Capítulo 2 A oferta
George soltou um suspiro curto, e a expressão dele assumiu o mesmo ar de desculpa de que ela se lembrava.
— Receio que não — disse ele. — Só um segundo.
Ele pegou o telefone, apertou um botão e esperou. Amelia baixou o olhar para o crachá do Bellamy, para a linha elegante do macacão preto, para o cordão laranja-vivo sobre o balcão que, de algum jeito, parecia mais invasivo do que qualquer outra coisa que ela estivesse vestindo.
Depois de uma breve troca de palavras, George desligou e se inclinou para remexer embaixo da mesa.
— Pronto, você está liberada. — Ele colocou um crachá no balcão. — Passe temporário de visitante. Isso vai te levar aonde você precisa ir — pelo menos por hoje.
O cordão laranja-neon era impossível de ignorar.
— Discreto — murmurou ela, passando-o pela cabeça.
George abriu um sorriso.
— Ei, não fala mal do protocolo de segurança. Faz eu parecer importante.
Ela sorriu.
— Você não precisa de um cordão pra isso.
Ele apoiou o cotovelo no balcão, semicerrando os olhos para ela.
— Então, o que você anda fazendo? Acho que vi seu nome em algumas publicações… alguma coisa sobre um projeto de caridade?
— O programa de artes para crianças — disse ela, ajeitando o crachá para que ficasse bem assentado sobre o macacão. — A gente está trabalhando numa gala há meses. É amanhã à noite.
A expressão de George se iluminou, reconhecendo.
— É, foi esse mesmo que mencionaram no noticiário da manhã. Parece que vai ser um evento e tanto. Você está fazendo uma diferença de verdade com isso.
— Essa é a ideia — respondeu Amelia, num tom caloroso, mas modesto.
— Sempre soube que você era das boas — disse George, com um sorriso.
Eles conversaram mais um instante antes de ela seguir em direção aos elevadores, o clique de seus saltos altíssimos ecoando suave pelo saguão de mármore.
O escritório de esquina de Carl, com paredes de vidro, no trigésimo primeiro andar, estava vazio quando ela chegou. Amelia entrou, tirou o casaco cor de pele dos ombros e o deixou sobre o encosto de uma cadeira de visitantes.
Sentou-se cruzando as pernas, e o tecido do macacão preto justo se alisou sobre as coxas. As pernas afuniladas abraçavam até os tornozelos, onde laços bem-feitos arrematavam a barra — um detalhe pequeno e delicado que fazia o visual inteiro parecer propositalmente feminino.
Seus saltos — altíssimos, brilhantes, de sola vermelha — captavam a luz toda vez que ela se mexia. Ela folheou uma revista de design sobre a mesa de centro, mas a mente se afastou. Para a gala. Para amanhã à noite. Para o fio de paciência cada vez mais fino que ainda lhe restava para o casamento.
A porta se abriu de repente.
Carl entrou a passos largos, no meio de uma frase, com o Bluetooth ainda na orelha.
— Diz pra eles que, se quiserem a sinalização no último andar, eles pagam por— — Ele interrompeu a frase, tirando o dispositivo da orelha quando os olhos pousaram nela.
Ele parou.
O olhar dele desceu até os sapatos… subiu pela linha longa e limpa das pernas… pela cintura marcada do macacão… pelas mangas longas e ajustadas… e, por fim, chegou ao rosto dela.
— O que — disse ele devagar — você está vestindo?
Amelia piscou uma vez.
— Bom dia pra você também.
— Isso não é o que você estava vestindo hoje de manhã.
— Não — ela concordou, com a voz serena. — Não é.
A expressão dele se contorceu entre nojo e incredulidade. “Você parece que vai pra algum tipo de boate.”
Ela não conseguiu evitar; o canto da boca se ergueu. “Se é isso que você acha que as mulheres usam pra ir a boate, você está por fora há muito, muito tempo.”
Ele lançou um olhar fulminante. “Amelia.”
“Falando sério, Carl”, disse ela, levantando-se com uma graça tranquila, “isso é um macacão de manga comprida. Não está aparecendo nada. É ajustado, não obsceno.”
O olhar dele desceu de novo, claramente pouco convencido. Ele abriu a boca como se fosse continuar a discussão, mas em vez disso conferiu a hora e fechou a cara, calando-se.
“Não temos tempo pra isso”, resmungou. “Vamos. O escritório do Bryson.”
Ele pegou uma pasta em cima da mesa e seguiu para o corredor. Ela colocou o casaco sobre um braço — e foi atrás.
A subida no elevador foi em silêncio.
Carl encarava reto à frente, o maxilar tenso. Ela não tinha a menor intenção de jogar mais lenha na fogueira que já estava queimando nele naquela manhã. Ela escolhia suas batalhas, e aqui, agora, essa não era uma delas.
