O Dia em que Aprendi a Fugir

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Luna Vasconcelos · Concluído · 11.6k Palavras

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Introdução

Casada há seis anos, eu sempre soube ler números antes de ler pessoas.

Na noite em que ele descobriu que eu tinha visto a foto no celular dele, a mão dele encontrou o meu rosto antes de qualquer palavra.

Eu não chorei. Esperei ele dormir, tirei o cotonete da bochecha, guardei no saquinho lacrado e fotografei o roxo no dorso da minha mão sob a luz do banheiro.

Ele acha que amanhã eu vou servir o café como sempre. Vou servir.

Mas a contagem já começou — e quem conta sou eu.

Capítulo 1

Casada há seis anos, eu sempre soube ler números antes de ler pessoas.

Na noite em que ele descobriu que eu tinha visto a foto no celular dele, a mão dele encontrou o meu rosto antes de qualquer palavra.

Eu não chorei. Esperei ele dormir, tirei o cotonete da bochecha, guardei no saquinho lacrado e fotografei o roxo no dorso da minha mão sob a luz do banheiro.

Ele acha que amanhã eu vou servir o café como sempre. Vou servir.

Mas a contagem já começou — e quem conta sou eu.


A foto não era de uma cliente.

Eu percebi isso pela forma como Gustavo segurava o celular: virado para baixo na mesa de jantar, a tela escondida contra a madeira como se a madeira pudesse trair alguém. Em seis anos de casamento, eu tinha aprendido que Gustavo só escondia o que já tinha decidido manter.

Theo brincava no tapete da sala com os carrinhos, fazendo o barulho de motor que ele inventava com a boca. Quatro anos. O cabelo dele precisava de corte. Eu reparei nisso e reparei, ao mesmo tempo, que o celular de Gustavo vibrou três vezes seguidas, rápido, do jeito que vibra quando alguém está digitando do outro lado.

— Vou tomar banho — ele disse, e levou o celular junto.

Eu lavei os pratos. Foi o que eu fiz. Lavei os pratos e contei as vibrações que tinha ouvido, e somei aos sábados em que ele saía "resolver coisa da empresa", e ao perfume que não era o meu e que eu tinha sentido na gola da camisa dele duas semanas antes e tinha decidido não sentir.

Eu sou contadora. Meu trabalho é o seguinte: quando os números de uma planilha não fecham, você não grita com a planilha. Você procura a linha onde o dinheiro entrou e não devia, ou saiu e não foi anotado. Você procura em silêncio, porque a planilha não sabe que você está procurando, e essa é a sua única vantagem.

Naquela noite, depois que ele dormiu, eu peguei o celular dele na mesinha.

Eu sabia a senha. Era a data de nascimento do Theo. Gustavo gostava de parecer um pai que não esquecia datas.

A foto era de uma mulher que eu conhecia. Priscila, da equipe dele. Vinte e oito anos, talvez. Na foto ela não estava posando para ninguém — estava dormindo, a luz de um abajur que não era o nosso, o lençol que não era o nosso. Quem tira essa foto não está apaixonado. Quem tira essa foto está colecionando.

Eu fiquei olhando aquela tela por mais tempo do que precisava. Não pela mulher. Pela data no canto, pelo lençol, pelo abajur — pelos detalhes, que é onde mora a verdade. Eu esperei a dor chegar, a dor que as mulheres da televisão sentem nesse momento, a que faz a gente jogar o celular na parede e gritar. Esperei e ela não veio. No lugar dela veio outra coisa, mais útil e mais assustadora: a frieza de quem abre uma planilha e finalmente vê, em uma única célula, a explicação para todos os números que não fechavam havia meses. Os sábados. O perfume. As vibrações. Tudo de repente fazia sentido, e a coisa que faz sentido para de doer e começa a virar plano.

Eu não apaguei nada. Eu não mandei nada para mim mesma — um print deixa rastro no aparelho dele. Em vez disso, peguei o meu próprio celular, fotografei a tela dele com a foto aberta, e anotei mentalmente a data e a hora que apareciam no canto.

Foi aí que a luz do quarto acendeu.

— O que você está fazendo com o meu celular?

A voz dele estava perfeitamente acordada. Ele não tinha dormido. Ou tinha, e acordou no instante exato em que o peso do aparelho deixou a mesinha. Homens que escondem coisas dormem com um ouvido aberto.

— Vibrou — eu disse. — Achei que fosse a sua mãe.

Ele atravessou o quarto. Eu vi a decisão se formar no rosto dele antes de ela chegar à mão — e a mão chegou.

Não vou descrever o que veio depois. Vou descrever o que eu fiz depois, porque foi isso que importou.

Eu me levantei do chão. Fui até o banheiro. Tranquei a porta. E, em vez de chorar diante do espelho, eu acendi a luz, abri o gancho do armarinho, e tirei um dos cotonetes que eu usava para limpar o canto dos olhos do Theo.

Passei o cotonete no lábio que tinha aberto. Guardei dentro de um saquinho plástico daqueles de congelar fruta, escrevi a data com caneta na fita, e prendi no fundo da caixa de absorventes, onde Gustavo jamais colocaria a mão.

Fotografei o dorso da minha mão, onde o roxo já estava nascendo, com a data visível no canto da tela.

Olhei para a mulher no espelho. Ela estava com medo. Mas o medo, eu descobri ali, é só uma informação. Igual a um número que não fecha.

A contagem tinha começado. E quem contava era eu.


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