Capítulo 1 Novo companheiro de equipe
Ponto de vista de Ethan
Eu o beijo como se estivesse faminto há anos.
Então esqueço seu rosto.
Chuva. Música. Álcool. Mãos. Risadas.
Dedos frios. Hortelã. Alguém sussurrando: "Talvez no próximo verão."
Depois, escuridão.
O apito do árbitro soou e me trouxe de volta ao meu corpo.
Ethan Drake. Número 19. Capitão dos Ridgewood Wolves. Três mil pessoas no ginásio, e cada uma delas sabia exatamente onde eu estava.
O coro começou baixo na seção dos estudantes no segundo em que saí do túnel. Drake. Drake. Drake. Foi crescendo, voz sobre voz, até eu conseguir senti-lo através das proteções no peito.
Não olhei para o telão. Nem precisava. Meu rosto já estava lá entre os períodos, do mesmo jeito que estava nas costas de metade das camisas nas arquibancadas. Quando tantos olhos estão em você, você aprende onde todos eles estão sem precisar conferir.
Puxei uma única lufada do ar da pista, cortante e congelante, e cravei as lâminas no gelo. O frio atravessou minhas proteções como sempre fazia, e eu me agarrei a ele. Todo o resto num lugar assim podia mentir para você. O frio nunca mentia.
"Olhos abertos", chamei, firme, do jeito que o técnico gostava. "Vamos terminar do jeito que começamos. Nada de relaxar."
Asher Kane bateu o taco no meu. Ala direita, meu melhor amigo desde o primeiro ano. "Tá bem, Capitão?"
"Sempre." Então, porque ele perceberia se eu deixasse a resposta limpa demais: "Pergunta de novo depois que a gente fechar isso." Uma piada. Uma pequena verdade cobrindo a maior. Eu fazia isso havia tanto tempo que já não me custava mais nada.
O apito cortou o barulho. Ganhei o face-off limpo e mandei o disco de volta para o nosso defensor antes mesmo de o center dos Eagles se mexer. Partimos para cima. A torcida rugiu. Meu sangue correu daquele jeito que só corre em velocidade máxima — cada nervo aceso, taco estendido, o disco se movendo como se estivesse lendo minha mente.
Faltavam seis minutos para o fim do segundo tempo. Estávamos vencendo o Eastern Michigan por 2 a 1, e o placar não significava nada. Uma troca ruim e os olheiros espremidos na cabine de imprensa começariam a escrever sobre a minha liderança. Uma mudança errada de linha e a carta de bolsa na minha mesa em casa — aquela que eu já tinha lido onze vezes — viraria um não educado. Eu tinha transformado a temporada inteira num muro entre mim e aquela carta. Não podia deixar um único tijolo sair do lugar.
Passei para Asher, fita com fita. Ele carregou o disco além da linha azul, fingiu duas vezes, chutou. O goleiro rebateu para o lado, e eu já estava avançando para a rede, ombro contra o defensor deles. O rebote ficou solto no crease, e meu taco o encontrou antes que eu mesmo percebesse. Enterrei o disco por baixo do travessão.
Luz de gol. Sirene. 3 a 1.
O ginásio explodiu.
Não dei a eles o sorriso de pôster — aquele pendurado do lado de fora do centro esportivo que deveria parecer sem esforço. Patinei até o banco, toquei as luvas dos caras, mantive o rosto exatamente como as câmeras queriam, já pensando na próxima troca. Aquele era o trabalho. Manter a máquina funcionando. Não dar a eles nada que pudessem levar para fora do ginásio.
Por baixo de tudo, o mesmo pensamento em looping.
E se soubessem?
Empurrei aquilo de volta para a caixa onde vivia e ocupei meu lugar. Havia muita coisa naquela caixa. A bolsa. A carta. E, debaixo de todo o resto, a coisa que eu nunca tinha dito em voz alta para ninguém dentro dessas paredes — a coisa que um garoto numa varanda encharcada de chuva descobriu sobre mim em menos de um minuto no verão passado, porque eu deixei. Esse era o truque da caixa. Você podia carregar qualquer coisa, desde que ninguém visse você pegando.
"Drake." O latido do técnico Harlan. "Troca de linha. Fica esperto."
Passei por cima da barreira e me deixei cair no banco, as pernas pesadas. Asher me entregou uma garrafa d'água sem dizer nada. Ele sempre sabia. Bebi metade, limpei a boca com as costas da luva e deixei os olhos correrem pelo gelo.
O sistema de som chiou.
"Entrando pelos Wolves — número 7, Ares Cole!"
A torcida reagiu mais com um "hã?" do que com aplausos. O nome já vinha circulando no vestiário a semana toda — transferido de algum programa no oeste, apareceu no meio da temporada, alguma situação que ninguém dizia em voz alta. O técnico o chamou de talento bruto com problema de atitude. Eu já tinha decidido que ele não era problema meu.
