Capítulo 2 Ele me beijou primeiro
Ponto de vista de Ares
Encontrei você.
Quarenta e três segundos e eu já tinha incendiado o jogo. Nada mal para o novato sobre quem o lugar inteiro passou uma semana cochichando.
Encrenca. Atitude. Não se acostuma.
Eles não faziam a mínima ideia.
Saltei por cima da mureta e me joguei na ponta do banco, pernas esticadas, o capacete ainda bem preso, o suor descendo pela minha coluna sob as ombreiras. Um prédio maior do que o da minha última escola. Luzes mais fortes, torcida mais barulhenta, Divisão I, de verdade. Nada disso importava. A única coisa naquele prédio que valia a pena ver estava dois lugares adiante, se esforçando ao máximo para não existir.
Ethan Drake.
Capitão. Queridinho. O rosto em todo pôster no centro estudantil. O cara que me beijou como se o mundo estivesse acabando no verão passado e depois sumiu antes que eu soubesse o nome dele.
Flexionei os dedos dentro das luvas e deixei meu olhar deslizar. Ele encarava reto à frente, ombros travados sob o vermelho e branco, as luvas prensadas na mureta como se soltar fosse virar o banco inteiro. Número 19. Ele não olhou para mim uma única vez desde aquele meio segundo no gelo.
Mesmo assim, ele sentiu que eu estava olhando. Eu fiz questão.
A cicatriz no meu lábio inferior repuxou quando eu sorri de canto. Ainda estava ali. Ainda era minha. Uma linha fina, prateada, onde os dentes dele me pegaram — vodca barata, luzinhas penduradas, os punhos dele torcidos na minha camisa como se estivesse se afogando e eu fosse a única coisa sólida que restava. Ele estava bêbado. Eu não.
Eu lembro de cada segundo.
O grave subindo pelas paredes. A chuva nas janelas. Um cara num canto rindo alto demais de nada, e Ethan prensado em mim naquela parede do porão, olhos semicerrados, a respiração ardida de vodca e de alguma coisa mais doce por baixo, a mão dele fechando no meu colarinho como se fosse me empurrar para longe antes que aquilo o puxasse para dentro.
“Quem é você?”, ele sussurrou, com a boca já na minha.
“Quem você precisar que eu seja.”
Aí ele me beijou. Forte. Desesperado. Como se tivesse passado a vida inteira esperando alguém lhe dar permissão e, finalmente, tivesse perdido a paciência com isso.
Eu já tinha beijado muita gente antes dele. Ninguém me beijou daquele jeito.
De manhã, ele tinha sumido. Sem nome, sem número. Só uma bolsa de hóquei da Ridgewood meio enterrada atrás de um sofá e dez segundos borrados que alguma garota filmou antes de eu derrubar o celular dela. Dava para ver a bolsa. Dava para ver o jeito como ele se agarrava a mim. O rosto dele nunca entrou no enquadramento — escuro demais lá embaixo —, mas eu não precisava do rosto. Eu tinha o número aparecendo para fora daquela bolsa.
Dezenove.
Um ano procurando por ele. Doze meses de escalações, melhores momentos e fotos de time até meus olhos arderem, duas transferências, todas as pontes atrás de mim iluminadas e queimando. Tudo isso pra me trazer até este banco, a duas cadeiras da única pessoa que eu já quis tanto assim, e ver ele decidir que eu era um estranho.
Ele não se mexeu quando chamaram meu nome. Não reagiu quando eu marquei. Não piscou quando eu me sentei perto o bastante pra encostar no joelho dele.
Se o cara naquele porão só existia bêbado, eu tinha incendiado a minha vida inteira correndo atrás de alguém que nunca foi real. Flexionei as mãos dentro das luvas até firmarem, e então empurrei o pensamento pra longe, porque parecer intocável era a única coisa que eu fazia melhor do que qualquer um.
O técnico Harlan bateu uma mão no meu ombro. “Belo gol, Cole. Mantém esse fogo.”
