Capítulo 6
Regis
Acordei com o canto dos pássaros e com a estranha leveza de um corpo que deveria estar destruído.
Por um momento fiquei imóvel, de olhos fechados, fazendo um inventário com a precisão metódica que me foi enfiada na cabeça por anos de treinamento de combate. Minhas costelas — que na noite passada tinham sido estilhaçadas por garras que deveriam ter perfurado um pulmão — se moviam livremente a cada respiração. O ferimento de flecha na coxa, que havia lançado veneno correndo em direção ao meu coração, não passava de uma dorzinha surda, como lesão antiga em manhã fria. Até os cortes profundos no abdômen, aqueles que eu tinha sentido rasgando músculo até o osso, tinham se fechado em cicatrizes altas que desapareceriam em poucos dias.
Impossível. Completamente impossível.
Eu já tinha passado tempo demais em campos de batalha para não saber exatamente quanto tempo levava pra se curar de veneno sombrio, mesmo com os melhores curandeiros que minha família podia chamar. Três dias, no mínimo, nas piscinas lunares de Vane Keep, com infusões de ervas constantes e trabalho de energia. O tipo de ferimento que eu tinha sofrido deveria me deixar fraco por semanas, se não me matasse de vez.
E ainda assim eu estava ali, inteiro e sem dor, deitado sobre um musgo macio em um círculo de pedras antigas, com o amanhecer rompendo pela copa acima.
Abri os olhos e me sentei com cuidado, meio esperando que o movimento revelasse algum dano oculto que minha avaliação inicial tivesse deixado passar. Nada. Só o frio da manhã na pele nua — eu ainda estava pelado por causa da transformação, minhas roupas reduzidas a trapos em algum lugar no caos da noite anterior — e o cheiro persistente de ervas no ar.
Foi então que eu vi. Os restos do que tinha salvo minha vida.
Espalhados ao meu redor estavam os restos murchos de vide de lua, suas folhas prateadas agora escurecidas nas bordas. Pétalas esmagadas de folha-de-prata, cuja luminescência habitual tinha se apagado até virar cinza. Um almofariz de pedra da lua vazio, a superfície interna marcada por traços de luz que pareciam pulsar de leve ainda agora. E ao lado, uma bolsa de pano com algumas ervas preparadas — o tipo de antídoto que exigia não só conhecimento, mas intuição para ser misturado direito em condições de campo.
Peguei o almofariz, virando-o nas mãos. O artesanato era grosseiro, claramente improvisado com materiais da floresta, mas o resíduo lá dentro contava uma história de proporções exatas e timing perfeito. Nem o nosso curandeiro-chefe lá em casa teria facilidade para preparar essa fórmula sob pressão, no escuro, com um paciente agonizando e suprimentos limitados.
Quem, em nome da deusa, tinha feito isso?
A pergunta mal tinha se formado quando eu percebi — um cheiro agarrado ao ar ao meu redor, entranhado no musgo sob meu corpo, persistindo na minha pele como uma carícia.
Camomila e doçura de maçã. Quente e suave e absolutamente perfeito, como luz de sol atravessando um campo de flores. Como voltar pra casa depois de uma vida inteira vagando. Como tudo aquilo que eu nunca soube que estava procurando.
Minha mão foi ao peito sem que eu pensasse, apertando contra a súbita tensão ali. Cada célula do meu corpo gritava reconhecimento, exigindo que eu encontrasse a fonte daquele cheiro, que rastreasse e nunca mais deixasse escapar.
Companheira.
A voz de Valdor explodiu na minha mente com a força de um trovão, e eu realmente estremeci com o simples volume da alegria dele. Ele sempre tinha sido uma presença constante, um parceiro na minha mente desde a minha primeira transformação aos dezesseis anos — dois anos antes do normal, graças ao meu sangue de alfa. Lutamos juntos, caçamos juntos e tomamos decisões juntos com um tipo de unidade tão perfeita que deixava outros guerreiros com inveja.
Mas eu nunca o tinha ouvido assim. Selvagem. Exultante. Absolutamente certo.
“COMPANHEIRA! Finalmente, finalmente, finalmente! Nós esperamos treze anos! Ela é perfeita — o cheiro, o toque, o jeito que ela salvou a gente, o jeito que ela respondeu —” Ele praticamente uivava dentro da minha cabeça, andando em círculos como se quisesse arrebentar pra fora e sair correndo atrás dela naquele instante. “Ela é NOSSA! Você sente isso? Você entende o que isso significa?”
Eu sentia. Esse era o problema.
