Capítulo 3 - Uma festa diferente - mduno
Vi o nervosismo nela.
—Tem muitos carros com homens, era para ser uma audiência só com mulheres —sussurrou.
Saímos do carro, guardei as chaves no bolso traseiro da calça. Um homem magro, alto, rude, algo atraente, com jeans, botas e camisa xadrez de manga curta que deixava ver seu bom estado físico além das suas tatuagens, tinha o cabelo preto em um corte militar, seus olhos eram negros. Ele estava armado. Chegou ao nosso lado e perguntou nossos nomes; bom, perguntou o meu, a Lorena ele nem olhou, suponho que a conheça.
—Meu nome é Verônica Vásquez. —coloquei as mãos nos bolsos do fino casaco branco.
—Vásquez o quê? —levantou uma das sobrancelhas, depois olhou para Lorena.
—Verônica Vásquez Benítez, mais alguma coisa?
Verificou uma lista e, ao não me encontrar registrada, anotou meu nome com sua caneta metálica, um pouco mais grossa que o normal. O silêncio foi desconfortável ou será que esses são os protocolos? Ao ver o rosto de Lorena, eu soube, isso não era normal. Um par de olhos negros me examinou de cima a baixo, depois voltou a ler os papéis que tinha nas mãos. Fez o mesmo com minha amiga e, pela forma do seu olhar, a deixou alterada. Entre eles houve uma conversa de perguntas que eu não consegui ouvir, mas aparentemente ela entendeu perfeitamente.
—Guille disse que a festa era tranquila, para selecionar um grupo de garotas.
O homem colocou a mão no ouvido, alguém dava instruções a ele, se virou e olhou para o segundo andar. Eu não vi ninguém.
—Podem entrar —autorizou a entrada.
—Quem é esse cara? —perguntei em voz baixa quando nos afastamos dele.
—O braço direito do Don Roland; um dos homens mais temidos do meio, muito carinhoso na cama, embora também goste de sexo mais selvagem. Confesso que não sei a qual dos dois eu temo mais. Em geral, tenho muito respeito por todo seu grupo de segurança mais próximo. Foi novidade ele mesmo verificar a lista de presença. Não se afaste, se eu perceber algo estranho te tiro daqui.
—Entendido.
Disso eu tinha certeza. Ela faria isso, tem sido assim por seis anos. Ela me mantinha como uma boneca de porcelana, eu era sua irmãzinha intocável e frágil.
Por dentro, a casa era uma daquelas fazendas de catálogo ao estilo rústico, muito colombiano, de um gosto requintado. Não havia nada fora de lugar que não honrasse o ambiente geral. Havia uma grande sala redonda e, de um lado, ficavam umas escadas de bambu que levavam ao balcão interno do segundo andar. Dei uma olhada, só vi portas, além de um terceiro andar com outro balcão no interior do recinto, incrível! As pessoas foram se reunindo na sala, na parte de trás onde consegui ver ficava uma grande piscina com garotas vestidas com biquínis mínimos e corpos espetaculares.
Por instinto, endireitei meu corpo, tentando harmonizar minha postura. Não que eu me sentisse insegura, mas a vaidade feminina estava sempre presente. — A reunião vai terminar de um jeito diferente. — Toquei o bolso da calça para ter certeza de que as chaves do carro estavam ali. Minha amiga olhava em todas as direções, como se procurasse alguém.
Por minha parte, me dediquei a analisar os presentes do ponto onde tinha a melhor visão; os que iam para a piscina, os que estavam no salão e os que chegavam. Nos ofereceram bebidas, peguei duas. Antes de levar o copo à boca para provar o primeiro gole, Lorena me arrancou o copo da mão.
— Nem pense em beber nada aqui! — levantei a sobrancelha e antes de questionar — Costumam drogar as pessoas pelas bebidas, fique à parte, pegue só o que eu te der.
— Melhor eu ir embora.
