Capítulo 5 Capítulo Quatro
Eirlys Amarante
A pergunta veio seca.
Antes que pudesse responder, Dona Olenca apareceu no corredor.
— Senhor Fitzgerald, esta é Eirlys Amarante. A nova diarista.
O olhar dele voltou para mim.
— Nova?
— Sim. Foi contratada pela agência.
Caelan Fitzgerald permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada detalhe daquela informação.
— Espero que tenha recebido todas as orientações.
— Recebi.
— E espero que saiba que privacidade é uma regra nesta casa.
Aquela frase poderia ter soado como uma ameaça, mas apenas mantive a calma.
— Sei, senhor Fitzgerald.
Ele estreitou os olhos levemente.
— Certo.
Virou-se para sair, deu dois passos, mas parou. Então voltou o olhar para mim.
— Seu nome é Eirlys?
— Sim.
— Nome incomum.
— Meu pai gostava de nomes incomuns.
Foi a primeira vez que percebi uma pequena mudança em sua expressão. Não chegou a ser um sorriso, mas alguma coisa pareceu suavizar seu rosto por um instante.
— Entendo.
E então foi embora.
Fiquei olhando para o corredor vazio por alguns segundos, tentando entender por que aquele homem tinha a capacidade de deixar o ambiente mais sério simplesmente entrando nele.
Dona Olenca aproximou-se e falou em voz baixa:
— Não se preocupe. Ele é assim mesmo.
— Assim como?
— Reservado.
— Percebi.
Ela sorriu.
— Com o tempo, você se acostuma.
— Espero que sim.
Sorri e voltei para a limpeza. Afinal, não estava ali para analisar meu patrão. Precisava trabalhar.
Por volta do meio-dia, meu celular vibrou no bolso. Era Zafira.
Atendi enquanto organizava alguns produtos de limpeza.
— Oi, amiga.
— Eirlys, quer que eu vá buscar minha afilhada linda na escola?
Um sorriso surgiu imediatamente.
— Se puder, vou agradecer muito. Hoje provavelmente vou sair mais tarde.
— Estou indo buscar minha afilhadinha linda. À noite, você passa aqui e busca ela.
— Está bem. Só não dê sorvete para ela.
Do outro lado da linha, houve um silêncio suspeito.
— Nem uma casquinha pequenininha? Por favorzinho.
Respirei fundo.
— Zafira...
— Uma só. Prometo.
— Você sabe que ela vai chegar em casa eletrizada e não vai querer dormir.
— Vai dormir sim, prometo que vou dar apenas uma casquinha e depois coloco a menina para correr desembestada na pracinha, qua do você chegar ela vai estar tão cansada que você não terá trabalho.
— Isso não melhora a situação.
— Então estamos combinadas.
Acabei rindo.
— Uma casquinha só.
— Está bom! Pode deixar comigo.
Ela desligou animada.
Balancei a cabeça, travei o celular e o guardei novamente no bolso da calça.
Zafira era assim. Conseguia transformar qualquer regra em uma sugestão.
Quando voltei para a sala, percebi Dona Olenca me observando com um sorriso discreto.
— Você tem uma filha?
— Tenho.
O sorriso veio naturalmente.
— E ela é o meu universo.
— Imagino. Essa criança deve ser muito amada.
— É. Faço tudo para que ela nunca duvide disso.
Dona Olenca assentiu, parecendo satisfeita com a resposta, mas então fez outra pergunta:
— E o pai da criança?
Meu sorriso desapareceu por alguns segundos.
Fechei os olhos brevemente antes de responder.
— Morreu.
A palavra saiu baixa.
Era mentira.
Uma mentira que carregava anos de silêncio.
O homem que era pai biológico de Nayara estava vivo. Muito vivo. Mas não fazia parte das nossas vidas e, para mim, era como se tivesse deixado de existir no momento em que escolheu destruir minha inocência.
Dona Olenca pareceu surpresa.
— Que lástima... Você é tão nova e já ficou viúva.
Não corrigi.
Poderia explicar que nunca houve casamento. Que nunca existiu uma história de amor entre nós. Que Nayara não nasceu de um relacionamento e que aquela parte da minha vida era muito mais dolorosa do que qualquer explicação rápida poderia revelar.
Mas algumas histórias não pertenciam a conversas de corredor.
Principalmente com alguém que acabara de conhecer.
Apenas sorri de maneira discreta.
— A vida nem sempre acontece da maneira que planejamos.
— Isso é verdade.
Ela não fez mais perguntas.
Agradeci mentalmente por isso e voltei ao trabalho.
As horas passaram depressa.
Quando percebi, já era quase três da tarde. Terminei algumas tarefas, organizei os produtos e conferi a lista que Dona Olenca havia me entregado pela manhã.
Ainda faltava o escritório do senhor Fitzgerald.
Respirei fundo antes de seguir até lá.
Bati duas vezes na porta.
— Entre.
Abri apenas o suficiente para colocar a cabeça para dentro.
— Com licença, senhor Fitzgerald. Preciso limpar seu escritório.
Senhor Caelan estava sentado atrás da mesa, concentrado em alguns documentos.
— Pode entrar.
Entrei e comecei meu trabalho.
O escritório era enorme, mas muito organizado. Havia uma estante repleta de livros, alguns quadros discretos e uma mesa grande onde vários documentos estavam espalhados. Mantive distância dos papéis e comecei pela parte mais afastada.
Caelan parecia não prestar atenção em mim.
Ótimo.
Era exatamente assim que deveria ser.
Trabalhei em silêncio durante alguns minutos, limpando as superfícies e organizando apenas aquilo que podia ser organizado sem mexer nos documentos.
Em determinado momento, aproximei-me da mesa.
Caelan estava analisando um contrato.
Pegou uma caneta e começou a ler novamente algumas cláusulas.
Enquanto passava o pano pela lateral da mesa, meus olhos percorreram rapidamente o documento.
Não pretendia ler.
Foi apenas um olhar casual.
Mas alguma coisa chamou minha atenção.
Uma porcentagem.
Parei o movimento da mão.
Olhei novamente havia algo errado, mas meu subconsciente gritou que não era assunto meu e que não deveria me envolver.
Aquela era exatamente uma das regras que haviam sido explicadas pela agência.
Privacidade.
Não mexer em documentos, não interferir nos assuntos do patrão.
Continuei passando o pano é observando discretamente torcendo para que ele observasse o erro, mas senhor Caelan pegou a caneta novamente.
Olhei para o contrato mais uma vez, a porcentagem estava errada.
Se ele assinasse aquilo, poderia perder uma quantia considerável dependendo dos valores envolvidos.
Mordi discretamente o interior da bochecha.
Não se meta, Eirlys.
Ele é seu patrão.
Não é problema seu.
Meu cérebro gritava,mas assistir alguém cometer um erro quando você sabe que existe um problema também não parecia certo.
Senhor Caelan posicionou a caneta sobre o papel.
— Senhor Fitzgerald...
A caneta parou.
Ele levantou os olhos na minha direção.
— Sim?
Apontei discretamente para o contrato, sem tocar no documento.
— Se eu fosse o senhor, não assinaria esse contrato.
O silêncio que veio depois pareceu preencher o escritório inteiro.
Senhor Caelan baixou os olhos para o papel e depois voltou a me encarar.
— Por quê?