Então ele passou por cima das tábuas.
Ele não correu. Deslizou, como se o gelo estivesse esperando por ele. Um e oitenta e oito, talvez mais, feito para contato e leve nas lâminas. Tatuagens escuras desciam pelos dois antebraços sob as mangas. Capacete bem afivelado. Ele não olhou para o banco. Não olhou para a torcida. Três mil pessoas, e ele se movia como se nenhuma delas tivesse qualquer direito sobre ele. Tomou o centro como se aquele lugar sempre tivesse sido dele.
O disco caiu. Ele ganhou o face-off antes que o nosso center terminasse de pensar, girou, atravessou direto a nossa defesa antes que eles se posicionassem. Duas passadas até a zona perigosa — sem olhar, sem hesitar — e disparou um wrist shot no ângulo, do lado da luva. Tão limpo que o bloqueador do goleiro mal se mexeu.
Luz de gol. 3–2.
O ginásio foi à loucura.
Ares patinou de volta exatamente no mesmo ritmo em que tinha saído. Sem soco no ar. Sem bater no capacete. Nada. Ele tinha acabado de marcar contra um time ranqueado nos primeiros quarenta segundos dele no hóquei universitário, e seu rosto não mudou — nem pelo gelo, nem pelo barulho, nem pelo gol. Nada daquilo o tocava.
Ele passou pela nossa linha. Seus olhos se ergueram uma vez e prenderam nos meus por menos de um segundo.
Eu desviei o olhar primeiro. Meu ginásio. Meu nome em cada uniforme ali dentro, e fui eu quem desviou o olhar primeiro.
— Cole! — O técnico bateu palmas, seco, por cima do barulho. — Esse é o padrão bem aqui!
O banco vibrou. Asher me cutucou com o cotovelo.
— O garoto não tá de brincadeira.
— Não. — Saiu meio fora do tom. Eu ouvi e trouxe a voz de volta para onde ela morava. — Não tá mesmo. Melhor pra gente.
Sentei. Meus joelhos não paravam quietos sob as proteções. A cicatriz no meu lábio — lisa e curada havia meses — repuxou no frio, e pressionei a língua contra a parte de dentro dela. Velho hábito. Um cuja origem eu já não conseguia mais rastrear.
Ares se jogou na ponta mais distante do banco. O suor já escurecia a borda do capacete. Ele tirou uma das luvas e flexionou a mão duas vezes — os nós dos dedos, depois os dedos. As tatuagens se moveram junto. Linhas pretas e afiadas. Uma constelação, talvez. Difícil dizer daqui.
Então eu vi.
Uma cicatriz. Uma linha branca fina atravessando a curva do lábio inferior dele.
A chuva. A varanda. Hortelã. Aquela mesma cicatriz roçando na minha boca logo antes de—
Não.
Impossível.
Ele ergueu os olhos. Eu não tinha desviado rápido o bastante. O canto da boca dele se moveu — não um sorriso, algo mais curto do que isso — e então sumiu, e a arena ainda rugia por causa de um gol que já tinha trinta segundos.
Voltei a olhar para o gelo. Apertei as luvas. Acompanhei o disco.
O apito soou para o próximo face-off. Empurrei o corpo para fora do banco e mantive a voz exatamente onde ela precisava estar.
— Vamos, Wolves.
Saltei por cima das tábuas e meus patins morderam o gelo. Quarenta segundos até a queda do disco. Passei cada um deles nas mesmas três frases que sempre usava. Você está bem. Está no controle. A armadura aguenta.
Ares Cole estava usando uma camisa dos Wolves havia menos de um minuto, e o jogo já parecia um jogo diferente.
Eu não ia investigar isso. Ia patinar mais forte, bater com mais precisão e manter cada costura fechada na imagem que eu tinha passado dois anos construindo. O garoto de ouro não rachava. Não sob essas luzes. Não diante de três mil pessoas que achavam que sabiam exatamente para quem estavam olhando.
A buzina final soou. 4–2. O vestiário era só gritos, tapas nos ombros e música alta demais, e eu mal ouvi qualquer coisa. Sentei no meu lugar, desamarrando os patins com mãos que não estavam totalmente firmes, vendo o vapor subir das minhas proteções.
— Drake. — A voz do técnico Harlan atravessou o barulho. — Na minha sala. Traga o novato.
Ergui os olhos.
Ares Cole estava junto à porta, o capacete debaixo de um braço, o cabelo escuro úmido e bagunçado. O sorriso enfim apareceu — pequeno, privado, lançado de um lado ao outro da sala para mim e para ninguém mais. Uma sala cheia de gente, e foi direto para uma pessoa só.
— Bem-vindo ao time — disse o técnico, dando um tapinha no ombro dele.
Os olhos dele encontraram os meus.
— Nós já nos conhecemos.
Três palavras. Metade da sala perto o bastante para ouvi-las, e nem uma pessoa olhando.
Eu parei de respirar.
