Capítulo 5 Uma questão de ordem

Ben encostou o elegante sedã preto junto ao meio-fio com uma parada suave. Ele olhou para ela pelo retrovisor com meio sorriso.

“Pronta para o seu primeiro dia?”

“Mais pronta do que isso eu não vou ficar”, disse Amelia, guardando o celular na bolsa.

Ele saiu do carro, deu a volta para abrir a porta para ela e estendeu a mão.

“Pelo menos não está chovendo.”

“Já é alguma coisa”, ela respondeu, aceitando a mão dele ao sair. Então lhe deu um sorriso pequeno, mas sincero.

O friozinho do começo de outubro roçou suas bochechas, trazendo o cheiro de café recém-passado de um carrinho ali perto e um leve dulçor de bordo vindo das árvores que ladeavam a avenida.

Acima dela, a fachada espelhada do prédio refletia as folhas douradas e carmesim, o vidro se erguendo em uma linha nítida e elegante contra o céu. Hearst & Pierce Global — o nome estava gravado em aço acima da entrada, discreto, mas impossível de ignorar.

Era uma sociedade construída sobre dois legados. Os Hearst eram de riqueza antiga — financistas com décadas de investimento de capital em propriedades icônicas — enquanto os Pierce tinham feito fortuna na terra e no aço da construção civil, transformando plantas em horizontes urbanos. Durante anos, as duas famílias foram rivais, até que seus bisavôs firmaram um acordo, unindo capital e expertise em uma das mais poderosas incorporadoras de imóveis de luxo do país.

Bryson Hearst assumira como CEO aos vinte e seis anos, depois que o pai se afastou. Carl, três anos mais velho, ocupara um cargo sênior em aquisições e desenvolvimento. Dava certo, embora todos no setor soubessem que era Bryson quem estava moldando o futuro da empresa. Se Bryson era preciso e controlado, Carl era mais espalhafatoso — mais do aperto de mão do que da execução.

Amelia já tinha ouvido as histórias, claro, mas só estivera na órbita de Bryson algumas poucas vezes. E, em todas elas, havia notado a mesma coisa: ele era educado, mas havia certa reserva nele, uma vigilância que fazia você se perguntar no que ele estava pensando por trás daqueles olhos cinza-claros.

Lá dentro, George ergueu os olhos da mesa de segurança e sorriu.

“Bom dia, Sra. Pierce — ou devo dizer, bem-vinda à equipe.”

“Bom dia, George”, ela respondeu com cordialidade, aproximando-se da mesa. “E é só Amelia, por favor. Estou começando a achar que existe um memorando nacional mandando todo mundo me chamar de Sra. Pierce.”

George soltou uma risada enquanto abria uma gaveta e tirava de lá um crachá elegante preso a um cordão preto.

“Seu novo passe. Com ele, você entra em qualquer lugar aonde precisar ir.”

“Obrigada, George”, disse ela, passando o crachá pela cabeça.

As portas do elevador se abriram para o zumbido discreto do andar de Bryson. O clima ali era diferente do de Carl — mais estável, mais silencioso, com uma sensação de precisão no ar.

Na recepção, Evelyn, a recepcionista de Bryson, ergueu os olhos do monitor.

“Bom dia, Sra. Pierce — desculpe, Amelia”, corrigiu-se ao perceber o olhar cúmplice de Amelia. “Bem-vinda de volta. Você vai encontrar tudo o que precisa esperando na sua mesa. E, se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar.”

“Obrigada, Evelyn”, disse Amelia, calorosa. “É bom ver você de novo.”

Evelyn assentiu e voltou ao trabalho quando Amelia atravessou o saguão. Desta vez, ela não precisava de direções; a mesa que tinha visto ontem ficava logo do lado de fora do escritório de Bryson — arrumada, impessoal, à espera.

Ela pousou a bolsa e começou a deixar tudo com a sua cara. O caderno de capa de couro foi para a direita do laptop, a caneta acomodada com cuidado atravessada no alto. Um vaso de vidro esguio, com um único galho de flor de cerejeira que ela comprara numa floricultura boutique — importado, um pequeno capricho ao qual ela não conseguia resistir —, encontrou seu lugar perto do canto. Da bolsa, tirou uma moldura prateada pequena com uma foto dos pais na Costa Amalfitana, o braço do pai em volta da mãe, os dois rindo. Era discreto, mas fazia o espaço parecer menos um ponto de passagem temporário e mais dela. Uma pasta branca e impecável estava no centro da mesa — um kit de boas-vindas do RH com as senhas de rede, códigos de segurança e uma cópia impressa da agenda atual de Bryson. Ela a abriu por um instante, passando os olhos pelos blocos bem organizados de horários preenchidos com nomes e números. Era meticuloso, mas ela já conseguia enxergar onde reorganizaria algumas coisas para dar a ele mais respiro.

