CAPÍTULO 1 - DIAS ATUAIS
Saphira suspirou ao terminar de guardar a última leva de roupas lavadas. Com as tarefas feitas, ela finalmente podia aproveitar o resto do seu aniversário... ou ao menos tentar. Subindo as escadas com cuidado, ajeitando o cesto nos braços, ela parou na primeira porta que encontrou. Seus olhos recaíram sobre os adesivos bobos que diziam: “Proibida a entrada de meninas”.
Era o quarto de Connor. Cinco anos tinham se passado desde a morte do irmão, mas a dor ainda parecia recente. Todo ano, no seu aniversário e no dia do falecimento dele, ela revivia os acontecimentos daquela noite, passo a passo. Sabia que não era saudável, mas não conseguia evitar. Mesmo agora, ainda esperava que um dia acabaria se lembrando de alguma coisa que ajudasse a dar sentido a tudo.
De coração pesado, passou pelo quarto dele e foi guardar as roupas rapidamente. Agora que tinha terminado, recolheu-se ao seu quarto pequeno, fechando a porta atrás de si. Jogou-se na cama e fechou os olhos, com as lembranças de Connor e daquela noite fatídica ainda assombrando seus pensamentos. Revivendo aquele dia toda vez que fechava os olhos.
Saphira abriu os olhos e encarou o teto, sentindo a incômoda sensação de que estava deixando escapar algo crucial. A Ruby não queria matar o próprio irmão, queria?
Antes que pudesse pensar mais nisso, ouviu passos no corredor. Ela se sentou e escutou com atenção quando eles pararam do lado de fora da sua porta.
— Saphira, desça. Temos alguns assuntos para discutir — chamou Lupus, seu pai, através da porta.
— Tá bom, já estou indo — respondeu.
Ela se levantou e saiu depressa do quarto, seguindo o pai escada abaixo. Ao chegarem à cozinha, ela viu o Alfa da matilha. O Alfa nunca vinha ali a menos que fosse algo sério, o que a deixou um pouco nervosa. Será que ele estava ali por causa de Connor? Tinham encontrado um corpo e agora ela seria punida por isso?
— Obrigado por se juntar a nós, Saphira — começou o Alfa, quando ela se sentou à sua frente.
— De nada, Alfa — respondeu. Era desrespeitoso e passível de punição não se dirigir ao Alfa ao ser cumprimentada, então ela mordeu a língua, apesar de não querer ser educada.
— Nós permitimos que você ficasse aqui por cinco anos e, como ainda não demonstra sinais de transformação, decidimos como matilha que chegou a hora de você partir. Devido às circunstâncias dos seus crimes, você não será banida, mas será enviada ao Casamenteiro. Lá, você encontrará uma nova vida para si. Independentemente do resultado, você nunca deve voltar aqui. Entendeu? — disse ele, com firmeza.
Saphira o encarou, chocada; ela já tinha ouvido histórias sobre o Casamenteiro — todo mundo tinha. E por um bom motivo.
— Entendi — respondeu, ainda atônita.
— Ótimo. Agora vá arrumar suas coisas. Você parte em vinte minutos — ordenou.
Vinte minutos? Eles não estavam exatamente dando muito tempo — e justo no dia do aniversário dela.
Saphira assentiu e correu para o quarto. Não se surpreendia por estarem mandando-a embora; a única coisa com que a matilha se importava era status, posição e força. Mesmo antes de não conseguir se transformar, ela já era uma pária — não por algo que tivesse feito, mas porque seu pai a teve antes de escolher uma companheira para dividir a vida. Qualquer tipo de relação — principalmente ter filhos antes de reivindicar e marcar uma companheira escolhida — era malvisto na matilha, e, por isso, ela nunca foi realmente aceita como parte dela.
Ela pegou a bolsa e, rapidamente, arrumou suas roupas, acessórios e itens de higiene. Felizmente, não tinha muita coisa, o que facilitou o processo. Com pouco mais de dez minutos restantes, trocou a roupa surrada por uma calça jeans preta skinny e uma blusa branca frente única. Depois, parou um instante para conferir o cabelo.
Saphira se olhou no espelho. Não se parecia em nada com o pai; ele tinha olhos azuis e cabelo loiro, enquanto ela tinha olhos dourados e cabelo ruivo-acobreado. Até os traços do rosto eram diferentes; ela tinha maçãs do rosto altas e lábios carnudos, enquanto ele não tinha lábios e tinha as maçãs do rosto baixas.
“Saphira, o carro já chegou. Está na hora de ir.” O Alfa gritou lá de baixo. Inspirando fundo, ela pegou a bolsa e saiu do quarto. Quando alcançou o topo da escada, Ruby apareceu no corredor, saindo do próprio quarto.
“Espera”, Ruby gritou.
Saphira suspirou e se virou para encará-la. “O quê?”
A voz de Ruby escorria maldade quando ela falou: “Eu sempre soube que você encontraria o seu fim; a Casamenteira também foi ideia minha. Já que eu não pude te empurrar do penhasco com minhas próprias mãos, isso foi a melhor opção.”
Saphira olhou para a meia-irmã e, apesar do que sabia sobre a Casamenteira, ainda preferia estar indo para lá do que passar mais um dia sob o mesmo teto que Ruby. Virou as costas para ela e, antes de descer, lançou um olhar rápido por cima do ombro. “Adeus, Ruby.”
Saphira conhecia o joguinho de Ruby; vinha vivendo aquilo nos últimos cinco anos. Ruby queria fazê-la se sentir triste ou de coração partido, mas, por mais que tentasse, Saphira simplesmente não se importava o suficiente. Sabia que Ruby queria empurrá-la ao limite e, no fundo, suspeitava que Ruby estava feliz com a morte de Connor.
Saphira continuou descendo as escadas; o Alfa e seu pai estavam perto da porta, conversando. Quando ela se aproximou, eles pararam para olhá-la, sem demonstrar emoção alguma no rosto — especialmente o pai. Não que isso a surpreendesse.
“O motorista vai escoltá-la na sua viagem até a Casamenteira. Boa sorte, Saphira.” O Alfa disse, dando um tapinha em seu ombro antes de sair, fazendo um aceno para o motorista. Saphira começou a segui-lo com a bolsa, mas Lupus colocou uma mão no ombro dela, impedindo-a. Ela se virou para encará-lo, confusa.
Lupus falou num tom que mal disfarçava sua tentativa de parecer sincero: “Antes de você ir, não importa o que tenha acontecido, você sempre vai ser minha filha. Espero que tudo dê certo para você; só, por favor, tome cuidado e seja feliz. Vou sentir sua falta.”
Ela não acreditava na cara de pau dele. Onde estava essa preocupação quando ela era mais nova, ou quando Connor morreu? Ela não ia permitir que ele fingisse ser um pai carinhoso agora, só para evitar se sentir culpado por mandá-la embora. Ele tinha falhado com ela fazia muito tempo, e aquilo era a gota d’água.
Sem hesitar, Saphira retrucou: “Eu não sou sua filha. Nunca fui, e você sempre me tratou como se não fosse. Seja qual for o meu destino na Casamenteira, ainda vai ser melhor do que ficar aqui.” Ela disse, com orgulho, antes de se virar e ir até o carro.
Ela não queria ouvir mais uma palavra nem ver a cara dele nunca mais; só queria estar o mais longe possível deles.
Ela entrou no carro no fim da entrada e não olhou para trás.
