
O Garoto de Quem Eu Não Me Lembro
Skyeagle · Concluído · 344.6k Palavras
Introdução
“Não estou aqui para destruir a sua vida”, eu disse, sustentando o olhar dele para que entendesse que eu poderia, se quisesse. “Estou aqui porque o cara naquele sofá não estava fingindo. Ele foi real por três minutos.” Não pisquei. “Eu quero aquele cara. E não vou a lugar nenhum até conseguir.”
Ethan Drake é o garoto de ouro do time universitário de hóquei — o capitão disciplinado, astro bolsista e futura promessa da NHL, cujo sorriso nunca vacila. Por trás da imagem impecável, porém, Ethan está se afogando em um segredo que pode lhe custar tudo: ele é gay. A única prova é um beijo bêbado no verão passado com um garoto cujo rosto ele não consegue lembrar — até que o novo calouro transferido entra no vestiário com uma pequena e inconfundível cicatriz no lábio inferior.
Ares Cole é tudo que Ethan treinou a si mesmo para ignorar: tatuado, de língua afiada e assumidamente gay. Ele foi exposto no ensino médio, perdeu a bolsa e se transferiu duas vezes antes de acabar aqui. Agora está dividindo o quarto de Ethan durante a temporada e carrega um vídeo borrado de celular daquela noite — um que mostra a bolsa do time de Ethan ao fundo.
Ares passou um ano procurando o garoto que o beijou como se aquilo fosse de verdade. Ele não vai embora até Ethan admitir a verdade.
Preso entre a vida que construiu e a que deseja, Ethan é forçado a escolher. Quando Ares anuncia que vai sair do time se Ethan não parar de se esconder, tudo explode em um confronto cru e público diante da arena inteira. O segredo de Ethan vem à tona — não nos termos dele, mas no gelo, onde isso mais importa.
Capítulo 1
Ponto de vista de Ethan
Eu o beijo como se não comesse há anos.
Aí eu esqueço o rosto dele.
Chuva. Música. Bebida. Mãos. Risadas.
Dedos frios. Menta. Alguém sussurrando: “Talvez no próximo verão.”
Depois, escuridão.
O apito do juiz me puxa de volta.
Ethan Drake. Número 19. Capitão dos Ridgewood Wolves. Três mil pessoas no ginásio e cada uma delas sabia exatamente onde eu estava.
No segundo em que saí do túnel, a seção dos estudantes começou. Drake. Drake. Drake. Foi ficando mais alto rápido, se empilhando até eu sentir aquilo batendo nas minhas ombreiras.
Eu não olhei para o telão. Não precisava. Meu rosto já estava lá em cima. Metade das camisas nas arquibancadas tinha meu nome nas costas. Quando tantos olhos estão em você, você simplesmente sabe.
Puxei um fôlego gelado do ar da pista e cravei as lâminas no gelo. Todo o resto num lugar desses podia te enganar. O frio nunca enganava.
— Olhos pra cima — eu disse, com a voz que o técnico gostava. — A gente termina como começou. Nada de relaxo.
Asher Kane encostou o taco no meu. Ala direita, meu melhor amigo desde o primeiro ano.
— Tá bem, Cap?
— Sempre. — Aí, porque ele ia perceber se eu deixasse limpo demais: — Pergunta de novo depois que a gente fechar isso.
O apito soou. Ganhei o face-off limpo e mandei o disco pra trás antes mesmo de o centro deles se mexer. A gente pressionou. A torcida se levantou. Tudo ficou vivo — taco esticado, o disco já na minha cabeça meio segundo antes.
Faltavam seis minutos pro fim do segundo período. A gente ganhando de 2 a 1 da Eastern Michigan. O placar não valia porra nenhuma. Um turno ruim e os olheiros lá em cima começam a escrever sobre minha liderança em vez do meu jogo. Uma troca de linha mal feita e aquela carta na minha mesa em casa — a que eu li onze vezes — vira um “não” educado. Eu tinha construído a temporada inteira em torno daquela carta. Não podia perder por causa de um turno.
Toquei pra Asher, fita na fita. Ele atravessou a linha azul, fingiu duas vezes, chutou. O goleiro espalmou pra fora. Eu já estava indo pra cima do gol, ombro no defensor deles. O rebote ficou solto no garrafão. Meu taco achou antes de mim. Eu enfiei por baixo do travessão.
Luz de gol. Sirene. 3 a 1.
O ginásio enlouqueceu.
Eu não dei pra eles o sorriso de pôster — aquele que está pendurado do lado de fora do centro atlético, só maxilar e covinha. Patinei até o banco, bati luvas ao longo da linha, mantive o rosto bem onde as câmeras queriam. Já pensando no próximo turno.
Manter a máquina rodando. Esse era o trabalho.
E se eles soubessem?
Eu enfiei de volta na caixa e sentei: a bolsa, a carta que eu li onze vezes e, por baixo de tudo, a coisa que um cara no porão de um desconhecido descobriu sobre mim no verão passado em menos de um minuto porque eu deixei.
— Drake. — O latido do técnico Harlan cortou o barulho. — Troca de linha. Fica esperto.
Voltei pro gelo, as pernas pesadas. Asher colocou uma garrafa d’água na minha mão sem dizer nada. Ele sempre sabia. Bebi metade, limpei a boca no dorso da luva e encarei o gelo.