“Tô trabalhando nisso, técnico.” Seco. Fácil. Eu tinha muita prática em soar assim — depois que um colega do meu último colégio me expôs por diversão, depois que a bolsa foi pro ralo, depois de doze meses encaixotando a vida. Armadura, montada peça por peça. Tatuagens subindo pelos dois braços. Uma boca que cortava primeiro. Uma reputação que dizia pras pessoas caírem fora.
Funcionava toda vez.
Apito. Próximo turno. Fiquei fora por dois minutos e vi Ethan dominar o gelo — bom, melhor que bom, passes limpos, checagens duras, os caras se mexendo no segundo em que ele apontava. Mas os olhos dele continuavam vindo na minha direção e se desviando de volta como se eu fosse um fogão quente, e depois de um chute perdido o taco dele desceu com mais força do que o gelo merecia.
Ele estava perdendo a briga pra esconder. Ótimo.
O técnico tocou meu ombro e eu já estava de pé. “Cole — você vai com a linha do Drake. Quero ver.”
Saltei por cima da borda e entrei no gelo liso. A torcida se animou. Eu não olhei pro telão. Eu sentia o olhar do Ethan na nuca durante todo o deslize até o centro.
Ele se posicionou bem na minha frente, perto o bastante pra eu sentir o sal do suor dele e a cera da fita no taco. Os olhos dele encontraram os meus pela primeira vez desde o gol — azuis, cortantes, todas as paredes erguidas. Sem sorriso. Sem boas-vindas. A máscara de capitão, aparafusada no lugar.
Deixei um meio sorriso lento atravessar meu rosto. A cicatriz repuxou.
O juiz soltou o disco.
Eu ganhei o faceoff limpo, porque eu queria que ele sentisse exatamente o quanto era fácil. Disco na minha lâmina, girei passando pelo centro deles e carreguei pro ataque, e Ethan veio junto, passada por passada, como se tivesse algo a provar pra alguém. Eu podia ter passado pra ele. Provavelmente devia. Eu quis ver o que ele faria se eu pressionasse em vez disso.
Fingi que ia pela esquerda, cortei pra direita e enfiei por dentro das placas. Ele leu perfeito e jogou o ombro, e eu aceitei a pancada de propósito — meio segundo dele colado em mim, sólido e quente por baixo de todo aquele equipamento, e meu corpo inteiro lembrou daquele porão antes que minha cabeça conseguisse acompanhar e impedir. A boca dele se desfazendo na minha. O mesmo calor. Prédio errado.
Girei pra escapar da checagem e servi Asher Kane limpinho, na fita do taco. Kane enterrou. 5–1, sirene, a torcida enlouquecendo.
Fui batendo luva na fila como um bom companheiro. Mas quando Ethan passou patinando em direção ao banco, deixei minha lâmina roçar na panturrilha dele — só o suficiente.
Ele se sobressaltou.
— Boa pancada, capitão — eu disse, baixo o bastante pra ser só pros ouvidos dele.
A cabeça dele virou num estalo, olhos arregalados por meio segundo antes de a máscara descer de novo. — Fica na tua, novato.
Eu ri, baixo. — Minha “tua” é onde você estiver hoje à noite.
Os olhos dele cortaram pro banco — Asher rachando o bico com alguma coisa que o técnico disse, o resto dos caras virando água e discutindo defesa, ninguém olhando — e a mão dele apertou o taco, e ele não recuou, e ele não desviou o olhar, e nenhum de nós fez nada a respeito do quão perto a gente estava de alguma coisa que não dava pra desfazer.
Ele não respondeu. Só patinou mais forte.
Eu fui atrás e sentei bem do lado dele dessa vez, ombros quase encostando. O banco estava lotado e barulhento, capacetes levando tapinha, jogadas sendo gritadas. Ninguém percebeu a coxa dele endurecer como pedra contra a minha.
Ele não se afastou.
Aí está você, Drake.
