Capítulo 4 Capítulo Três
Eirlys Amarante
Depois de deixar Nayara na escola, segui diretamente para a agência responsável pela contratação. Tinha passado boa parte da manhã pensando naquela oportunidade e tentando controlar a ansiedade. O salário era melhor do que o dos meus últimos empregos e, naquele momento, isso fazia toda a diferença. Uma renda maior significava mais tranquilidade para pagar as contas, investir um pouco na minha filha e, quem sabe, finalmente começar a guardar dinheiro novamente.
Assim que cheguei à agência, identifiquei-me na recepção e fui encaminhada para uma sala reservada. Uma mulher elegante estava sentada atrás de uma mesa, organizando alguns documentos. Levantou os olhos assim que entrei e fez um gesto para que me aproximasse.
— Eirlys Amarante?
— Sim.
Ela sorriu discretamente e apontou para a cadeira à sua frente.
— Ótimo. Pode se sentar. Você foi indicada para trabalhar na residência do senhor Fitzgerald. Antes de assinarmos o contrato, preciso explicar algumas regras.
Sentei-me e permaneci atenta.
— O senhor Fitzgerald é um homem muito ocupado, extremamente reservado e pouco tolerante com atrasos ou pessoas intrometidas. A residência possui funcionários antigos, e cada um sabe exatamente quais são suas responsabilidades. Seu trabalho será manter os ambientes determinados pela governanta limpos e organizados. Não deverá mexer em documentos, objetos pessoais ou assuntos particulares da família.
Assenti.
— Entendido.
Ela continuou explicando os horários, os dias de trabalho, o uniforme, os pagamentos e todas as orientações que considerava importantes. Algumas recomendações pareciam bastante rígidas, mas nada daquilo me assustava. Já tinha trabalhado para pessoas exigentes antes. No fim das contas, emprego era emprego.
— Alguma dúvida?
— Não. Está tudo bem explicado.
Os documentos foram colocados à minha frente. Li cada página com atenção antes de assinar. Aprendi, ao longo dos anos, que confiar apenas na palavra de alguém podia trazer problemas. Depois de conferir todas as informações, assinei o contrato, guardei minha cópia na bolsa e recebi o endereço da residência.
Saí da agência respirando fundo.
Era isso.
Um novo emprego.
Uma nova oportunidade.
O endereço ficava em uma região distante da minha casa, mas não havia motivo para reclamar. Tinha trabalho, e naquele momento era tudo o que importava.
O trajeto demorou bastante. Conforme o carro avançava, os prédios e as casas simples foram dando lugar a ruas mais arborizadas, imóveis enormes e portarias que pareciam pertencer a hotéis de luxo. Olhei algumas vezes para o endereço anotado no celular, apenas para ter certeza de que não havia cometido algum engano.
Quando finalmente cheguei, precisei parar por alguns segundos diante do enorme portão.
— É aqui mesmo... — murmurei.
A residência dos Fitzgerald era muito maior do que eu havia imaginado.
Apresentei-me aos seguranças, mostrei os documentos necessários e, depois de confirmarem minha contratação, liberaram a entrada.
Atravessei o portão devagar, observando o jardim perfeitamente cuidado e a fachada imponente da mansão. Tudo parecia planejado nos mínimos detalhes. As árvores estavam aparadas, as flores perfeitamente distribuídas e até o caminho de pedras parecia ter sido colocado ali para alguma fotografia de revista.
Se por fora já era daquele jeito, imaginei como deveria ser por dentro.
Nayara ficaria encantada.
Minha filha adorava lugares grandes e tinha uma curiosidade quase impossível de controlar. Provavelmente faria umas cinquenta perguntas antes mesmo de chegar à metade do jardim.
Parei diante da porta principal e toquei a campainha.
Poucos segundos depois, uma mulher elegante abriu.
Ela aparentava ter pouco mais de cinquenta anos, vestia uma roupa discreta e impecavelmente passada e tinha uma postura que transmitia autoridade sem precisar de esforço.
— Muito prazer, sou Eirlys, a nova diarista.