Ela assentiu levemente. Depois, a vi sair correndo. Não a perdi de vista, ela começou a falar com um senhor de bigode, baixinho e careca, bem desagradável, por sinal. Algo a incomodou, ela gesticulava nervosamente. Fiquei parada feito uma tonta ao lado da escada por um bom tempo. Não nasci para esse mundo, esse não é meu lugar, não tenho por que ficar... Lorena fez um sinal de "espera um pouco", me olhava de vez em quando. Não tive outra opção senão continuar de olho nela.
A todo momento me sentia observada pelos presentes. Era estranho ver uma casa tão linda e autêntica, envolta em um ambiente tão pesado. Predominavam muito os tons quentes e terrosos. Tentei me distrair com a decoração, mas não consegui evitar o incômodo. Para ser sincera, eu era uma mosca em leite, um peixe fora d’água. A gente começou a entrar. Relaxei um pouco ao ver Lore caminhando na minha direção.
— Vero, já falei com o Guille — falava de maneira misteriosa.
— Ai! Esse é o Guille? — Ela voltou a olhá-lo sorrindo e assentiu.
— Sim, ele já vai falar com Don Roland para adiantar a fotografia e meus registros. Farão uma teleconferência com os investidores, espero passar no teste, assim posso ir como acompanhante de algum dos estrangeiros que estão para chegar. — Eu a ouvia com atenção. — Vou me ausentar por alguns minutos, ainda é cedo. Quando eu sair, vamos embora.
— E se as coisas ficarem feias e você não voltar?
— Fique na escada ou corra para o pátio que dá para os estacionamentos. Também pode subir para os quartos. Fique alerta.
— Pressinto... Isto foi uma má ideia.
Pelo olhar dela, parecia que pensava o mesmo. Ela me deu um sorriso suave, como quem diz "não se preocupe, estou aqui". Típica irmã mais velha!
— Sinto muito, tudo vai sair bem. Não vão encostar em você, nem que eu tenha que me deitar com todos os caras em uma só noite. — Sorri com o comentário dela.
Ela me deu um beijo na testa e foi para onde seu representante a aguardava. Senti um leve aperto no coração, ela era perfeitamente capaz de fazer isso para que não me tocassem.
Continuei como uma estátua no início das escadas, observando a aglomeração de gente na entrada obstruindo a saída. Recusei todas as bebidas, sucos, refrigerantes, coquetéis e água que insistiram em me oferecer. Aos poucos foram se formando casais e começaram os momentos desconfortáveis; beijos, toques nas nádegas, mordidas nos seios, dedos sendo enfiados em lugares íntimos. Os comentários grosseiros e obscenos se tornaram cada vez mais frequentes. Os abraços começaram a ficar mais frequentes e sugestivos.
Lorena já estava desaparecida havia meia hora. Meu alarme interno disse que já era hora de sair, e quando decidi fazer isso, as pessoas começaram a entrar pela única porta por onde eu poderia sair para os estacionamentos. Voltei para as escadas; pelo vão embaixo dos corrimãos, cruzei para o outro lado, tomando o caminho por onde havíamos entrado uma hora antes. As portas foram fechadas com um sistema de segurança muito avançado, algo que eu nunca tinha visto na vida. Eu só conhecia os tradicionais trincos de casa, nada como essas portas; era um bloco de aço.
As pessoas começaram a gritar e a dançar ao som da música num volume bastante alto. Abri caminho e cheguei até as escadas, subi pelos corrimãos. —Onde diabos estará Lorena?!—. A situação desandou de vez em frações de segundos, as mulheres começaram a se despir, assim como os homens. Deus! Onde eu fui me meter? Desviei o olhar, não sou nenhuma santa, mas ver mais de um membro à mostra e dezenas de seios saltitando não era minha obsessão, muito menos uma fantasia sexual.
Dei as costas, subi as escadas de dois em dois degraus ao constatar a cena de pornografia em grande escala, ao vivo e a cores. Meu coração batia a mil por hora. Cheguei ao segundo andar, segurei na primeira maçaneta, um barulho me fez parar. As janelas da grande sala se fechavam por fora; eram cortinas de aço. Estavam nos trancando? As pessoas gritavam eufóricas porque, pelo que suponho, isso era comum e elas sabiam o que ia acontecer. Tentei abrir a primeira porta, mas ela não abriu, corri para a segunda... nada.