Ao lado da pasta, ela colocou seu quebra-cabeça antisstress em miniatura — um cubo de madeira polida com peças deslizantes que tinha havia anos. Não mexia nele com frequência, mas, sempre que a mente ficava ruminando um problema, sentir o objeto nas mãos ajudava a se concentrar.

Ela estava na metade da revisão da lista de ligações de Bryson quando uma voz soou atrás dela.

— Você chegou cedo — disse Bryson.

Ela se virou e o encontrou na porta — paletó do terno vestido, gravata perfeitamente ajustada, postura composta. A luz da manhã que entrava pelas janelas pegava no aço das abotoaduras, no contorno preciso que havia em tudo nele.

Por um segundo breve e desnorteante, pareceu que o ambiente parou — não por atração, ela disse a si mesma, mas pelo contraste. Bryson Hearst carregava o silêncio do jeito que outros homens carregavam o barulho.

Um canto da boca dele se ergueu, mas só um pouco.

— Eu gosto de saber quem está no meu escritório antes de eu chegar.

— Eu gosto de estar preparada antes de precisar estar — ela retrucou.

Isso lhe rendeu um rápido lampejo de reconhecimento nos olhos dele, antes de ele inclinar a cabeça na direção do próprio escritório.

— Reunião da agenda em dez minutos.

Quando ela entrou no escritório dele, notou o caos organizado — contratos empilhados em montes irregulares, um peso de papel pesado segurando um espalhado de anotações manuscritas, e o aroma suave de cedro e âmbar, misturado a uma brisa oceânica e café no ar.

Ela se sentou diante dele e começou a folhear a agenda impressa, caneta na mão. Enquanto revisavam os compromissos, o olhar dela derivou para a pilha mais próxima de arquivos espalhados pela mesa. Os papéis não estavam bagunçados, exatamente; só… inquietos — contratos meio assinados, notas presas com clipes tortos, retornos enterrados sob novos rascunhos.

Sem perceber direito, ela começou a endireitá-los. Cada documento recebia uma olhada rápida e treinada — data, linha de assinatura, nome da empresa — antes de ela colocá-lo em uma pilha mais arrumada. Os itens urgentes foram se aproximando do centro, e tudo que estava claramente marcado para depois acabou indo para o lado.

Os olhos cinzentos de Bryson baixaram para as mãos dela e depois voltaram ao seu rosto. “Você sempre rearruma a mesa dos outros ou isso é tratamento especial?”

Ela parou, pega no meio do movimento, depois deu um sorrisinho contrito. “Força do hábito. Gosto de saber para o que estou olhando antes que vire um caos.”

“Distrativo para quem?”, ele perguntou, recostando-se na cadeira.

“Para mim”, ela respondeu, entrando no tom dele, mesmo enquanto o menor dos sorrisos puxava seus lábios.

Uma pausa se instalou entre os dois — curta, mas carregada. Então ele assentiu na direção da agenda. “Continue.”

Eles passaram pelo restante das ligações da manhã, com o tom dele direto, mas não antipático — o de um homem que não desperdiçava palavras.

“Mais alguma coisa?”, ela perguntou, tampando a caneta e erguendo os olhos.

Ele a observou por um instante. “Você está olhando para o relógio desde que se sentou. Tem alguma coisa que eu deva saber?”

Ela hesitou. “Tenho um pequeno baile de gala esta noite.”

A sobrancelha dele se ergueu. “Relacionado à empresa?”

“Não. Um programa de arte infantil que venho organizando há meses.”

Por um segundo, o olhar dele se manteve preso ao dela, avaliando. “Foi por isso que você estava arrastando mesas de salto ontem?”

Ela piscou. “Você soube disso?”

“Eu fico sabendo da maioria das coisas”, ele disse simplesmente.

Os lábios dela se curvaram de leve. “Bom, se estiver interessado, você sempre pode aparecer. Vamos servir os melhores mini bolinhos de caranguejo da cidade.”

Isso arrancou dele o menor lampejo de diversão. “Vou ter isso em mente.”

Ela se levantou, enfiando o caderno debaixo do braço. “Vou começar a cuidar das suas ligações.”

