a falta de dinheiro, que era muita. Não é o cansaço, que era pior. É de uma vizinha que me trazia comida nos dias em que eu não tinha. Sem alarde. Batia na porta, deixava uma marmita e ia embora. Foi assim que eu aguentei. Não foi sozinha não, menina. Foi de mão em mão. — Ela olhou para Renata por cima dos óculos. — Por isso eu tô aqui hoje. Tô pagando uma marmita velha que eu devo desde 1992. Você um dia vai pagar a sua pra outra mulher. É assim que funciona. Mulher segura mulher, e a roda gira.

Renata guardou aquilo. Não sabia ainda que, anos depois, ia pagar exatamente essa dívida — para uma moça chamada Dani, para uma cliente com uma irmã quebrada, para todas as mulheres que ainda iam comprar dela não um sabonete, mas a prova de que dava pra levantar. A tia plantou aquela ideia naquela cozinha, sem saber, numa noite de feira e caixas de papelão.

Naquela noite, ela não deu nenhum sermão. Não disse vai ficar tudo bem nem homem é tudo igual. Apenas, depois do jantar, foi até o quarto vazio do fundo — o que seria do bebê — e começou a tirar dali as caixas de papelão que Mateus tinha deixado.

— Esse quarto — disse Tia Sônia, do corredor — precisa de uma cama de verdade pra você descansar quando a barriga crescer. E de espaço. A gente arruma amanhã.

Renata ficou parada na porta da cozinha, olhando a tia mexer nas caixas, e sentiu pela primeira vez no dia uma coisa apertar na garganta. Não pela ausência de Mateus. Pela presença de Tia Sônia.

— Tia.

— Hum?

— Você acha que eu consigo? Sozinha?

Tia Sônia parou com uma caixa nos braços e olhou para ela por cima dos óculos.

— Você não tá sozinha, menina. Sozinha é outra coisa. — Pôs a caixa no chão. — Agora me diz uma coisa mais útil: aqueles seus sabonetes, aquelas velinhas que você fazia e vendia pela internet antes de casar... você ainda sabe fazer?

Renata abriu a boca para responder que aquilo era passado, que fazia tempo, que agora não era hora.

Mas a verdade saiu antes da desculpa.

— Sei — disse. — Eu nunca esqueci.

Tia Sônia voltou a pegar a caixa, com um meio sorriso.

— Então amanhã, além da cama, a gente vê o que você ainda tem desse material guardado.

Renata foi até a varanda naquela mesma noite, depois que a tia já tinha ido embora. Tirou a lona da caixa de ferramentas. Lá dentro estava a máquina — uma coisa simples, de metal, para derreter e moldar a base dos sabonetes e das velas, que ela tinha comprado parcelada quatro anos antes com o primeiro dinheiro que ganhou vendendo pela internet. Estava empoeirada. Um dos botões tinha enferrujado de leve. Mas quando ela apertou o interruptor, na dúvida, a luzinha vermelha acendeu.

Acendeu.

Renata ficou olhando aquela luzinha boba por mais tempo do que faria sentido para qualquer pessoa que estivesse vendo de fora. Era só um interruptor funcionando. Mas para ela, naquela noite, era a prova de que existia pelo menos uma coisa naquela casa que ainda ligava quando ela mandava ligar.

Pegou o caderno de receitas — o velho, o das manchas de baunilha — e procurou nas últimas páginas. Ainda estavam lá: as fórmulas. As proporções de óleo, de essência, de manteiga de karité. A receita do sabonete de café que vendia bem no inverno. A da vela de capim-limão que as clientes pediam para dar de presente. A letra era de quatro anos atrás, mais redonda, de uma mulher que ainda não sabia o que ia acontecer com ela.

Renata passou o dedo na página e não sentiu saudade daquela mulher. Sentiu uma espécie de pressa de ser de novo, melhor, alguém parecido com ela.

Antes de dormir, mandou uma mensagem para Tia Sônia: "Achei a máquina. Funciona. Amanhã a gente começa."

A resposta veio rápida, em letras grandes, do jeito que a tia digitava: "EU SABIA. Boa noite, mãe."

Era a primeira vez que alguém a chamava assim. Renata leu três vezes, pôs a mão na barriga, e dormiu melhor do que tinha imaginado que dormiria.

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