Capítulo 3
Eileen
– A aposta – disse Blake, como se fosse óbvio. Ele olhou pra mim com o tipo de divertimento que você teria vendo um animal treinado fazer truque.
– Quando a gente te viu naquele jardim de ervas no semestre passado, eu falei que não tinha como o Derek fazer qualquer garota aleatória se apaixonar por ele. Você parecia tão tímida, tão frágil. Mas o Derek insistiu que ia ser fácil. Então a gente fez uma aposta: se ele conseguisse fazer você realmente se declarar, se expor de verdade e passar vergonha, ele ganhava a jaqueta de couro vintage do meu avô, das campanhas do Norte.
Ele deu um tapa no ombro do Derek.
– Parece que você ganhou. Ela até fez um cartão pra você.
Não. Eu me virei pro Derek, desesperada pra ele negar, pra mostrar um mínimo traço da gentileza à qual eu tinha me agarrado por quase um ano.
Mas o Derek só ficou sentado ali, com o cartão pendurado entre os dedos, a expressão cuidadosamente neutra. Nem envergonhado. Nem arrependido. Só… esperando aquilo acabar.
– Derek? – Minha voz falhou no nome dele. – Diz que ele tá mentindo. Por favor.
Não significou nada.
As palavras me atingiram como água gelada. Eu olhei pro Derek – olhei de verdade – e, pela primeira vez em um ano, enxerguei ele com clareza. Não o príncipe do jardim de ervas. Só um Beta que achava que crueldade era brincadeira.
Um ano. Eu tinha desperdiçado um ano inteiro com aquilo.
– Me devolve. – Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. – O cartão. Eu quero ele de volta.
O Derek piscou, claramente surpreso por eu ainda estar ali. Ele estendeu o cartão, e eu fui pegar quando—
– Derek! Até que enfim achei você! – A voz de uma garota cortou a névoa, brilhante e afiada como vidro quebrado.
Celeste Frost surgiu num rodopiar de seda branca como luar, o rosto perfeito se iluminando quando viu ele. A queridinha da academia. Claro.
O olhar dela pousou no cartão ainda na mão do Derek, e algo mudou na expressão dela – não exatamente ciúme, mas bem perto disso. Ela arrancou o cartão dos dedos dele antes que eu pudesse reagir, lendo as palavras com um sorriso que fez minha pele se arrepiar.
– Ah. – A voz dela pingava falsa simpatia. – Que… fofo.
Ela ergueu o cartão, e eu vi o cuidadoso papel azul sendo alcançado pela luz do fim de tarde – as flores-da-lua que eu tinha colhido à meia-noite, a caligrafia que eu pratiquei até a mão travar, o lobinho que eu desenhei e redesenhei até ficar do jeito certo.
Aí ela soltou.
O cartão flutuou até o chão, caindo numa poça da chuva de ontem. Eu vi a água se infiltrando no papel, vi a tinta começar a borrar e se espalhar, vi as pétalas das flores-da-lua escurecendo e encolhendo.
– A Dança da Lua é pra lobos de verdade – disse Celeste suavemente, se enfiando ao lado do Derek. – Você entende, né?
Ao nosso redor, eu ouvi os sussurros começando. Vi comunicadores sendo levantados, flashes disparando. Alguém riu – um riso agudo, claro e cruel.
Eu não conseguia respirar. Não conseguia me mexer. Só conseguia encarar aquele cartão arruinado se desfazendo na água suja, meu ano de esperança virando polpa e manchas de tinta.
– Eileen. – A voz do Derek era fria, definitiva. – Você precisa ir embora. Você tá se humilhando.
Me humilhando. Não desculpa. Não isso saiu do controle. Só – você precisa ir embora.
– Desculpa – ouvi a mim mesma sussurrar, embora eu já nem soubesse pra quem estava pedindo desculpas. Pra minha família, por existir? Pro Derek, por ter acreditado nas mentiras dele? Pra mim mesma, por ser tão pateticamente fácil de enganar?
Então eu simplesmente corri.
Eu não ouvi a risada da Celeste. Não ouvi os comentários zombeteiros do Blake. Não ouvi o Derek dizer uma única palavra em minha defesa – porque é claro que não. Por que ele diria? Eu era a piada, não alguém que valesse a pena proteger.
Corri passando pela arena onde eu tinha visto ele ganhar luta após luta, pela biblioteca onde eu tinha guardado cada sorriso acidental como um tesouro, pelo jardim de ervas onde todo aquele pesadelo tinha começado. Minha visão embaçou com as lágrimas que eu tinha jurado que não ia chorar, minha garganta se fechando em volta de soluços que eu não conseguia engolir.
