Capítulo 1 Prólogo

Eirlys Amarante

Tinha apenas dezessete anos quando descobri que algumas pessoas conseguem destruir a nossa vida sem precisar levantar a voz, enquanto outras conseguem terminar de destruí-la simplesmente escolhendo não acreditar em nós. 

Naquela época, eu ainda era uma menina que acreditava que uma mãe deveria ser o lugar mais seguro do mundo, que uma casa deveria ser um abrigo e que, quando alguma coisa terrível acontecesse, bastaria correr para os braços de quem nos amava para que tudo começasse a ficar bem novamente. Eu acreditava em tantas coisas naquela época que hoje, quando penso naquela garota, sinto uma mistura de carinho e tristeza.

Ela não sabia que o mundo poderia ser tão cruel. Não sabia que dizer a verdade nem sempre fazia com que as pessoas acreditassem nela. Não sabia que existir dentro da própria casa poderia se transformar em uma batalha. E, principalmente, não sabia que, naquele momento, começaria a construir uma força que jamais imaginou possuir.

Minha mãe estava na cozinha quando contei, me lembro perfeitamente daquele dia porque existem momentos que o tempo não consegue apagar, por mais que a gente passe anos tentando enterrá-los em algum lugar profundo da memória. 

A tarde estava cinzenta, uma chuva fina batia contra a janela e minha mãe mexia uma panela no fogão enquanto meu padrasto permanecia na sala assistindo televisão. Eu estava parada na entrada da cozinha, segurando as mãos uma na outra com tanta força que minhas unhas machucavam a pele, tentando encontrar coragem para dizer aquilo que vinha me sufocando havia dias.

Quando finalmente contei que estava grávida, minha mãe deixou a colher sobre a bancada e me encarou como se eu tivesse acabado de confessar o pior crime do mundo. Esperava perguntas, esperava preocupação, esperava até mesmo gritos, porque sabia que a notícia seria difícil, mas não estava preparada para a primeira pergunta que saiu da boca dela. Ela quis saber quem era o pai.

Contei exatamente o que havia acontecido e disse o nome do homem que estava dentro daquela casa, o mesmo homem que minha mãe havia escolhido para dividir a vida com ela. Minha voz tremia, minhas lágrimas não paravam de cair e, ainda assim, tentei explicar tudo da melhor maneira que uma adolescente assustada conseguia. 

Não queria ser julgada, não queria que minha mãe sentisse vergonha de mim, só queria que ela acreditasse. Queria que ela olhasse para o meu rosto e percebesse que não estava mentindo. Queria que ela me abraçasse e dissesse que eu não estava sozinha. 

Em vez disso, minha mãe ficou imóvel durante alguns segundos e depois perguntou por que eu estava tentando destruir a família. Foi naquele instante que alguma coisa dentro de mim se partiu de uma maneira que nenhuma palavra conseguiria explicar.

Ainda tentei durante horas, tentei fazê-la entender. Disse que não havia escolhido aquilo, que não havia procurado por aquilo, que não tinha feito nada para provocar o que aconteceu. Disse que estava com medo e que não sabia o que fazer.

Pedi ajuda. Pedi que ela olhasse para mim como sua filha, não como alguém que havia cometido um erro. Mas minha mãe já havia tomado sua decisão antes mesmo de ouvir toda a história. 

Para ela, acreditar em mim significaria admitir que havia colocado dentro de casa um homem que nunca deveria ter permitido que se aproximasse de mim. Seria mais fácil acreditar que a filha adolescente estava mentindo do que aceitar que o marido era capaz de fazer algo tão terrível.

Naquela noite, minha mãe disse que eu precisava sair de casa.

Me lembro de ter olhado para ela sem compreender. Perguntei para onde iria, o que faria, como cuidaria de mim e do bebê que crescia dentro de mim. Ela não respondeu. Apenas disse que eu havia escolhido aquele caminho e que deveria arcar com as consequências. 

Talvez aquela tenha sido a frase que mais doeu, porque sabia que não havia escolhido absolutamente nada, não tinha escolhido a violência, não tinha escolhido a gravidez, não tinha escolhido perder minha família e muito menos tinha escolhido acordar todos os dias carregando uma culpa que nunca deveria ter sido minha.

Coloquei algumas roupas dentro de uma pequena mala naquela mesma noite. Não havia muita coisa para levar. Algumas blusas, duas calças, documentos, um par de sapatos e uma fotografia antiga em que minha mãe ainda sorria para mim, não sei por que levei aquela fotografia. Talvez porque, naquela época, ainda existisse uma parte de mim esperando que tudo fosse um terrível engano e que, em algum momento, minha mãe abriria a porta, me chamaria de volta e diria que havia cometido um erro, mas a porta permaneceu fechada.

Tinha dezessete anos quando atravessei aquele portão com uma mala nas mãos e uma vida inteira desmoronando atrás de mim.

A chuva havia engrossado.

Eu não tinha para onde ir.

Não sabia como seria o dia seguinte.

Não sabia como pagaria minhas despesas.

Não sabia como terminaria a gravidez.

Não sabia como cuidaria de uma criança quando ainda precisava aprender a cuidar de mim mesma.

Mas havia uma coisa que eu sabia, aquela criança não tinha culpa de nada.

Quando coloquei a mão sobre a barriga ainda pequena naquela noite, chorei como nunca havia chorado antes. Não por mim. Não apenas por mim. Chorei porque tinha medo de não conseguir protegê-la. 

Chorei porque sabia que o mundo poderia ser cruel e porque, naquele momento, não tinha absolutamente ninguém para me ensinar como enfrentá-lo.

Ainda assim, enquanto caminhava pela rua procurando um lugar onde pudesse passar aquela noite, fiz uma promessa silenciosa à pequena vida que crescia dentro de mim.

Eu não sabia como faria.

Não sabia onde moraríamos.

Não sabia como conseguiria dinheiro.

Não sabia quem estaria ao nosso lado.

Mas de uma coisa eu tinha certeza, jamais deixaria que aquela pequena passasse pelo o que passei. Sequei as lágrimas, coloquei meu capuz e sai na chuva com a certeza que venceríamos.

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