Tirei uma luva e enxuguei o rosto, e as tatuagens pegaram a luz da arena — constelações negras subindo pelo meu antebraço, tinta feita depois que meu time antigo virou as costas pra mim, prova de que o céu não desaba só porque as pessoas veem quem você realmente é. Eu me perguntei se ele já tinha notado.
O jogo terminou 5–2 e a gente seguiu pro túnel, Ethan dois passos à frente, ombros quadrados, cada centímetro o queridinho intocável — até ele olhar pra trás uma vez, só uma, e nossos olhos se prenderem.
Ele desviou rápido.
O vestiário dobrou o barulho. Proteções saindo, gols sendo reprisados, a caixa de som de alguém brigando com o som dos chuveiros. Achei meu lugar, larguei o capacete, comecei a desamarrar. A cicatriz latejou e eu passei a língua por ela sem pensar.
— Cole.
A voz dele cortou tudo. Três lugares adiante, camisa já fora, proteções meio soltas, o peito ainda corado do gelo, o cabelo escuro de suor, as mãos ocupadas demais com uma fivela que já estava aberta. — Boa troca.
Sustentei o olhar dele. — Valeu, capitão. Você me deixou na boa naquela segunda.
Ele não sorriu. — Esporte coletivo. A gente sobe junto.
— Ou cai junto — eu disse, erguendo um ombro. — Depende do quanto a gente decide ser honesto.
Por um segundo o rosto dele esqueceu todas as regras que tinha. Aí ele virou de volta pro lugar dele rápido demais e puxou uma proteção como se ela tivesse ofendido ele pessoalmente.
Eu puxei minha camisa de treino por cima da cabeça. Deixei ele olhar.
Eu não tinha vindo pra facilitar pra ele. Eu tinha vindo pra ficar até ele parar de correr do que queria e admitir que eu era dele.
Depois do jogo, o técnico Harlan chamou nós dois pro escritório. Expectativas, entrosamento, primeira linha com Drake na semana que vem se eu continuasse produzindo. Ethan ficou rígido ao meu lado e assentiu nos momentos certos e deu as respostas certas, a voz passada a ferro, os olhos fixos no técnico como se eu não estivesse na sala. Modo capitão. Eu já reconhecia de longe.
— Café? — o técnico apontou pra garrafa em cima do arquivo. — Algum de vocês?
— Não, obrigado — Ethan disse.
— Tô de boa — eu acrescentei.
O técnico se recostou. — Cole, você vai ficar no quarto do Drake a partir de hoje. Drake, espero que você coloque ele a par — sistemas, horários, cultura do time. Vocês dois encontrem o ritmo de vocês e vamos ser imparáveis até os playoffs.
Ethan não reagiu. Nem piscou. Seja lá quanto isso fosse custar pra ele, ele já tinha decidido que não ia deixar transparecer ali.
— Entendido — ele disse. Já estava meio caminho até a porta.
— Dispensados.
Eu fui atrás. A arena tinha ficado quieta — a maioria dos caras já tinha ido pros dormitórios ou pros bares — só as luzes zumbindo lá em cima e o Zamboni roncando em algum lugar no gelo. Os passos dele estalaram no concreto, acelerando, como se distância fosse consertar isso.
Deixei ele abrir uns três metros. Quatro e meio. Seis.
Aí eu parei de andar.
— Então...
Ele congelou.
O corredor se esticou entre nós, e os ombros dele subiram e desceram num suspiro que eu conseguia ver de longe. Ele não se virou.
Eu dei um passo. Depois outro. Devagar. O mesmo deslize que eu tinha usado pra marcar em cima dele na frente de três mil pessoas.
— O técnico comentou da situação de moradia, aliás — eu disse. — Parece que a gente vai dividir um quarto, Drake. A partir de hoje.
As costas dele enrijeceram, devagar, de baixo pra cima. — Tá. Beleza.
Ele virou pra ir embora de novo, e eu não consegui me segurar.
— Você realmente não se lembra de mim?
