Capítulo 4

Eileen

O cheiro ficava mais forte a cada passo, se enrolando em mim como vinhas invisíveis. Cedro e hortelã, sim, mas por baixo havia algo mais rico, mais escuro. Como se o luar tivesse ganhado forma, como o primeiro sopro de uma manhã de inverno, como nada que eu já tivesse encontrado nos meus estudos cuidadosamente catalogados sobre jardins de ervas.

Minha mente racional estava gritando. Volta. Corre. Isso é perigoso.

Mas o meu corpo não obedecia. Meus pés se moviam por conta própria, me levando para dentro da floresta ancestral, onde o luar filtrava pelas folhas em padrões que pareciam quase deliberados, quase planejados. O musgo sob meus sapatos brilhava num tom prateado suave e, quando toquei o tronco de uma árvore que passava para me equilibrar, senti calor sob a palma da mão, apesar do frio da noite.

O cheiro de sangue se intensificou. Não o gosto metálico e simples de um ferimento qualquer, mas algo mais podre — corrupção, veneno, a morte se infiltrando em tecido vivo.

Empurrei uma última cortina de cipós, e a floresta se abriu em uma clareira que eu não deveria ter sido capaz de encontrar. Antigas pedras erguidas cercavam o espaço, cada uma gravada com fases da lua que pulsavam com uma luz suave. No centro delas, sob as raízes retorcidas de um carvalho enorme, jazia um lobo.

Não um lobo qualquer. Mesmo caído e à beira da morte, dava para ver que era um Alfa — o tamanho por si só entregava. Facilmente três vezes maior do que qualquer lobo que eu tinha visto nos estudos de transformação, com uma pelagem preto-prateada que parecia absorver e refletir o luar ao mesmo tempo. Profundos talhos marcavam suas costelas e ancas, a carne ao redor de cada ferida num tom roxo-escuro, quase preto, que gritava veneno para cada instinto de cura que eu possuía.

Corre, minha mente implorou uma última vez. Esse é um Alfa. Um Alfa morrendo é a coisa mais perigosa nessas matas. CORRE.

Em vez disso, caí de joelhos ao lado dele.

O peito do lobo mal subia e descia. Seus olhos — de um azul-gelo, mesmo na escuridão que se adensava — estavam semicerrados, a consciência escorregando para longe. Ao nosso redor, a clareira trazia as cicatrizes de um combate recente: marcas de garras cravadas na pedra ancestral, casca arrancada de árvores, trechos de chão queimados de preto com o padrão característico de fuligem do veneno das sombras.

Invasores de fronteira. Os textos de cura tinham nos alertado sobre as toxinas deles — de ação rápida, brutais, feitas para corromper por dentro. Sem tratamento antes do amanhecer, quando a luz do sol ampliaria os efeitos do veneno...

Minhas mãos se moveram antes que eu pudesse hesitar. Rasguei uma faixa da barra da minha saia, usando-a para limpar o pior do sangue envenenado. A respiração do lobo estava lenta demais, a temperatura do corpo caindo, as pupilas dilatadas apesar do luar — todos sintomas clássicos de veneno das sombras em estágio avançado.

Vinha-da-lua, folha-de-prata e pedra-da-lua triturada, minha mente recitou automaticamente. Misturadas com orvalho e abençoadas sob a lua cheia para máxima potência, mas estamos um dia adiantados, então a eficácia vai ser reduzida, só que ainda é melhor do que nada...

Olhei ao redor, desesperada. A Floresta Sussurrante era sagrada para a Deusa da Lua — se esses ingredientes existissem em algum lugar, seria ali. E existiam. Fragmentos de pedra-da-lua estavam espalhados entre as pedras erguidas, provavelmente arrancados na luta. A vinha-da-lua subia pelo carvalho ancestral, suas folhas brilhando levemente. A folha-de-prata crescia nas sombras, seu brilho inconfundível.

