Capítulo 3 Capítulo Dois
Oito anos haviam passado desde aquela noite em que uma pequena casa passou a representar muito mais do que quatro paredes e um teto.
O tempo tinha levado algumas dores para longe, trazido outras preocupações e, principalmente, transformado aquela bebê que um dia dormia no meu colo em uma menina de oito anos que parecia ter nascido com duas habilidades muito bem desenvolvidas: fazer perguntas difíceis e dormir como se tivesse trabalhado em uma construção durante a madrugada.
Nayara era inteligente, carinhosa, curiosa e dona de uma imaginação que parecia não ter fim. Também era, sem qualquer exagero, o maior bichinho-preguiça que já conheci.
O despertador tocou pela terceira vez, desliguei o aparelho, respirei fundo e caminhei até o quarto da minha filha. A porta estava entreaberta e, assim que entrei, encontrei a cena de sempre: Nayara completamente enrolada no cobertor, deixando apenas uma pequena parte do cabelo aparecer. Parecia uma lagarta preparando-se para passar o inverno inteiro dentro do casulo.
— Nayara, está na hora de levantar.
Nenhuma resposta.
Aproximei-me da cama e puxei um pouco o cobertor.
— Bom dia, meu amor. Hora de acordar.
Um pequeno resmungo veio debaixo das cobertas.
— Não estou aqui.
Parei por alguns segundos, tentando decidir se deveria rir ou fingir que aquela conversa era completamente normal.
— Ah, não? Então quem está ocupando a minha cama?
— Uma menina muito parecida comigo.
— Interessante. E onde está a Nayara?
— Foi embora.
— Para onde?
— Para um lugar onde ninguém precisa acordar cedo.
Segurei o riso.
— E esse lugar fica onde?
— Na minha cama.
— Então a Nayara foi embora para a própria cama?
— Exatamente.
A lógica daquela menina era impressionante.
Cruzei os braços e encarei o embrulho de cobertor.
— Nayara, são sete horas da manhã.
— Isso é muito cedo.
— Você precisa estar na escola às oito.
— Então ainda temos uma hora.
— Temos uma hora para você tomar banho, se vestir, tomar café, escovar os dentes e arrumar a mochila.
O cobertor se mexeu.
— Podemos começar amanhã?
— Não.
— Depois do almoço?
— Também não.
— Depois das férias?
— Muito menos.
Mais um resmungo.
— Mãe, por que os adultos inventaram a escola?
— Para as crianças aprenderem.
— Mas eu já sei ler, escrever, fazer contas e até sei algumas coisas que você não sabe.
— Isso é verdade.
— Então posso ficar em casa.
— Não.
— Sabia que você ia dizer isso.
A cabeça finalmente apareceu por cima do cobertor. O cabelo estava completamente bagunçado e os olhos ainda permaneciam semicerrados.
— Nayara, você parece um passarinho que caiu de um ninho.
— E você parece um despertador humano.
— Pelo menos estou acordada.
— Infelizmente.
A gargalhada escapou antes que pudesse evitar.
Era impossível ficar realmente brava com aquela criatura por muito tempo.
— Levanta.
— Cinco minutos.
— Você disse isso há vinte minutos.
— Então só faltam quatro.
— Como chegou a essa conclusão?
— Matemática.
— Essa matemática está errada.
— Pode estar, mas estou confortável.
Puxei o cobertor de uma vez.
Nayara soltou um grito indignado e imediatamente agarrou o travesseiro.
— Mãe!
— Bom dia!
— Isso é violência contra uma criança sonolenta!
— Isso é uma mãe tentando impedir que a filha chegue atrasada à escola.
— Vou denunciar.
— Para quem?
Ela pensou por alguns segundos.
— Para a professora.
— Pode denunciar. Aproveita e conta para ela que sua mãe precisou arrancar você da cama porque a senhorita decidiu hibernar.
Nayara sentou-se devagar, abraçando o travesseiro contra o peito.
— Não estava hibernando.
— Não?
— Estava descansando.
— Desde ontem à noite?
— Sim.
— E por que precisa descansar tanto?
— Porque crescer dá muito trabalho.
Aquilo me fez rir novamente.
— Você tem oito anos.
— Justamente. É uma idade muito cansativa.
— Ah, claro. Imagino como deve ser difícil ter oito anos.
— É terrível. Tem escola, dever de casa, banho, escovar os dentes...
— Coisas horríveis.
— Muito horríveis.
— E ainda tem uma mãe insistindo para você acordar.
— Essa é a pior parte.
Peguei o uniforme dobrado sobre a cadeira e coloquei em cima da cama.
— Cinco minutos. Depois disso, vou voltar aqui.
— Para quê?
— Para te carregar até o banheiro.
Nayara arregalou os olhos.
— Você não faria isso.
— Quer apostar?
Ela me observou por alguns segundos, tentando descobrir se estava falando sério.
— Você está brincando.
— Experimente continuar deitada.
O travesseiro foi abandonado sobre a cama.
— Está bem. Já estou levantando.
— Milagre.
Nayara colocou os pés no chão, mas permaneceu parada.
— Mãe?
— O quê?
— Preciso de ajuda.
— Para levantar?
— Não.
— Então?
— Para encontrar minha disposição.
Balancei a cabeça, tentando não rir.
— Sua disposição deve estar escondida junto com sua coragem para levantar cedo.
— Se encontrar, manda ela voltar.
— Vou procurar.
Enquanto Nayara caminhava lentamente até o banheiro, cada passo parecia exigir uma quantidade absurda de energia. Parecia mesmo um bichinho-preguiça atravessando a casa em câmera lenta.
Aquela menina havia crescido diante dos meus olhos.
Ainda conseguia lembrar da primeira vez em que a segurei nos braços, tão pequena e delicada, e de como o medo fazia companhia a cada pensamento naquela época.
Não sabia como seria o futuro, não sabia se conseguiria oferecer tudo o que ela precisava e, muitas vezes, nem tinha certeza de como conseguiria pagar todas as contas.
Mas uma coisa sempre esteve clara: Nayara jamais carregaria as culpas do passado.
Ela era minha filha. Meu motivo para continuar. Minha pequena razão para acreditar que uma vida diferente poderia existir.