Ela apertou minha mão com cordialidade e abriu espaço para que entrasse.
— Muito prazer, Eirlys. Sou Olenca, a governanta da residência do senhor Fitzgerald. Pode entrar.
— Obrigada.
Assim que atravessei a porta, precisei controlar a expressão de surpresa.
A mansão era ainda mais impressionante por dentro.
O hall era enorme, com uma escadaria elegante, móveis sofisticados e uma decoração que misturava modernidade e elementos clássicos. Tudo parecia estar no lugar certo. Nada estava fora do eixo.
Olenca percebeu meu olhar, mas não fez nenhum comentário.
— Venha comigo. Vou mostrar onde ficam seu uniforme e os materiais que irá utilizar.
— Claro.
Ela me conduziu por um corredor lateral até uma área destinada aos funcionários. Mostrou o armário onde deveria guardar meus pertences, entregou o uniforme e explicou quais produtos deveriam ser utilizados em cada ambiente.
Troquei de roupa rapidamente e voltei para encontrá-la.
A partir dali, começou um verdadeiro tour pela mansão.
Olenca mostrou a cozinha, a sala principal, a biblioteca, os corredores, os quartos destinados aos hóspedes, a área externa e vários outros espaços que pareciam maiores do que a minha casa inteira.
— O senhor Fitzgerald gosta de tudo muito organizado — explicou enquanto caminhávamos. — Principalmente o escritório. Ali, nenhum objeto deve ser retirado do lugar sem autorização.
Assenti.
— Entendido.
— A biblioteca também deve permanecer organizada. Os livros são catalogados por assunto e autor. Se precisar retirar algum para limpar, coloque exatamente no mesmo lugar.
— Certo.
— E existe uma regra importante.
Olenca parou diante de uma porta dupla.
— Nunca entre aqui sem autorização.
Olhei para a porta.
— É o escritório?
— Sim.
— Entendi.
Ela me encarou por alguns segundos, talvez esperando alguma pergunta indiscreta.
Não fiz nenhuma.
— Ótimo — disse finalmente. — O senhor Fitzgerald valoriza funcionários que sabem respeitar limites.
— Pode ficar tranquila. Vim para trabalhar.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.
— Acho que vamos nos entender.
Terminamos a visita e Olenca me entregou uma pequena lista das tarefas daquele dia.
— Como está começando hoje, não precisa fazer tudo de uma vez. Quero observar seu ritmo e depois ajustamos a rotina.
— Tudo bem.
Assim que ela se afastou, comecei o trabalho.
A mansão exigia muito mais esforço do que qualquer residência em que já havia trabalhado. Havia muitos ambientes, superfícies delicadas e objetos que precisavam de cuidado especial. Ainda assim, não demorou para entrar no ritmo.
Uma coisa que sempre tive foi atenção aos detalhes.
Passei pela sala principal, organizei alguns objetos, limpei as superfícies e segui para o corredor. Depois, comecei a cuidar da biblioteca.
Foi ali que percebi algo estranho.
Havia alguns documentos sobre uma mesa lateral, parcialmente cobertos por uma pasta. Não toquei neles. A orientação de Olenca tinha sido clara.
Continuei a limpeza.
Pouco depois, ouvi passos vindos do corredor.
Não dei importância no início.
Até ouvir uma voz masculina.
— Olenca.
A governanta respondeu de algum lugar próximo.
— Sim, senhor.
Parei por um instante.
Aquela voz tinha um tom firme, grave e autoritário.
Continuei o que estava fazendo, tentando não prestar atenção.
— A reunião foi antecipada para o meio dia. Preciso que ninguém me interrompa durante a próxima hora.
— Certamente.
Os passos se aproximaram.
Quando levantei os olhos, vi um homem parado na entrada da biblioteca.
Alto, elegante e com uma expressão séria. Vestia um terno escuro perfeitamente ajustado, carregava uma pasta em uma das mãos e tinha aquele tipo de presença que fazia o ambiente parecer menor.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Então ele olhou para mim.
Depois para o uniforme.
Por fim, voltou os olhos para o meu rosto.
— Quem é você?