Trabalhei com uma intensidade focada que eu só tinha sentido no jardim de ervas, recolhendo e preparando tudo com mãos que mal tremiam, apesar do coração disparado. Usei uma pedra lisa para moer a pedra-da-lua, ignorando o jeito como as bordas afiadas cortavam minhas palmas. Colhi as partes mais potentes da vide-lunar, espremendo a seiva luminosa. Arranquei com cuidado a folha-de-prata, preservando a essência concentrada nas raízes.

Quando misturei tudo sobre uma folha larga, usando o orvalho que eu tinha coletado para afinar a pasta, me peguei sussurrando palavras que eu tinha aprendido sozinha em Teoria Avançada de Cura — uma oração antiga que eu nunca tinha pronunciado em voz alta: “Mãe Lua, concede cura, afasta a sombra...”

A mistura começou a brilhar. E minhas mãos também.

Fiquei olhando para as minhas palmas, para a luz prateada emanando da minha pele, e senti algo antigo despertar no meu peito. Mas não havia tempo para processar aquilo — a respiração do lobo tinha ficado ainda mais difícil, cada exalação mais fraca que a anterior.

“Por favor, não morre”, murmurei, acolhendo a enorme cabeça em meu colo. “Eu não atravessei a floresta inteira até aqui só pra ver você morrer.”

Colocar a mistura na boca dele foi um desafio — aquelas presas eram assustadoramente afiadas, cada uma mais comprida que meu dedo. Mas consegui forçar as mandíbulas a se abrirem o suficiente, inclinando a cabeça dele para trás e derramando com cuidado o líquido brilhante pela garganta. Meus dedos roçaram na língua dele e—

Relâmpago.

É a única palavra possível. No momento em que minha pele tocou a boca dele, uma eletricidade explodiu pelo meu corpo inteiro. Não doída — o contrário. Como se cada termina­ção nervosa tivesse acordado de repente depois de uma vida inteira dormindo, como se meu sangue tivesse virado luz de estrela líquida, como se eu pudesse ouvir o coração da floresta se sincronizando com o meu.

Arfando, quase deixei a folha que usava de tigela cair, mas me obriguei a continuar despejando até a última gota.

O corpo do lobo convulsionou. O veneno roxo-escuro começou a fumegar e chiar à medida que a luz prateada o expulsava, os ferimentos se fechando lentamente sob minhas mãos. A pelagem dele começou a brilhar, cada fio parecendo pegar fogo com luar, e o contorno do corpo foi ficando difuso.

Eu recuei às pressas quando a transformação tomou conta. A forma do lobo se esticou, se remodelou, se condensou. A luz explodiu tão forte que eu tive que proteger os olhos.

Quando ela se apagou, um homem estava deitado onde antes estava o lobo.

Um homem nu.

O calor invadiu meu rosto. Levei as duas mãos aos olhos, mas meus dedos traidores se abriram só o suficiente para eu espiar por entre eles.

Ele era bonito de um jeito que fazia meu peito doer. Cabelo preto-prateado caía sobre traços que pareciam esculpidos em luar — maçãs do rosto marcadas, maxilar firme, lábios que, mesmo inconscientes, carregavam uma autoridade natural. O corpo era todo músculo magro e linhas elegantes, cada centímetro gritando Alfa.

E aquele cheiro. Deuses, aquele cheiro. Cedro e menta dominavam tudo, me envolvendo, entrando nos meus pulmões, fazendo minha cabeça girar e meu corpo ficar quente, estranho e—

Arranquei a jaqueta com as mãos trêmulas e a coloquei sobre ele. Pateticamente insuficiente, mal cobrindo alguma coisa, mas eu não podia simplesmente deixar ele assim—

“Só conferindo se tem mais ferimentos”, sussurrei, a voz quase inaudível. “Avaliação profissional.”

Minha mão se ergueu sem minha permissão, indo em direção a um corte pequeno na testa dele—

Os olhos dele se abriram num estalo.

Azul-gelo. Pupilas verticais. Olhos de predador cravados nos meus.

A mão dele se lançou para frente, fechando em volta do meu pulso. A outra acolheu a parte de trás da minha cabeça, os dedos se enroscando no meu cabelo.

Ele me puxou para baixo.

“Minha.”

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