Porque junto com o cheiro veio outra coisa — um pedaço de tecido, dobrado com cuidado e colocado ao lado de onde minha cabeça estivera. Uma jaqueta fina, gasta de tão usada, ainda guardando vestígios do calor do corpo dela. Meus dedos tremiam de leve quando a peguei e, no instante em que o tecido tocou minha pele, Valdor ficou em silêncio com uma satisfação tão profunda que beirava a arrogância.
O cheiro se intensificou. Camomila e maçãs e algo que era unicamente ela e, por baixo de tudo, o traço mais sutil de... medo. Confusão. Vergonha.
Minha garganta se fechou. Minhas presas se alongaram sem permissão, meu lobo avançando com um rosnado de fúria possessiva pura. Alguém machucou ela. Alguém deixou ela com medo. Encontra. Protege. TOMA—
— Não. — Arranquei a palavra por entre os dentes cerrados, empurrando Valdor para trás com mais força do que jamais tinha precisado. — Não, a gente não tem esse direito.
— Ela é NOSSA! — ele rosnou de volta, lutando contra o meu controle. — O vínculo tá aí, eu consigo sentir, você consegue sentir, ela aceitou a gente—
— A gente nem sabe o nome dela! — As palavras saíram mais ásperas do que eu pretendia, ecoando nas pedras em pé ao meu redor. Puxei o ar, tentando acalmar a disparada do meu coração, o impulso de mudar, de caçar, de achar. — A gente não sabe quem ela é. O que ela é. Se ela sequer queria—
O pensamento morreu quando a memória desabou sobre mim em fragmentos — lembranças de Valdor sangrando através da nossa consciência compartilhada. Mesmo enquanto o veneno sombrio me arrastava para baixo, meu lobo tinha se agarrado de volta à consciência, se recusando a nos deixar indefesos.
Ela ajoelhada ao meu lado, mãos pequenas e gentis nos meus ferimentos. O gosto de ervas amargas sendo forçadas pela minha garganta, a voz dela murmurando palavras que eu não conseguia distinguir direito — orações, talvez, ou cantos de cura. O calor das palmas dela pressionadas contra as minhas feridas e, com isso, uma sensação como de luz do sol inundando minhas veias, queimando o veneno sombrio com uma intensidade que não deveria ser possível.
Depois, a mudança. A desorientação de voltar à forma humana sem ter tido a intenção, meu corpo fraco demais para manter o lobo. O suspiro assustado dela. O farfalhar de tecido quando ela me cobriu com a própria jaqueta, as mãos checando meu pulso com eficiência profissional, mesmo com o coração dela batendo tão alto que eu conseguia ouvir.
E então — deusa me ajude — o momento em que abri os olhos de verdade.
Lembrei de como ela ficou imóvel quando segurei o pulso dela. Do jeito que os olhos dela se arregalaram — de alguma cor clara, cinza ou azul, eu não conseguia lembrar direito — quando a puxei para os meus braços. Da palavra que rasgou a minha garganta antes que eu pudesse impedir: — Minha.
Lembrei de ter beijado ela. De provar o arquejo surpreso que derreteu em resposta. De sentir os dedos dela cravando nos meus ombros, não empurrando para longe, mas puxando para mais perto, como se ela também sentisse. Aquela certeza. Aquele encaixe perfeito. Aquela necessidade avassaladora de—
Minha mão foi à boca, e eu senti. Fraco, quase sumido, mas inconfundível. O gosto cobreado e doce do sangue dela nas minhas presas.
Eu tinha marcado ela.
A constatação me acertou como um golpe físico, arrancando o ar dos meus pulmões. Eu realmente a tinha marcado. Tinha reivindicado ela como minha da forma mais permanente possível, ligando a gente com um laço de parceiro que não podia ser desfeito, não podia ser ignorado, não podia ser explicado de outro jeito que não aquilo que era.
E eu tinha feito isso quase inconsciente. Guiado pelo instinto, pelo veneno e pelo reconhecimento avassalador de parceira que atropelou cada centímetro do controle que eu passei a vida inteira cultivando.
— Ela não rejeitou — Valdor insistiu, o tom mudando de agressivo para quase suplicante. — Você lembra. Ela quis. O corpo dela disse sim. A loba dela—
— Ela não tem loba. — As palavras saíram secas, definitivas, e Valdor ficou totalmente imóvel. — Eu teria sentido. Teria percebido a mudança, ou visto o brilho nos olhos. Ela é... — engoli em seco. — Ela é sem-loba. Ou, no mínimo, ainda não mudou.
O que tornava tudo muito pior. Porque lobos sem lobo eram raros, muitas vezes olhados de cima, às vezes até expulsos das próprias matilhas. E eu, Regis Vane, herdeiro de uma das linhagens de Alfa mais antigas do território, futuro chefe da minha família, tinha marcado uma delas como minha parceira sem o consentimento consciente dela.
A vergonha queimava como ácido no meu estômago.
