
LAÇO DE FERRO
A.C. Borges · Atualizando · 123.0k Palavras
Introdução
Só que o Romeu Ferraz não é o bêbado inútil que todo mundo pensa. E ninguém quer me explicar por que foi ele quem exigiu meu nome no acordo.
Na noite do casamento, ele me deu uma regra e nenhuma explicação: "Ninguém encosta em você." Nem ele — a não ser que eu deixe.
Devia ser um alívio. Mas enquanto durmo trancada do lado de fora do escritório dele, escuto passos que não são os meus e uma reputação de playboy que não bate com o homem que faz político engolir seco só de olhar.
Alguém está de olho em mim. Meu marido sabe quem. Meu pai sabe mais do que devia. E eu não sei se o maior perigo é o inimigo que ninguém nomeia — ou o desejo que eu sinto pelo homem que talvez só tenha me comprado pra me proteger.
Meu pai decidiu meu destino. Meu marido decidiu as regras.
Eu ainda não decidi se vou deixar algum dos dois vencer.
Capítulo 1
POV: Aurora Montenegro
— Você não pode estar falando sério.
Meu pai nem levantou os olhos do copo de uísque.
— Estou.
— Então vocês enlouqueceram.
— O jantar é amanhã.
Ri. Não porque tivesse graça — porque era a única coisa que impedia minha cabeça de explodir naquele momento.
— Jantar? Pra quê, decidir a decoração do meu funeral?
— Pra anunciar o noivado.
Dei dois passos para dentro da sala, a chave do carro ainda cravada entre os meus dedos. Minha mãe continuava sentada na poltrona de linho perto da janela, com as mãos repousadas sobre o colo e a coluna perfeitamente reta. Ela não bebeu café, não mexeu no anel de esmeralda e não me olhou nos olhos. Os olhos claros dela estavam cravados na tapeçaria antiga da parede, impassíveis.
Ela já sabia de tudo. Provavelmente há dias.
— O acerto com os Ferraz foi fechado hoje à tarde — meu pai continuou, com uma calma burocrática que me dava nos nervos, enquanto servia mais dois dedos de uísque no copo de cristal. — Vamos unificar os contratos de logística da praça e abrir uma rota direta até o porto de Vitória.
— Que ótimo para a construtora — disparei, sentindo o sangue ferver. — E em que linha dessa papelada você colocou a sua filha como moeda de troca?
Otávio Montenegro virou-se devagar.
Aos cinquenta e oito anos, ele carregava o peso de quem comandava concessões públicas e acordos políticos em Minas Gerais antes mesmo de eu nascer. Mas naquela noite não havia a arrogância habitual no rosto dele. Havia uma sombra cinzenta sob os olhos e um cansaço que parecia corroer a postura impecável dele por dentro.
— Você é uma Montenegro, Aurora — ele disse, baixo e firme. Nem precisou levantar o tom. — E o sobrenome que você carrega custa caro para se manter limpo nessa cidade. Três gerações antes de você viveram dessa forma para garantir a estrutura que você usufrui hoje.
— Eu terminei a faculdade mês passado, pai! Eu tenho a minha vida, os meus projetos. Você não pode simplesmente me colocar numa mesa de negociação como se eu fosse cabeça de gado de leilão.
— Não é leilão. É uma aliança.
— É a minha vida!
— É a sobrevivência da nossa família.
Virei o corpo em direção à poltrona.
— Mãe? Você vai ficar aí calada? Vai deixar ele me vender desse jeito?
Helena respirou fundo, puxando o ar de forma lenta, calculada. Ela ajeitou a manga de seda da blusa e finalmente ergueu o rosto.
— Seu pai sabe o que é melhor para a nossa casa, Aurora. Não torne as coisas mais difíceis do que já são.
Trinquei os dentes para não gritar. A frieza com que ela falou aquilo ardeu mais do que qualquer bronca de infância. Naquela casa, o sentimento nunca entrava na pauta quando o assunto era patrimônio.
— O jantar é amanhã, às sete, na sede da fazenda deles — meu pai retomou, pegando a pasta de couro sobre o aparador. — Quero você pronta no horário. Use o vestido azul-marinho.
— Eu não vou.
Otávio parou no meio do caminho. Olhou para mim de cima a baixo, sem hesitar.
— Você vai. E vai entrar de cabeça erguida, com a postura impecável que sua mãe passou vinte e quatro anos ensinando a você. Se der qualquer escândalo ou fizer qualquer comentário fora de hora, o prejuízo da construtora vai ser o menor dos nossos problemas. E você sabe muito bem como os Ferraz resolvem as coisas quando alguém quebra a palavra.
A ameaça ficou suspensa entre nós. Seca. Direta.
