Capítulo 3

Demorou onze dias para a segunda vez.

Eu sabia que viria, do mesmo jeito que a gente sabe que uma conta vai vencer. A única dúvida era a data. Naqueles onze dias eu tinha mandado Theo dormir na casa da minha avó em duas noites, com a desculpa de que minha mãe estava com saudade e que o menino adorava a horta. Gustavo nem reparou. Homens que estão ocupados escondendo uma vida não contam as ausências da outra.

Na décima primeira noite, ele chegou com cheiro de uísque e com uma raiva que não tinha endereço.

Theo estava em casa naquela noite. Esse é o detalhe que eu carrego com mais cuidado do que carreguei a prova: ele estava em casa.

Quando ouvi a chave raspando a fechadura do jeito errado, eu já estava de pé. Peguei o Theo no colo, ainda meio dormindo, e o levei para o quarto dos fundos, o antigo escritório, que tinha uma porta de verdade e uma chave que funcionava. Liguei o ventilador no máximo, não pelo calor, mas pelo barulho. Coloquei os fones de ouvido pequenos nele, aqueles com o desenho de dinossauro, e botei o vídeo dos carrinhos que ele assistia em loop.

— Fica aqui, meu amor. A mamãe vai resolver uma coisa de adulto e já volta. Se você ouvir um barulho, é a televisão da sala, tá? É só a televisão.

Ele balançou a cabeça, os olhos já fechando de novo. Eu tranquei a porta por fora e guardei a chave no bolso.

Foi só então que eu fui receber o meu marido.

Não vou contar essa parte. Quem precisa que eu conte essa parte para acreditar em mim é a mesma pessoa que perguntaria à planilha por que ela não fecha. O que eu preciso que se saiba é o seguinte: o ventilador funcionou. A porta funcionou. Os dinossauros funcionaram. Theo não viu. Theo não ouviu. Eu verifiquei isso depois, com a calma de quem confere um saldo, perguntando a ele de manhã se tinha dormido bem, e ele me respondeu que sim, que tinha sonhado com um trator. Trator. Eu repeti a palavra para mim mesma o dia inteiro como se fosse uma oração.

Quando acabou, e Gustavo desabou no sofá no sono pesado dos que confundem violência com cansaço, eu fiz o de sempre.

Fotografei. Dessa vez foi o braço e a lateral da costela. Datei. Mas não bastava fotografar. Fernanda tinha me ensinado isso na segunda ligação, com a paciência de quem ensina uma criança a atravessar a rua: a prova só serve se a forma como você a guardou também sobreviver a um advogado do outro lado.

— Foto no celular qualquer advogado derruba — ela tinha dito. — Diz que você editou, que mudou a data, que forjou. Você precisa de uma corrente que ninguém quebre. Então escuta o que você vai fazer toda vez.

E eu tinha decorado, como se decora uma reza. Tirar a foto com a data do aparelho ligada. Mandar para o e-mail neutro no mesmo minuto, porque o servidor registra a hora de envio e isso ninguém edita. Nunca, nunca usar o computador de casa. Anotar num caderno, à mão, o que tinha acontecido, com a minha letra, porque um relato escrito a quente, datado, vale mais do que a memória de uma mulher assustada seis meses depois numa sala de audiência.

Então foi o que eu fiz, ali, às duas da manhã, com a costela latejando. Abri o e-mail de nome neutro no celular em modo anônimo. Anexei as fotos. Escrevi, no corpo da mensagem, três linhas secas, sem adjetivos, do jeito que se preenche um relatório: a data, a hora aproximada, o que ele tinha bebido, o que ele tinha dito, onde estava o Theo. Apertei enviar. Esperei o "mensagem enviada" aparecer. Só então respirei.

Guardei também numa nuvem que ele não sabia que existia. Duas cópias. Porque uma contadora sabe que um único registro não é registro nenhum: é só uma coisa que pode sumir.

Depois eu fui buscar Theo. Carreguei ele de volta para a cama dele, tirei os fones, guardei os dinossauros na gaveta.

E aí, só aí, sozinha no corredor escuro, eu deixei a mão tremer por exatos dez segundos. Eu contei. Dez. No décimo primeiro, parei.

Tremer era um luxo. E eu não tinha mais orçamento para luxo.


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