As portas se abriram no andar do Bryson exatamente quando o elevador do outro lado do saguão apitou.
Nadia saiu.
Os saltos dela estalaram secos no mármore, a postura ereta, as feições compostas. Ela trazia um envelope pardo preso sob um braço — do tipo que o RH usava para demissões e comunicados formais — e, na mão direita, um envelope branco impecável que carregava separado, os dedos apertados na borda.
O olhar dela passou por eles — primeiro por Amelia, depois por Carl.
Com um breve lampejo indecifrável nos olhos antes de seguir em frente, Nadia foi direto para o escritório do Bryson, com passos firmes e treinados.
“Alguém acordou de mau humor”, murmurou Carl, com a boca se curvando de leve.
Antes que Amelia pudesse responder, Bryson apareceu na porta.
Ele ficou ali, telefone no ouvido, os ombros largos preenchendo o vão. O terno era escuro e perfeitamente cortado, o branco impecável da camisa aberto no colarinho. A expressão era focada, aquela concentração silenciosa de quem carregava portfólios inteiros nas costas.
O olhar dele se ergueu ao som das portas do elevador se abrindo.
Pela menor fração de segundo, os olhos dele pousaram nela.
Não no crachá. Não em Carl. Nela.
O macacão preto ajustado.
O casaco cor de pele.
A linha firme da postura e o comprimento das pernas, realçado por aqueles saltos altíssimos.
Alguma coisa nele ficou imóvel.
Então Nadia chegou até ele, estendendo o envelope branco.
“Um instante”, ele disse ao telefone. Pegou o envelope das mãos dela, enfiou um dedo sob a aba e abriu.
“Eu te ligo de volta”, acrescentou, desligando.
Ele percorreu a página lá dentro, a expressão se achatando numa linha calma e controlada. “Ela pediu demissão.”
“Hoje?” Amelia perguntou antes que conseguisse se conter.
“Agora.” A voz dele era firme, mas havia um peso silencioso por trás, o som de um homem que já sabia que isso ia acontecer.
Nadia não disse nada. Apenas se virou e foi embora — sem cena, sem palavras a mais, só o ritmo suave e preciso dos saltos se afastando pelo mármore até ela chegar aos elevadores e desaparecer lá dentro.
Carl se afastou da parede onde estivera encostado e caminhou até Bryson num passo despreocupado. “Bom, isso deixa um buraco pra você preencher.”
“Não por muito tempo”, Bryson disse, já dobrando a carta uma vez e enfiando-a de volta no envelope.
A boca de Carl se curvou. “Às vezes, a melhor solução está bem na sua frente.”
A sobrancelha de Bryson se ergueu um pouco, mas ele não respondeu.
“Ótimo”, Carl continuou, encurtando a distância até parar ao lado de Amelia. Ele tocou de leve no ombro dela, quase como se estivesse apresentando um produto. “Porque eu tenho a substituta temporária perfeita.”
O estômago dela afundou.
“Minha esposa”, disse Carl. “Ela tem tempo de sobra.”
Foi então — com Nadia fora, Carl falando, e Amelia ali parada com aquele crachá laranja berrante pendendo contra o tecido preto elegante — que Bryson realmente olhou para ela.
Desta vez, ele não interrompeu.
O olhar dele percorreu, sem pressa, mas contido:
As mangas compridas desenhando as linhas dos braços dela.
O jeito como o macacão marcava a cintura e depois caía sobre a curva dos quadris.
O laço amarrado com cuidado no tornozelo.
Os saltos altíssimos que faziam as pernas, que já eram longas, parecerem intermináveis.
Ele entendia alguma coisa de designers. O suficiente para saber que aqueles sapatos não pediam desculpas. E que ela os usava como quem não precisava da permissão de ninguém.
O casaco nude estava jogado sobre o braço dela como uma sombra macia e cara. Escolhido para sugerir o que havia por baixo, e não para gritar.
Então ele captou o cheiro dela.
Não era forte, nem enjoativo.
Doce cítrico, com um toque floral. Limpo e quente e inconfundivelmente feminino. Pairou no espaço pequeno entre os dois — vivo, fresco, como algo de que você se lembrava muito depois de a pessoa ir embora.
O peito dele se apertou uma vez antes de ele empurrar a reação para baixo. A sensação não era nova para ele. Só… mais afiada do que tinha qualquer direito de ser hoje.
Ele manteve a expressão neutra. Na superfície, pelo menos.
“Eu—”, Amelia começou.
“Não é nada demais, amor”, Carl cortou, abanando a mão, descartando tanto o momento quanto o protesto dela. “Duas semanas, no máximo. Mantém ele no cronograma, atende umas ligações. Tranquilo.”
