Capítulo 4

A Casa de Apoio Margarida ficava atrás de uma igreja, numa sala que parecia de dentista, com cadeiras demais e revistas velhas.

Fernanda Moura tinha quarenta e dois anos e a postura de quem já tinha ouvido tudo e ainda assim escolhia voltar para aquela sala todos os dias. Apertou a minha mão com firmeza, não com pena. Eu agradeci silenciosamente por isso.

Eu coloquei sobre a mesa o que tinha trazido: o pen drive com as fotos datadas, a impressão da planilha, os extratos com o cartão suplementar destacado em amarelo, o saquinho com o cotonete da primeira noite, ainda lacrado.

Fernanda olhou tudo sem tocar, do jeito que se olha uma coisa que pode ser usada num tribunal. Demorou. Depois levantou os olhos.

— Camila, eu vou ser muito honesta com você, porque você merece. — Ela juntou as mãos. — Com isso aqui, hoje, eu consigo uma medida protetiva. Consigo afastar ele de casa, consigo a guarda provisória do Theo, consigo registrar a agressão. O que você trouxe já é mais do que noventa por cento das mulheres conseguem trazer. Você pode sair dessa casa nesta semana.

Era para ser a frase que me faria chorar de alívio. Eu vi que ela esperava o alívio. Era o momento em que as mulheres choravam, na sala dela, e ela já tinha o lenço pronto na gaveta.

Eu balancei a cabeça.

— Não.

Ela não esperava o não. Inclinou-se um pouco para a frente.

— Não o quê?

— Uma medida protetiva tira ele de casa — eu disse. — Não tira a casa dele. Não tira a empresa, que está metade no meu nome e que ele está esvaziando há oito meses. Não tira o carro, que ele vai dizer que é dele. Daqui a seis meses ele me liga aos prantos, jura que mudou, e o juiz, que é um homem cansado, vai achar bonito o pai arrependido. Eu já vi essa planilha fechar desse jeito, doutora. Sempre fecha a favor de quem tem o contador.

Fernanda me olhou por um tempo longo. Alguma coisa no rosto dela mudou — não era pena, era reconhecimento, de uma profissional para outra.

— Então você não quer fugir — ela disse devagar. — Você quer que ele não tenha para onde ir.

— Eu quero o seguinte. — Eu me inclinei também, e a minha voz saiu mais baixa do que eu planejava, mas não menos firme. — Eu quero o Theo em segurança. Quero a parte que é minha, em dinheiro, na minha conta, antes que ele esconda. E quero que, no dia em que isso tudo acontecer, não seja eu correndo no escuro com uma mala. Quero que seja ele, parado na porta da delegacia, entendendo pela primeira vez na vida o que é não ter mais nenhuma saída. Eu não quero apenas escapar. Eu quero que ele não tenha mais nada nesta cidade. Nem um centavo.

A sala ficou em silêncio. Lá fora, um sino da igreja bateu uma vez.

Fernanda me estudou por um longo momento, e quando falou, a voz dela tinha mudado de registro — não era mais a assistente social acolhendo uma vítima, era uma estrategista avaliando uma aliada.

— Você sabe que noventa por cento das mulheres que sentam nessa cadeira querem sair correndo, e está certíssimo que queiram, porque sair correndo salva vida. — Ela apoiou os cotovelos na mesa. — Mas de vez em quando senta aqui uma que não quer correr. Que quer ficar o tempo exato para virar o jogo e sair pela porta da frente, com tudo. Essas são as mais raras e as que mais me tiram o sono, porque o plano delas é melhor, mas o risco é maior. Eu preciso saber em qual das duas você está, porque eu trabalho diferente para cada uma.

— Eu não sei correr, doutora — eu disse. — Eu sei contar. Me dá uma planilha e um pouco de tempo, e eu fecho qualquer coisa. Me bota para correr no escuro com uma mala e um filho de quatro anos, e eu perco. Então eu vou jogar o jogo que eu sei ganhar.

Fernanda puxou um caderno. Não o lenço da gaveta. O caderno.

— Então isso vai levar mais tempo — ela disse. — E vai ser mais perigoso. Porque uma mulher que sai é uma mulher que ele perdeu. Uma mulher que fica para preparar tudo é uma mulher que ele ainda acha que tem. E o dia em que ele descobrir que não tem... — ela me encarou — ...é o dia mais perigoso da sua vida. Você entende isso?

— Entendo — eu disse.

— Não, escuta de verdade. — Ela pousou a caneta. — A maior parte das mulheres morre não quando fica. Morre quando vai embora. No instante exato em que ele sente que perdeu o controle. É esse o instante que a gente vai ter que atravessar. E a gente só atravessa uma vez. Sem ensaio.

Eu olhei para o pen drive em cima da mesa. Para o cotonete lacrado. Para os oito meses de números amarelos.

— Então a gente acerta de primeira — eu disse. — Eu sou contadora, doutora. Eu não entrego planilha que não fecha.

Fernanda abriu o caderno numa página em branco e escreveu uma data no topo. A data daquele dia.

— Pronto — ela disse. — Começou.


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