Meu coração estava a ponto de explodir de susto. Nenhuma das portas do segundo andar abriu. Ao chegar ao final do corredor, frustrada pela situação sem conseguir entrar em nenhuma sala, decidi subir as escadas para o terceiro andar. Me debrucei sobre o balcão interno; via-se as pessoas dançando nuas. "Que sorte a minha", pensei. No terceiro andar havia duas portas, abri a primeira e bingo! Entrei e tranquei a porta, sentindo alívio por estar protegida.
O quarto era grande. Havia três portas; a primeira não abriu, devia estar trancada do outro lado. A segunda dava para um banheiro de fazer inveja, soltei um assobio de admiração, quem dera meu banheiro fosse um quarto do tamanho deste. A terceira porta levava a um balcão, saí para tomar um ar fresco.
Contemplei a ideia de me jogar, mas “quebraria uma perna se tivesse sorte”. Decidi ficar até que Lorena desse sinais de vida. Ela disse para me trancar em um dos quartos e, quando terminasse, viria me buscar. Ela deve saber como sair desses lugares. Vi o pôr do sol… Que ironia! Era uma tarde linda em um quarto digno de capa de revista de decoração. O designer de interiores contratado era um gênio. Onde quer que você olhasse, tinham escolhido as melhores e mais finas artesanias. A cama era uma tentação para dormir.
Enquanto pensava na situação paradoxal, não tinha ideia de como estava a tal orgia atrás de mim. — Ri. — Assim era a vida, sempre havia dois caminhos: o bem e o mal. Sempre existia a disputa contínua e infinita entre os dois lados.
Para muitas pessoas, a escolha fácil era se deitar e aproveitar na sala, mas não ficar aguentando frio, desesperada esperando uma amiga aparecer. A chave era tomar decisões e torcer para que fossem as corretas. Tudo dependia do seu critério, criação, valores e conceito de vida. No meu caso, ficar trancada era a única saída. Passaram-se vários minutos, começou a escurecer quando ouvi a voz de um homem.
—O que você está fazendo aqui?!
No balcão, havia entrado um jovem alto, de cabeça raspada, cujo olhar me intimidou. Ele era atraente. Pelo susto, gaguejei um pouco.
—E-eu… é que… eu… bem…
—Você é gagá?
Ele falou de uma forma tão desdenhosa, sua atitude não foi agradável e eu reagi. Ele não deve ser nada bom se estava aqui. Embora, eu também estivesse e não sou nenhuma puta.
—Não. Não sou, é que… você me assustou! —Ele recostou-se na grade do balcão, cruzando os braços, reparando meu corpo de cima a baixo.— Perdeu uma igual? —Típico de mim, não consigo ficar calada.
—Não perdi nada que prestasse.
Respondeu sério. Já havia escurecido e a luz do balcão se acendeu. Sua resposta foi bastante desagradável e reconheço que foi porque não passei na avaliação visual dele. E daí? O que importa se ele não gostou de mim? Por que você tem que agradar, Verônica? Me recriminei. Que se dane! Deve ser um bandido, filho de algum velho verde fornicador do andar de baixo.
» Eu odeio repetir as perguntas, o que você faz aqui?
—Só queria… procurava um pouco de solidão. —Ele levantou uma das sobrancelhas, isso o fez parecer mais atraente. Ele era muito masculino, com olhos verdes… —Quem é você?
—Alguém que poderia fazer com você o que quisesse.
Fiquei nervosa, entrei no quarto, esse cara podia me violentar. Corri para abrir a porta, pensando que já tinha passado. Ele estava vestido. No entanto, não contava com a cena ao sair do refúgio. Presenciei uma cena de filme pornô inimaginável. Meu estômago se revirou. O cheiro de sexo em abundância, álcool, drogas e cigarros, não suportei. Como Lorena consegue viver em torno disso? Senti nojo. Ao me virar, empurrei o jovem e corri para dentro, em busca do banheiro que tinha visto, para vomitar.