O sistema de som chiou.
— Entrando pelos Wolves — número 7, Ares Cole!
A torcida reagiu mais com um “hã” do que com um grito. O nome vinha circulando no vestiário a semana toda. Transferido de algum programa lá do oeste, apareceu no meio da temporada, alguma situação sobre a qual ninguém falava. O técnico disse que ele era talentoso e difícil, e deixou por isso mesmo. Não era problema meu. Eu já tinha decidido.
Então ele passou por cima da balaustrada.
Ele não correu. Ele deslizou, como se o gelo estivesse esperando por ele. Um e noventa, talvez mais, corpo feito pra contato, mas leve nas lâminas. Tatuagens escuras descendo pelos dois antebraços, por baixo das mangas. Capacete bem afivelado. Não olhou pro banco. Não olhou pra torcida. Três mil pessoas e ele se movia como se nenhuma delas tivesse qualquer direito sobre ele. Tomou o centro como se aquele lugar sempre tivesse sido dele.
O disco caiu. Ele ganhou o face-off antes que o center deles terminasse de pensar, girou e carregou reto pelo nosso sistema defensivo antes que eles se organizassem. Duas passadas dentro do slot, sem olhar, sem hesitar, soltou um wrist shot no ângulo, do lado da luva. Limpo. O bloqueador do goleiro mal se mexeu.
Luz do gol. Sirene. 4–1.
A arena veio abaixo.
Ares patinou de volta no mesmo ritmo em que saiu. Sem soco no ar. Sem bater no capacete. Nada. Tinha acabado de marcar contra um time ranqueado nos primeiros quarenta segundos com a camisa dos Wolves e o rosto dele não mudou — nem por causa do gelo, nem por causa do barulho, nem por causa do gol.
Ele passou pela nossa linha. Os olhos subiram uma vez e seguraram os meus por menos de um segundo.
Eu desviei primeiro. Minha pista. Meu nome nas costas de cada camisa nas arquibancadas. E eu desviei primeiro.
— Drake! — o técnico bateu palmas, seco, por cima do barulho. — É esse o padrão!
O banco comemorou. Asher me cutucou com o cotovelo.
— O moleque não brinca em serviço.
— Não. — saiu meio atrasado, meio fora do tempo. Eu ouvi e puxei de volta. — Não brinca. Melhor pra gente.
Sentei. Meus joelhos não paravam quietos sob as caneleiras. A cicatriz no meu lábio — lisa, curada havia meses — repuxou no frio. Pressionei a língua por dentro, contra ela. Velho hábito. Um que eu tinha parado de deixar chegar até o fim.
Ares se jogou na ponta oposta do banco. O suor já escurecia a borda do capacete. Tirou uma luva e flexionou a mão duas vezes — nós dos dedos, depois os dedos. As tatuagens se mexeram junto. Linhas pretas, nítidas. Constelação, talvez. Difícil dizer daqui.
Então eu vi.
Uma cicatriz. Uma linha branca fina atravessando a curva do lábio inferior.
A chuva. O porão. Menta. Aquela mesma cicatriz prendendo na minha boca, bem antes de—
Não.
Impossível.
Ele ergueu o olhar. Eu não tinha desviado rápido o bastante. O canto da boca dele tremeu — não chegava a ser um sorriso — e sumiu antes que a torcida terminasse de rugir por um gol que já tinha trinta segundos.
Virei de volta para o gelo. Apertei as luvas. Acompanhei o disco.
Apito para o próximo face-off. Empurrei o corpo para fora do banco e mantive a voz exatamente onde ela precisava estar.
— Vamos, Wolves.
Saltei por cima da borda. Os patins morderam o gelo. Quarenta segundos até a queda do disco, e eu passei cada um deles repetindo as mesmas três frases que eu sempre usava. Você está bem. Você está no controle. A armadura aguenta.
Ares Cole estava com a camisa dos Wolves havia menos de um minuto e o jogo já parecia diferente.
Eu não ia investigar isso. Eu ia patinar mais forte, dar entradas mais limpas e manter cada costura bem fechada na imagem que eu tinha passado dois anos construindo. O queridinho de ouro não rachava. Não sob essas luzes. Não na frente de três mil pessoas que achavam que sabiam exatamente quem estavam olhando.
Sirene final. 5–2. O vestiário era só gritaria, tapas no ombro e música alta demais. Eu mal ouvia qualquer coisa. Sentei no meu lugar, desamarrando os patins com mãos que continuavam embolando nos cadarços, observando o vapor subir das minhas proteções.
— Drake. — a voz do técnico Harlan atravessou o barulho. — Meu escritório. Traga o novato.
Ergui a cabeça.
Ares Cole estava perto da porta, capacete debaixo de um braço, cabelo escuro úmido e bagunçado. O sorriso finalmente apareceu — pequeno, reservado, apontado do outro lado da sala para mim e para mais ninguém. Uma sala cheia de gente, e ele mirou exatamente uma delas.
— Bem-vindo ao time — disse o técnico, batendo no ombro dele.
Os olhos dele encontraram os meus.
— A gente já se conheceu.
Três palavras. Metade da sala perto o bastante para ouvir, e ninguém olhando.
Eu parei de respirar.
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