Tentei puxar pela memória qualquer brecha, qualquer saída no meio daquele absurdo. Eu conhecia o poder do meu pai, mas também conhecia as regras de Serra do Ferro. Ninguém rompia um pacto firmado entre as famílias fundadoras sem pagar uma conta altíssima.
Tentei mudar de rota. Tentei apelar para o que ainda parecia controlável.
— Se é pelos negócios... Se essa aliança é inevitável por causa da rota da transportadora... — Minha voz falhou por um segundo, mas me obriguei a continuar. — O Nicolas e eu somos amigos desde os dez anos. A gente cresceu junto. Se for com o Nicolas, pelo menos dá para conversar, dá para estabelecer limites e...
Meu pai soltou um suspiro pesado e balançou a cabeça.
— Quem disse que o noivo é o Nicolas?
O ar travou na minha garganta. Encarei meu pai, tentando achar alguma piada de mau gosto no rosto dele, mas ele sustentou o olhar sem piscar
— O quê?
— O noivo não é o Nicolas.
Encarei meu pai sem entender. A família Ferraz só tinha dois herdeiros da nossa idade. Se não era o Nicolas, a única outra opção era...
— O Romeu? — Minha voz saiu quase inaudível. — Você tá me entregando pro Romeu Ferraz?
Otávio não respondeu de imediato. Apenas desviou os olhos para a janela escura.
— Você perdeu o juízo de vez! — Dei um passo largo para trás, gesticulando. — O Romeu não pisa numa reunião da diretoria da família há anos. A cidade inteira sabe o que ele faz. Vive de festa em festa, bêbado, com uma mulher diferente a cada fim de semana! Ele é o problema daquela família, pai! Todo mundo sabe que o Augusto não confia nada nas mãos dele!
— A reputação dele não diz respeito a você — meu pai rebateu, a voz endurecendo. — Ele é o herdeiro mais velho. O sobrenome dele tem peso e as terras dele fecham o corredor que a gente precisa para descer a carga até o porto.
— Isso não faz sentido! O Nicolas nunca concordaria com isso. Ele é meu melhor amigo, ele sabe exatamente quem o irmão é! O Nicolas nunca deixaria vocês fazerem isso comigo!
Pela primeira vez naquela conversa, meu pai deixou a calma de lado. Ele arremessou a pasta sobre o aparador e me encarou de frente.
— O Nicolas estava sentado na mesa ontem, Aurora. Ele assinou a ata como testemunha da família Ferraz. Ele sabia de cada vírgula antes de você sonhar que esse acordo existia.
Fiquei estática.
O Nicolas. O menino que andava a cavalo comigo na fazenda nas férias. O único homem naquela cidade em quem eu confiava de olhos fechados fora dos muros desta casa.
Ele esteve lá. Ele viu o contrato ser fechado e não me mandou uma única mensagem.
O ar da sala pareceu pesar de repente. Fechei as mãos com força, cravando as unhas nas palmas até sentir dor. Eu não choraria na frente do meu pai. Muito menos da minha mãe. O orgulho que herdei dos Montenegro era tudo o que me mantinha de pé.
— Por que eles aceitariam isso? — perguntei, a voz saindo áspera da garganta. — O Augusto Ferraz nunca aceitaria que o filho mais velho casasse comigo só por uma concessão de estrada. O que você deu em troca pra eles amarrarem o herdeiro deles a mim?
Otávio ajeitou o colarinho da camisa social. Aquele cansaço estranho voltou a pesar nos olhos dele antes de soltar a resposta:
— Não foi o Augusto quem pediu, Aurora.
Franzi a testa.
— O quê?
— O Augusto queria colocar o Nicolas no contrato — meu pai revelou em voz baixa. — Mas o Romeu interveio na reunião. Ele exigiu que o casamento fosse com ele. Disse que se não fosse você, e se não fosse com ele, a transportadora não assinava contrato nenhum com a gente.
O silêncio engoliu a sala.
Minha mãe não se moveu. Meu pai virou as costas e começou a caminhar em direção ao escritório no fim do corredor, deixando a porta entreaberta atrás de si.
Fiquei sozinha no centro da sala.
Romeu Ferraz. O homem que mal olhava na minha cara nos eventos do clube, o herdeiro perigoso e imprevisível que a cidade inteira tratava como uma bomba-relógio, tinha colocado o meu nome na mesa de negociações.
Ele me exigiu.
Apertei a chave do carro na palma da mão até o metal machucar a minha pele. Meu pai tinha acabado de decidir o meu destino, Mas uma pergunta não saía da minha cabeça:
Por que diabos Romeu Ferraz escolheu justamente a mim?
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