
Grávida e de Pé
Luna Vasconcelos · Concluído · 11.6k Palavras
Introdução
Disse que a amava um pouco mais. Eu disse: então leve tudo. E fechei a porta.
Não chorei. Comecei uma lista: dinheiro, um teto, o que um bebê precisa.
Três anos depois ele voltou. De terno, com flores, com uma frase pronta na boca.
Ele não sabia de uma coisa: no dia em que saiu, eu não só fechei aquela porta — comecei a construir outra que ele nunca mais conseguiria abrir.
Capítulo 1
Aos três meses de gravidez, ele levou as malas para o apartamento dela — a outra mulher.
Disse que a amava um pouco mais. Eu disse: então leve tudo. E fechei a porta.
Não chorei. Comecei uma lista: dinheiro, um teto, o que um bebê precisa.
Três anos depois ele voltou. De terno, com flores, com uma frase pronta na boca.
Ele não sabia de uma coisa: no dia em que saiu, eu não só fechei aquela porta — comecei a construir outra que ele nunca mais conseguiria abrir.
A mala dele era azul-marinho, com uma etiqueta de viagem ainda pendurada na alça. Renata reconheceu a etiqueta. Tinham comprado as duas no aeroporto de Recife, na lua de mel, quando ainda riam de bobagens.
Agora a mala estava no corredor, cheia, e Mateus segurava as chaves do carro como quem já tinha um pé do lado de fora.
— Renata — ele disse. — A gente precisa conversar.
— A gente não precisa de nada. — Ela continuou de pé junto à mesa da cozinha, uma mão apoiada na barriga de três meses, que ainda mal aparecia sob a blusa. — Você já arrumou a mala. Isso não é conversa, é aviso.
Ele respirou fundo, daquele jeito que ela já tinha aprendido a ler. Era o jeito de quem ia dizer algo e queria parecer honesto enquanto dizia.
— Eu conheci outra pessoa. A Karoline. E eu... eu acho que amo ela um pouco mais. Não dá pra fingir. Você merece a verdade.
Renata olhou para ele por um tempo longo. Lá fora, um ônibus passou e fez tremer o vidro da janela.
A primeira coisa que ela sentiu não foi dor. Foi um cálculo. Frio, rápido, quase prático. O aluguel está no nome dele. A conta conjunta tem o salário dele. Eu parei de vender meus sabonetes faz dois anos porque ele achava melhor eu cuidar da casa.
— Para onde você vai? — perguntou.
— Pro apartamento dela. Em Pinheiros.
— O apartamento dela — repetiu Renata. Não era uma pergunta. Era ela guardando a informação. — Então a casa que a gente alugou, esse teto aqui, é o quê pra você agora?
Mateus mexeu nas chaves.
— Eu continuo pagando o aluguel até o fim do contrato. Não sou um monstro, Renata. Eu quero fazer isso direito.
— Você quer fazer isso confortável — ela disse. — Que é diferente.
Houve um silêncio. Ele esperava o que todos os homens como ele esperam: o choro, a mão segurando o braço, o por favor, pensa no bebê. Ele tinha vindo preparado para resistir a uma súplica. Renata viu isso no rosto dele — a defesa pronta, o discurso ensaiado sobre seguir o coração, talvez até a frase de consolo guardada para depois que ela desmoronasse.
Ela não deu nada disso a ele.
E entendeu, naquele segundo, uma coisa sobre o próprio casamento que nunca tinha entendido antes: ele sempre achou que a barriga dela e a honestidade dele pesavam a mesma coisa na balança. Que dizer "amo outra um pouco mais" diante de uma mulher grávida do filho dele era um ato de coragem, e não de covardia com um nome bonito. Ele estava ali esperando ser perdoado pela franqueza. Renata percebeu que, se chorasse, estaria dando a ele exatamente isso — a chance de se sentir um homem honesto numa cena difícil.
Então ela não chorou. Tirou dele até essa última coisa.
— Leve tudo — disse. — Tudo que é seu. Não quero achar uma meia sua daqui a um mês e ter que pensar em você.
— Renata...
— Estou falando sério. Abra os armários. Leve as suas coisas hoje. — A voz dela estava tão calma que assustava a si mesma. — Porque amanhã eu vou trocar a fechadura, e o que ficar pra trás vira meu.
Pela primeira vez, foi ele quem ficou sem saber o que dizer.
Levou quarenta minutos para esvaziar metade da vida deles em três malas e duas caixas. Renata ficou sentada à mesa o tempo todo, as mãos cruzadas, sem oferecer ajuda e sem atrapalhar. Ouviu as gavetas abrindo no quarto, o barulho dos cabides raspando o varão do guarda-roupa, o zíper das malas. A cada som, ela fazia uma conta na cabeça. O notebook é dele. A TV a gente comprou junto, mas que fique. A máquina de fazer os sabonetes está na varanda, dentro da caixa de ferramentas — ele nem lembra que ela existe.
Foi a última conta que importou. Mateus não lembrava da máquina. Para ele, aquilo era lixo de um hobby antigo que ela tinha abandonado. Renata não disse uma palavra sobre isso. Deixou a caixa na varanda, coberta por uma lona, e deixou ele acreditar que estava levando tudo que tinha valor.
Quando ele passou pela porta com a última caixa, parou.
— Você vai ficar bem? — perguntou. E havia algo quase sincero ali, o que era pior do que se não houvesse.
— Vou ficar de pé — ela respondeu. — Que é diferente de bem. Mas é meu.
Ela fechou a porta. Não bateu. Apenas fechou, devagar, até o clique da lingueta.
Depois, no silêncio do apartamento que de repente era só dela e do bebê, Renata pegou um caderno velho na gaveta — um caderno de receitas, com manchas de baunilha nas primeiras páginas — virou para uma folha em branco e escreveu, com a letra firme:
Não sei como vou fazer. Mas sei que não vou cair.
Embaixo, fez uma lista. Dinheiro. Um teto. O que um bebê precisa. E, na última linha, parou a caneta, pensou, e acrescentou uma quarta coisa que não tinha planejado escrever:
Eu de volta.
O celular dela vibrou na mesa. Era uma mensagem dele, já do corredor, antes mesmo de chegar ao elevador: "Desculpa. De verdade."
Renata olhou a tela, virou o celular para baixo, e voltou para a lista.
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