Uma aposta. Era tudo uma aposta. Cada palavra gentil, cada sorriso suave, cada momento que eu tinha guardado como se fossem joias preciosas — ele só estava jogando por causa de uma jaqueta.
Os pensamentos vinham com a voz da minha mãe, com os suspiros decepcionados do meu pai, com a crueldade casual do Gareth. Sem lobo. Sem valor. Por que você sequer existe?
Talvez eles estivessem certos. Talvez eu realmente não fosse nada.
Só percebi que tinha chegado à borda da floresta quando minhas pernas cederam.
Os terrenos da academia tinham ficado para trás — os gramados bem cuidados deram lugar ao mato alto, o mato alto deu lugar a pedras cobertas de musgo que brilhavam fracamente no crepúsculo. As árvores ali eram antigas, seus galhos se entrelaçando acima da minha cabeça num dossel tão denso que a luz morrente do sol mal conseguia atravessar, filtrando em padrões estranhos, dançantes, que pareciam quase deliberados.
Os Bosques Sussurrantes. A zona proibida. O lugar onde estudantes podiam desaparecer.
Eu devia voltar. Devia retornar antes de anoitecer de vez, antes que o que quer que rondasse aquelas árvores decidisse que uma garota chorando e sem lobo era uma presa fácil.
Mas voltar pra quê?
Pra um dormitório onde todo mundo saberia, até de manhã, que Eileen Wylde tinha se feito de idiota? Pra aulas onde eu teria que sentar três fileiras atrás do Derek e fingir que meu coração não estava em pedaços? Pra uma família que nunca me quis de verdade?
Pressionei as palmas das mãos contra os olhos, tentando parar as lágrimas, mas elas não paravam. Soluços grandes, feios, que rasgavam do meu peito e ecoavam na floresta silenciosa.
Estou tão cansada. Cansada de tentar ser boa o bastante. Cansada de ter esperança de que alguém realmente me queira. Cansada de existir como decepção. Pelo menos hoje à noite.
Por um longo momento, deixei que eu mesma desabasse. Deixei o luto escorrer até minha garganta ficar em carne viva, meus olhos inchados, e não sobrar nada além desse cansaço oco, dolorido.
Então, devagar, fui percebendo o silêncio.
Nenhum pássaro. Nenhum inseto. Nenhum farfalhar na vegetação baixa. Só o sussurro do vento nas folhas antigas — um som que era quase, mas não exatamente, como vozes dizendo palavras que eu não conseguia entender.
Ergui a cabeça, enxugando o rosto com as mãos trêmulas. Foi então que senti o cheiro.
Cedro e menta, intenso, limpo e totalmente estranho. Por baixo disso, algo mais escuro — doce de cobre, parecido com sangue, mas não exatamente. O aroma me envolveu como mãos invisíveis, e meu coração, que finalmente tinha começado a desacelerar, disparou de novo.
Corre, a parte racional do meu cérebro gritava. Corre AGORA.
Mas eu não corri. Não conseguia correr. Porque, misturado ao medo, havia outra coisa — um chamado, um reconhecimento, como se meu corpo conhecesse aquele cheiro, mesmo eu nunca tendo sentido aquilo antes.
Meus olhos começaram a arder. Não de lágrimas dessa vez, mas de calor — um calor estranho, formigante, que fazia as sombras parecerem menos escuras, fazia o luar que atravessava o dossel parecer quase vivo.
Cambaleei até uma poça ali perto, precisando ver o que estava acontecendo comigo. No reflexo trêmulo, vi um vislumbre do meu próprio rosto — e congelei.
Minhas íris estavam brilhando. Uma luz prateada fraca, pulsando junto com meu coração, como luar preso debaixo da superfície.
Impossível. Pessoas sem lobo não — a gente não podia —
Mas estava ali. Incontestável.
O cheiro ficou mais forte e, com ele, veio aquele puxão — insistente, irresistível, como se um fio estivesse enrolado nas minhas costelas e me puxando para o fundo da floresta.
Para, minha mente implorava. Por favor, Eileen, para de andar.
Mas meus pés já estavam em movimento. Seguindo aquele cheiro impossível pela escuridão. Seguindo em direção a algo que a parte racional de mim berrava que era perigoso, mas que o meu corpo parecia reconhecer como necessário.
Como destinado a ser.