Quando ela saiu, Bryson se recostou na cadeira, examinando as pilhas de trabalho agora organizadas com clareza. Sem perceber, ela havia cortado a bagunça de sempre, colocando os arquivos mais urgentes ao alcance da mão. Era uma coisa pequena, mas, quando ele olhou para o relógio e viu que tinha cinco minutos antes da primeira ligação — em vez da correria de sempre para encontrar o contrato certo —, ele sentiu a diferença.

Eficiente. Proativa. E tinha feito aquilo sem que ninguém pedisse.

Pela primeira vez em muito tempo, ele pensou que seu dia talvez realmente corresse no horário.

A manhã passou num borrão de ligações e organização de arquivos — todas as coisas que a antiga assistente de Bryson claramente não tivera tempo de fazer direito. Amelia também foi adiantando os arquivos mais urgentes, desde contratos de milhões de dólares até um lembrete escrito à mão para ligar para o alfaiate dele. Ela nem percebeu que tinha começado a reorganizar o trabalho dele em pilhas bem arrumadas de “urgente” e “acompanhamento” até Bryson surgir encostado no batente da porta, de braços cruzados, observando-a.

“Está com fome?”, ele perguntou, com o canto da boca mal se erguendo. “Ou pretende reorganizar meu escritório inteiro antes do almoço?”

Ela olhou de relance para o relógio. “Eu ia falar com o Carl, ver se ele queria almoçar comigo.”

Bryson perguntou, apoiado no batente da porta, mangas arregaçadas, a expressão seca:

“Falar”, Bryson repetiu, como se achasse a escolha da palavra curiosa. “E não simplesmente avisar?”

“Meu marido não funciona assim”, ela disse, já pegando o celular.

A sobrancelha de Bryson se ergueu de leve, mas ele só falou: “Se você quiser, posso incluir seu almoço no meu. Vou fazer um pedido no deli ali na rua.”

“É gentil da sua parte”, ela disse. “Deixa eu ver o que o Carl diz primeiro.”

Ele fez um único aceno e, sem dizer mais nada, recuou na direção do próprio escritório, enfiando as mãos nos bolsos. Amelia percebeu, enquanto ele se afastava, que ele estava deliberadamente dando espaço a ela — uma pequena cortesia, mas que não passou despercebida.

Amelia discou o número de Carl e esperou, batucando a caneta na borda do caderno até a voz dele atender do outro lado.

“Estou no meio de uma coisa”, Carl disse de imediato.

“Eu ia ver se você queria almoçar”, Amelia disse.

“Não dá. Estou com reuniões em sequência até as três, talvez mais tarde”, Carl respondeu. “Coma sem mim.”

A ligação terminou sem um tchau.

Quando Amelia ia guardar o celular na bolsa, a tela se iluminou com o nome de Claire. Ela lançou um olhar na direção do escritório de Bryson.

“Claire”, cumprimentou, atendendo com um sorriso discreto.

“Por favor, me diz que você já conferiu a última versão do planejamento com a mídia. Eu só preciso confirmar que estamos na mesma página antes de mandar a equipe de imprensa pro local.”

“Não tive um segundo”, Amelia disse, baixando a voz. “É meu primeiro dia no escritório do Bryson Hearst.”

Houve uma pausa, seguida por uma inspiração brusca. “Pera — você está fazendo o quê?”

“O Carl se ofereceu pra me colocar como substituta de assistente dele. A partir de hoje.”

“No dia do seu baile de gala?” A voz de Claire subiu, incrédula. “Isso é— quer dizer, você está se ouvindo? Ele não leva a sério o seu trabalho nem o seu tempo. Nunca levou.”

Amelia suspirou baixinho. “Vai ficar tudo bem.”

“Não, não vai”, Claire disse, firme. “Ele acabou de te enfiar num trabalho sem nem perguntar. E você está deixando.”

“Hoje eu escolhi não gastar minha energia com ele”, Amelia disse, num tom controlado.

“Então vamos almoçar. Você precisa de uma pausa antes de hoje à noite. O deli ali na rua — o nosso lugar. Eu chego em quinze minutos.”

Um sorrisinho puxou os lábios de Amelia. “Tá bom. Mas, se você se atrasar, eu peço sem você.”

“Isso não vai acontecer”, Claire prometeu.

Quando a ligação terminou, Amelia se levantou da mesa e atravessou até a porta do escritório de Bryson.

Antes de sair, Amelia parou à porta do escritório de Bryson. Ele acabara de desligar o telefone, ainda com uma caneta na mão.

“Vou sair pra almoçar”, ela disse.

Ele levantou os olhos das anotações. “Aproveite.” Não houve pergunta, nem hesitação — só aquela palavra, antes de ele voltar a atenção para a pasta à sua frente.

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