Capítulo 3
A queda veio numa terça-feira, sem aviso, como vêm as quedas de verdade.
Renata estava lavando a louça do almoço. Não tinha acontecido nada de especial naquele dia. Nenhuma mensagem dele, nenhuma má notícia. Só um prato, depois outro, a água morna escorrendo, e de repente uma fotografia que ela viu sem querer no celular apoiado na pia — uma cliente antiga marcando ela numa publicação antiga, dos tempos em que ela e Mateus iam juntos a um aniversário. Os dois rindo. A mão dele na cintura dela.
Foi só isso. E as pernas dela simplesmente cederam.
Renata escorregou pela frente do armário até sentar no chão da cozinha, com as costas no armário e as mãos ainda molhadas, e chorou de um jeito que ela não tinha se deixado chorar na frente dele. Não foi um choro bonito. Foi feio, com nó na garganta, com aquele soluço que dói nas costelas. Chorou pela mulher daquela foto, que tinha acreditado em tudo. Chorou de medo da coluna vazia do caderno. Chorou porque estava grávida e cansada e sozinha no chão de uma cozinha às duas da tarde.
Deixou acontecer. Não se levantou na metade, não fingiu força que não tinha. Ficou ali até o choro terminar sozinho, do jeito que toda tempestade termina quando ninguém tenta apressá-la.
E quando terminou — e terminou — Renata enxugou o rosto na manga da blusa, respirou, e fez a única coisa que sabia fazer naquele momento.
Levantou. E terminou de lavar a louça.
Cada prato. Secou. Guardou. Limpou a pia. Não porque a louça importasse, mas porque precisava provar para si mesma que conseguia chorar e ainda assim terminar o que tinha começado. Que uma coisa não cancelava a outra. Que ela podia desabar às duas e estar de pé às duas e quinze.
Naquela tarde, com os olhos ainda vermelhos, sentou-se à mesa, abriu o notebook velho e fez login numa conta que não acessava havia dois anos. A loja online. Ateliê da Renata, ela tinha chamado, sem nenhuma criatividade, quatro anos antes. Ainda estava lá, congelada no tempo, com a última venda registrada numa data que parecia de outra vida.
A senha funcionou na terceira tentativa.
Tia Sônia apareceu no fim daquela tarde, como se tivesse sentido pelo ar que o dia tinha sido pesado. Não perguntou se Renata estava bem — olhou para os olhos vermelhos e entendeu sozinha. Em vez de pena, trouxe utilidade: sentou-se à mesa, puxou o caderno de receitas para perto e começou a ler as fórmulas em voz alta, como quem confere uma lista de compras.
— Esse de café, o que você precisa pra fazer dez?
— Tia, eu nem sei se vou conseguir vender dez...
— Eu não perguntei isso. — Os óculos da tia escorregaram no nariz. — Perguntei o que você precisa pra fazer dez. Uma coisa de cada vez. Primeiro a gente faz. Depois a gente vende. Depois a gente se preocupa. Nessa ordem, senão a cabeça da gente come a gente viva.
E assim, naquela cozinha, com a barriga apoiada na mesa e a tia anotando a lista de materiais com a letra grande, Renata fez a primeira coisa concreta desde a manhã: um pedido de compra de matéria-prima. Óleo, essência, soda, manteiga de karité. Calculou o custo. Dividiu pelo número de barras. Achou o preço. Cada conta era um tijolo, e ela estava, literalmente, no chão, reconstruindo de tijolo em tijolo.
Renata olhou para a vitrine virtual empoeirada — as fotos antigas dos sabonetes, a descrição que ela mesma tinha escrito —, pegou o caderno de capa dura e escreveu na página de planos uma frase que não era um sonho, era uma decisão:
A loja volta. Esta semana.
Não "algum dia". Não "quando eu estiver melhor". Esta semana. Porque ela tinha aprendido, no chão da cozinha, que esperar estar inteira para começar era um luxo que mulher nenhuma na situação dela podia se dar. Ela ia começar quebrada. E ia se montar de novo no caminho.
Mas antes da loja voltar, naquela mesma tarde, ela fez uma coisa pequena e decisiva: levou a máquina da varanda para dentro da casa. Tirou da varanda escondida, debaixo da lona, e pôs em cima da mesa da cozinha, no centro, onde antes ficava a fruteira. Não era mais um hobby guardado por vergonha num canto. Era o motor da casa agora, e ia ficar onde se vê.
Passou a tarde toda testando. O primeiro sabonete saiu torto, com bolha de ar. O segundo, com cheiro fraco demais. Renata anotou cada erro no caderno, como uma cientista teimosa, ajustando a proporção de essência, a temperatura, o tempo de cura. No quinto, a barra saiu lisa, firme, com o aroma de café batendo na hora certa. Ela cheirou, fechou os olhos, e soube — do jeito que a gente sabe das poucas coisas que sabe de verdade — que aquilo era bom o bastante para alguém pagar.
À noite, mandou a primeira foto desse sabonete — o quinto, o certo — para o status do aplicativo, com uma legenda curta:
"De volta à ativa. Encomendas abertas. 🤎"
Depois desligou o celular, porque não aguentaria ver se ninguém respondesse. Deitou com a mão na barriga e disse, em voz alta, para a filha que ainda não tinha nascido:
— A gente vai trabalhar muito, viu? Mas eu prometo que você vai nascer numa casa de pé.
