Capítulo 2
No dia seguinte, eu servi o café.
Gustavo entrou na cozinha de terno, cheirando ao sabonete caro que eu comprava porque ele dizia que o barato o fazia parecer pobre. Ele olhou para o meu lábio, onde eu tinha passado uma camada de corretivo, e não disse nada. O silêncio dele era um pedido de desculpas que ele nunca pagaria em palavras. Eu já conhecia a moeda.
— Hoje eu volto tarde — ele disse. — Reunião.
— Tá bom — eu respondi, e empurrei a xícara na direção dele.
Theo comia o pão com a seriedade de quem realiza uma tarefa importante. Gustavo passou a mão no cabelo do menino, e por um segundo eu vi o pai que ele gostava de fingir ser, e entendi uma coisa que ia me guiar pelos próximos meses: eu não ia lutar contra esse homem. Eu ia documentá-lo.
Quando a porta bateu, eu liguei o computador.
A empresa de Gustavo tinha conta conjunta comigo desde o começo do casamento, porque, segundo ele, "você entende de número e eu não tenho paciência". Durante seis anos isso pareceu um elogio. Naquela manhã, eu percebi que ele tinha me dado, sem saber, a chave da casa inteira.
Eu abri o extrato. Não procurei nada de óbvio. Procurei o que um auditor procura: a repetição que não deveria repetir. Saques no mesmo dia da semana. Um cartão suplementar emitido oito meses antes, em um nome que eu não reconheci no primeiro instante e reconheci no segundo. Priscila constava também como prestadora de serviço da empresa, com pagamentos mensais que começavam pequenos e cresciam.
Eu não fiz cara de surpresa para ninguém, porque não havia ninguém. Apenas anotei.
E continuei. Porque um número errado nunca vem sozinho — ele vem com a família inteira. Encontrei um segundo cartão. Encontrei retiradas em dinheiro nos mesmos três dias do mês, sempre valores quebrados, do tipo que não chama atenção do sistema mas chama a minha. Encontrei um aluguel sendo pago, pequeno, num bairro do outro lado da cidade, numa conta que não era nossa casa. Cada linha que eu achava abria três portas novas, e atrás de cada porta havia mais um Gustavo que eu não conhecia, montado ao longo de meses, talvez anos, enquanto eu servia o café e achava que entendia o homem com quem dormia.
Eu deveria ter sentido raiva. Em vez disso senti uma calma fria, quase profissional, a mesma calma de quando uma auditoria difícil finalmente começa a fazer sentido. Os números não mentem, e ali, na tela, estava a verdade que a minha boca tinha se recusado a dizer havia meses: o meu casamento já tinha acabado há muito tempo. Ele só não tinha me avisado. Tinha sido mais econômico me deixar no escuro.
Abri uma planilha nova, em branco, e dei a ela um nome que não chamaria atenção se ele a visse: "orçamento doméstico 2º semestre".
Naquela planilha eu comecei a construir a coisa mais perigosa que uma mulher casada com um homem como Gustavo pode construir: um mapa.
À tarde, com o Theo na creche, eu fiz a ligação.
A voz do outro lado era de mulher, calma, treinada para receber ligações de gente com a mão tremendo.
— Casa de Apoio Margarida, bom dia.
— Eu queria falar com a doutora Fernanda Moura — eu disse. — Uma amiga me passou o nome.
Não havia amiga. Havia uma noite de insônia e um nome encontrado num grupo de mães do bairro, onde uma mulher tinha escrito, meses antes: "se alguém precisar, essa advogada salvou a minha vida e não cobrou nada que eu não pudesse pagar".
— A senhora está em segurança agora para falar? — perguntou Fernanda, antes de qualquer outra coisa.
A pergunta me pegou de um jeito que o tapa não tinha conseguido. Em segurança. Ninguém tinha me perguntado isso. Nem eu.
— Estou no carro — eu disse. — Ele está no trabalho.
— Então me escuta. A primeira coisa não é provar nada. A primeira coisa é o seguinte: onde está o seu filho quando ele perde o controle?
Eu fechei os olhos. Theo, na sala, brincando de carrinho, enquanto a luz do quarto acendia.
— Perto — eu disse. — Perto demais.
— Então é isso que a gente resolve primeiro — disse Fernanda. — Antes do dinheiro, antes da prova, antes de tudo. A gente coloca uma parede entre ele e a criança. Você consegue uma desculpa para mandar o Theo dormir na casa da sua mãe alguns dias por semana?
Minha mãe morava a quarenta minutos. Sempre reclamava que via pouco o neto.
— Consigo — eu disse.
— Ótimo. Então anota o meu número direto. E, dona Camila — ela fez uma pausa —, a senhora não está exagerando. As mulheres sempre acham que estão exagerando. É por isso que elas demoram. Não demora.
Eu desliguei e fiquei olhando o estacionamento da creche por um tempo que não contei.
Depois peguei a caneta e, na planilha mental que eu carregava o dia inteiro, escrevi a primeira linha de verdade:
Theo primeiro. Sempre.
Era a única linha que, se Gustavo a encontrasse, eu não conseguiria explicar como orçamento doméstico.
E era a única que eu não apagaria por nada neste mundo.