Bryson mudou o peso do corpo, apoiando um quadril na mesa, os braços cruzados de um jeito relaxado. O olhar dele não saía dela. “Não tenho certeza se sua esposa quer ser voluntariada.”
Carl riu alto demais. “Ela vai ficar bem. Né, amor?”
Amelia pressionou os lábios, sustentando os olhos de Bryson por um longo instante, firme.
Lá estava de novo — aquela atração.
Ele sempre se portara como um homem que sabia exatamente quanto espaço ocupava. Mas de perto, assim, era impossível ignorar: o corte preciso do maxilar, a barba por fazer, o jeito como o terno assentava sobre um peito que não era resultado apenas de alfaiataria cara. E o perfume dele — quente, masculino, contido — se misturando ao cítrico adocicado do perfume dela, virando algo que fazia o pulso dela disparar de um jeito que ela não tinha a menor intenção de analisar.
“Oito da manhã”, Bryson disse por fim, a voz calma, mas com uma ponta de algo que não parecia puramente profissional.
“Em ponto”, ela respondeu.
Não era um acordo feito em nome de Carl. Era uma escolha. A escolha dela.
Carl bateu uma palma na outra, satisfeito. “Ótimo! Ela vai estar aqui bem cedo. Você aguenta um dia sem ela, né?”
Antes que alguém pudesse responder, o celular dele vibrou. Ele olhou a tela, entregou a Bryson a pasta que carregava e suspirou. “É o negócio da torre de Hong Kong. O investidor quer renegociar os termos do aluguel do último andar antes de a gente assinar.”
Ele começou a andar em direção ao corredor, já levando o telefone ao ouvido. “Sim, tô aqui. Fala comigo.”
Ele sumiu na esquina, a voz se apagando à medida que virava para outro corredor.
O silêncio que deixou para trás se assentou, denso e baixo.
Bryson foi o primeiro a se mexer, afastando-se da borda da mesa, depois jogando a pasta sobre ela e endireitando a postura.
“Você tem certeza disso?”, ele perguntou, o tom mais baixo agora que Carl tinha ido embora.
Ela ergueu uma sobrancelha. “De qual parte? Aparecer às oito da manhã ou trabalhar pro infame Bryson Hearst?”
Um canto da boca dele puxou para cima — não chegava a ser um sorriso, mas quase. “Das duas.”
Ela sustentou o olhar dele. “Acho que a gente vai descobrir qual é mais difícil.”
Ele a observou por um instante. Tão perto assim, era ainda mais difícil ignorar a força por baixo da compostura dela. Amelia parecia pertencer a qualquer lugar em que decidisse ficar — até ali, no espaço dele, arrastada pelo ego de Carl e por aquele crachá laranja horroroso de visitante.
“Você não precisa fazer isso se não quiser”, ele disse. “Independente do que o Carl acabou de anunciar.”
Um lampejo de algo quente apertou as costelas dela. Respeito. Consideração. O tipo de cortesia que ela raramente recebia em casa.
Ela inclinou a cabeça. “O Carl disse que você é intenso.”
As sobrancelhas de Bryson se ergueram de leve. “Bem a cara dele.”
“Ele fez parecer que trabalhar pra você é tipo um campo de treinamento.” O tom dela era leve, mas havia interesse ali, costurado por baixo. “Sem pegar na mão. Sem erros. Sem segunda chance.”
Ele nem se deu ao trabalho de negar. “Eu espero que as pessoas façam o trabalho delas.”
“Imaginei”, ela disse. “A questão é que… eu sei trabalhar.”
O olhar dele se aguçou um pouco, como se registrasse aquilo, arquivando sob coisas que a maioria das pessoas provavelmente não via quando olhava para ela.
“Oito da manhã”, ele repetiu, mas dessa vez soou menos como um teste e mais como um acordo.
Os lábios dela se curvaram. “Em ponto.”
Ele não desviou o olhar.
“Talvez você aguente mais do que ele acha”, ele murmurou.
Amelia ergueu o queixo só o bastante para virar promessa em vez de possibilidade. “Talvez mais do que você acha.”
Por um instante, nenhum dos dois se mexeu.
Então o elevador apitou atrás dela, e ela deu um passo para trás, rompendo a linha entre eles. O cheiro da colônia dele se dissipou com a distância, mas o zumbido baixo de algo novo — ou talvez de algo que sempre estivera ali — ficou.
Ela ajeitou o ridículo crachá laranja de visitante, vestiu o casaco de novo e se virou para o elevador.
Ele a observou ir.
Não devia.
Mas observou.
E amanhã, às oito em ponto, Bryson Hearst sabia que o seu escritório ia parecer bem diferente.
