Capítulo 4
A primeira encomenda chegou três dias depois.
Foi uma vizinha do prédio, dona Marlene, do sexto andar, que queria seis sabonetes de café para dar de presente. Um pedido pequeno. Ridículo, do ponto de vista de qualquer plano de negócios sério. Vinte e quatro reais.
Renata leu a mensagem de pé na cozinha e teve que se segurar na bancada.
Não pelos vinte e quatro reais. Mas porque, pela primeira vez em meses, a coluna do caderno que estava vazia — o que entra — deixou de estar vazia. Ela escreveu, com a caneta meio trêmula: R$ 24,00 — D. Marlene — 6 un. café. E aquele número, ridículo e pequeno, era a coisa mais bonita que ela tinha visto escrito no próprio punho em muito tempo.
Embrulhou os seis sabonetes com um capricho que o pedido nem exigia. Cada um num papel kraft, com um barbante, com um cartãozinho escrito à mão. Entregou pessoalmente, dois andares acima, e quando dona Marlene elogiou o cheiro, Renata guardou o elogio do jeito que guardava tudo agora — como matéria-prima.
Foi nessa mesma semana que Mateus voltou para buscar o resto das coisas.
Ele mandou mensagem antes, formal, quase educada demais: "Posso passar sábado pra pegar o que ficou? Levo só meia hora." Renata respondeu apenas "Pode", e separou tudo antes que ele chegasse. Os livros dele, um par de tênis, um carregador, duas camisas esquecidas no varal do banheiro. Pôs tudo em duas sacolas e deixou ao lado da porta.
Quando ele chegou, encontrou as sacolas prontas, e a si mesmo sem função. Tinha ensaiado, dava para ver, algum tipo de conversa. Algum modo de checar como ela estava, talvez se sentir um pouco melhor consigo mesmo, talvez — quem sabe — encontrar uma Renata abalada que confirmasse que ele tinha sido importante.
O que encontrou foi uma mulher grávida de cinco meses, de avental, com farelo de essência de café nas mãos, que abriu a porta, apontou as sacolas e disse:
— Tá tudo aí. Confere se falta alguma coisa.
— Renata... como você tá?
— Ocupada — ela disse. E não era grosseria. Era a verdade mais limpa que ela conseguia oferecer. Atrás dela, na mesa, dava para ver os sabonetes embalados, o barbante, os cartõezinhos. Uma pequena linha de produção numa cozinha de apartamento alugado.
Mateus olhou para aquilo. Por um segundo, alguma coisa passou pelo rosto dele — não dava para saber se era surpresa, ou desconforto, ou aquele incômodo específico de quem deixa para trás uma coisa e descobre que a coisa não desmoronou sem ele.
— Você tá... vendendo de novo? — perguntou.
— Tô fazendo de novo — Renata corrigiu. — Vender é a parte fácil.
Ele continuou parado, as sacolas numa mão, como se houvesse mais alguma coisa que ele tinha o direito de saber. E talvez fosse isso que mais incomodava nele — a certeza tranquila de que ainda tinha algum direito ali.
— A Karoline — ele começou, e parou, e recomeçou de um jeito mais cuidadoso. — A gente tá bem. Eu só... eu não queria que ficasse essa coisa ruim entre nós. Por causa do bebê.
Renata pousou a colher de mexer a base de sabonete na bancada. Olhou para ele com uma paciência quase generosa, do tipo que se tem por alguém que ainda não entendeu uma coisa óbvia.
— Mateus. Não tem "coisa ruim" entre nós. — Ela disse devagar, para que ficasse claro. — Pra ter coisa ruim, precisaria ter alguma coisa. E não tem mais. Você levou o que era seu. O que ficou é meu, inclusive ela. — Pôs a mão na barriga sem drama nenhum, como quem confirma um item numa lista. — Você vai ser pai dela. Isso eu não tiro de você nem dela. Mas pai é uma função. Não é uma porta aberta pra cá.
Ele ficou sem resposta. Tinha vindo preparado para mágoa, para acusação, talvez até para uma briga que o deixasse na confortável posição de vítima incompreendida. Não estava preparado para indiferença educada. A indiferença não dava a ele nada para empurrar de volta.
Ele pegou as sacolas. Demorou na porta um instante a mais do que precisava.
— Se você precisar de alguma coisa pro bebê...
— Eu vou precisar de muita coisa pro bebê — ela disse, calma. — E vou conseguir cada uma delas. Boa sorte com a mudança, Mateus.
Fechou a porta pela segunda vez. E dessa vez não doeu nada — não porque ela estivesse anestesiada, mas porque do outro lado da porta, na mesa, tinha trabalho esperando.
Naquela noite, depois de despachar a encomenda da semana, Renata tirou um print da tela do aplicativo: três pedidos novos, dois deles de desconhecidas que tinham achado o perfil pelo status de uma amiga. Mandou a imagem para Tia Sônia, sem texto nenhum.
A tia respondeu com um único emoji de fogo. E depois: "Isso é só o começo, mãe. Você ainda não viu do que é capaz."
Renata olhou para o print, para os três nomes de mulheres que ela não conhecia e que tinham, por vontade própria, decidido comprar algo feito pelas mãos dela.
E pela primeira vez desde a terça-feira no chão da cozinha, a pergunta que a mantinha acordada à noite mudou de forma. Não era mais será que eu sobrevivo a isso?
Era até onde isso pode ir?
